Há 30 anos, EUA derrubaram avião iraniano e mataram 290 pessoas por engano; relembre
Tragédia do voo Iran Air 655, abatido por navio de guerra em 1988, deixou marcas profundas nas relações entre os dois países
Internacional|Do R7

Em 3 de julho de 1988, o navio de guerra norte-americano USS Vincennes derrubou por engano o voo 655 da Iran Air, um Airbus A300, que fazia a rota entre Teerã, no Irã, e Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.
Todas as 290 pessoas a bordo, dos quais 274 eram passageiros e 16, tripulantes, morreram. Entre as vítimas, estavam 65 crianças, a maioria de nacionalidade iraniana.
O incidente, ocorrido em meio à guerra entre Irã e Iraque, foi resultado de uma série de erros e mal-entendidos, e até hoje é lembrado como um marco nas tensões entre Estados Unidos e Irã.
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Na década de 1980, Irã e Iraque estavam envolvidos em um conflito marcado por disputas territoriais e ataques a petroleiros no Golfo Pérsico, uma região estratégica para a extração e distribuição de petróleo.
Os Estados Unidos, aliados do Iraque na época, mantinham uma forte presença militar na área para proteger o transporte de petróleo, especialmente por meio da operação naval “Earnest Will”.
O USS Vincennes, equipado com o avançado sistema de combate Aegis, era um dos navios mais modernos da Marinha norte-americana e patrulhava o Estreito de Ormuz, que voltou aos holofotes após os bombardeios dos EUA às instalações nucleares iranianas, em junho.
Na manhã daquele 3 de julho, o Vincennes perseguia pequenas embarcações iranianas da Guarda Revolucionária, suspeitas de atacar um navio mercante.
Um helicóptero de reconhecimento do navio relatou ter sofrido disparos, o que levou o capitão William C. Rogers III a ignorar ordens de manter sua posição e avançar em direção às águas iranianas.
Ao mesmo tempo, o voo 655 da Iran Air decolava de Bandar Abbas, um aeroporto de uso misto (civil e militar), com cerca de meia hora de atraso.
Erro fatal
Enquanto o USS Vincennes monitorava a região, o Airbus A300 foi detectado pelos radares do navio. Por engano, os militares americanos identificaram o avião como um caça F-14 iraniano, uma aeronave militar que o Irã possuía desde antes da Revolução Islâmica de 1979.
Apesar de o voo 655 estar em um corredor aéreo internacional, com o transponder configurado corretamente com o código 6760 (indicando uma aeronave civil), a tripulação do Vincennes interpretou mal os sinais.
Durante cinco minutos, o navio tentou contato com o avião por rádio: sete tentativas foram feitas em uma frequência militar, que o Airbus, por ser uma aeronave civil, não podia receber, e quatro na frequência de aviação civil.
No entanto, apenas uma dessas mensagens mencionou o código do voo 655, o que dificultou a identificação pelos pilotos. Além disso, os equipamentos do Vincennes não monitoravam as frequências civis de tráfego aéreo, o que contribuiu para a falha de comunicação.
Os militares norte-americanos, sob pressão e em um ambiente de alta tensão, interpretaram que o avião estava descendo e acelerando em direção ao navio, sugerindo uma possível manobra de ataque.
Essa percepção, porém, foi incorreta: o Airbus A300 ainda estava em fase de subida, seguindo sua rota planejada. Às 10h24, o capitão Rogers ordenou o disparo de dois mísseis terra-ar SM-2, que atingiram o avião em cheio. Não houve sobreviventes.
Investigação e consequências
Um relatório da OACI (Organização da Aviação Civil Internacional), ligado à ONU (Organização das Nações Unidas), apontou uma série de falhas que levaram à tragédia. Entre os erros, destacam-se:
Confusão na identificação: o radar do Vincennes identificou erroneamente o Airbus como um caça F-14, possivelmente porque um caça estava na pista de Bandar Abbas no momento da decolagem;
Falta de comunicação: as tentativas de contato não foram claras, e o navio não tinha equipamentos para monitorar as frequências civis de tráfego aéreo; e
Erro humano: a tripulação do Vincennes sofreu de “confirmação de cenário”, uma condição psicológica em que, sob estresse, os militares interpretaram os dados como uma ameaça iminente, mesmo sem evidências concretas.
O relatório também criticou o Irã por permitir voos civis em uma área de conflito, mas não atribuiu culpa direta aos pilotos do voo 655, que seguiram todos os protocolos.
A tragédia gerou comoção no Irã, onde milhões assistiram pela TV às imagens dos destroços e corpos flutuando no Golfo Pérsico.
O incidente aprofundou a desconfiança entre Irã e EUA, já abalada desde a Revolução de 1979, que derrubou a monarquia aliada dos norte-americanos.
O governo iraniano acusou os EUA de abaterem o avião intencionalmente, enquanto os norte-americanos classificaram o caso como um “incidente trágico” causado pela “névoa da guerra”.
Desdobramentos diplomáticos
Em 1996, após um longo processo no Tribunal Internacional de Justiça, em Haia, os Estados Unidos concordaram em pagar US$ 61,8 milhões (valor da época) como compensação às famílias das vítimas e expressaram “profundo pesar”.
No entanto, os EUA nunca emitiram um pedido formal de desculpas. O capitão Rogers e outros tripulantes do Vincennes foram condecorados ao retornar ao país, o que foi interpretado pelo Irã como uma provocação.
A guerra entre Irã e Iraque terminou um mês após o incidente, em agosto de 1988. Alguns analistas sugerem que o abate do voo 655 pode ter influenciado o Irã a aceitar o cessar-fogo, temendo uma maior intervenção norte-americana ao lado do Iraque.
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