'Herói da resistência' passou anos na floresta em luta contra nazistas
Moisés Szutan, de 93 anos, contou ao R7 a sua dramática aventura quando, aos 14 anos, fugiu do gueto para combater e resistir às forças alemãs
Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

A decoração da casa do sr. Moisés Szutan, de 93 anos, é tão reveladora quanto o vigor de seu olhar. Móveis confortáveis, mas sem ostentação. Cores leves. Quadros, com toques modernos e impressionistas, longe de serem sombrios. Dois deles, retratos de pessoas fundamentais em sua vida: sua mãe, Chana, e sua esposa, Clara, ambas falecidas. Mas ainda presentes na rotina dele.
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A sabedoria do sr. Moisés, um sobrevivente da Segunda Guerra que entrou para a resistência armada, no meio de uma floresta em Vilna, foi justamente essa. Discernir entre o que manter dentro dele e o que deixar de lado, para seguir em frente. Mesmo diante das adversidades mais bárbaras.
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Como as que se seguiram após a Alemanha nazista, em 1940, invadir a Lituânia, então controlada pelos soviéticos, e tomar a cidade de Vilna, onde ele nasceu, confinando cerca de 70 mil judeus em um gueto formado basicamente por três ruas. "Dormiam pelo menos 15 pessoas em cada quarto", lembra o sr. Moisés.

Quando Moisés, ainda com 14 anos, decidiu se arriscar e resistir na floresta ao lado do gueto, sua mãe, de tão contrariada, se negou a se despedir dele. Aparentemente, temia que ele morresse diante da sanha dos guardas nazistas em matar judeus.
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"Antes de sair para a floresta, me despedi de meu pai, da minha irmãzinha de seis anos, da minha irmã mais velha e do meu cunhado. Quando chegou a vez de me despedir de minha mãe ela virou as costas e não quis se despedir de mim. Então entrou na minha cabeça que ela sempre está comigo. Porque ela não quis se despedir de mim", diz.
De frente para a realidade
Alto, com olhos claros e uma postura ainda firme, este "herói da Resistência" conta sua história sem rancor, até com uma dose de alegria. Aquela alegria que trabalhou com a tristeza e com ela adquiriu sabedoria. Uma alegria que entende que a vida é mesmo estranha, que crueldades como a do nazismo são reais, mas que há um sentido maior acima disso, um sentido que faz a união superar o absurdo.
"Então na floresta, passei em muitos lugares perigosos, fui ferido na perna esquerda. Fiquei quase quatro anos (de 1941 a 1944). Comida era muito difícil, não tinha armamento no começo. À noite íamos a aldeias próximas para trazer comida. Fazia muito frio. Meu pai fez uma bota para mim e me deu uma jaqueta e por isso não passei frio, mas quem estava lá passava. No começo éramos 50, 60 pessoas, mas depois foi aumentando com judeus que conseguiam sair do gueto e russos católicos que conseguiam sair da prisão na Alemanha", lembra o ex-combatente, nascido em 26 de junho de 1926.

Ao relatar momentos dramáticos, essa alegria se mantém em sua fala orgulhosa, dinâmica, autêntica, como se, mesmo com 93 anos, ele mantivesse em si aquele menino ousado, que se sentia capaz de superar os desafios. O sr. Moisés demonstra não ter receio em enfrentar a realidade, seja ela qual for. Ele mesmo vai discorrendo, sem precisar de perguntas.
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"Os que ficaram no gueto foram mortos pelos nazistas. Morreram meu pai, minha mãe, minha irmãzinha de seis anos, minha irmã mais velha e meu cunhado", diz.
E prossegue, com uma compreensão que se transformou em companheira. Uma saudade que é como um parente e se mistura docemente à sua rotina atual e à presença dos que vieram depois.
"Em Jerusalém tem um museu que chama Yad Vashem, lá tem a história de uma moça que eram partisan, Vitka Kovner, e de Yulek Harmatz. Falam em ingles sobre os meninos que atravessavam a cerca e traziam comida, justamente falavam de mim", ressalta.

Vitka Kovner foi uma famosa partisan (nome dos membros da resistência), que depois se casou com Abba Kovner, comandante dos resistentes daquela floresta. O clima de companheirismo certamente ajudou todos os combatentes a viverem uma guerra completamente diferente dos que foram para os campos de concentração.
Enfrentando os nazistas
O sr. Moisés nunca foi para um campo de concentração. A aventura, no entanto, era bem difícil. Um risco permanente. Ele sabia que os alemães eram inimigos por sua própria experiência no gueto. Sentia, em meio ao frescor das plantas, ao cheiro da terra e ao silêncio da noite, que tinha uma missão.
Seu grupo recebia armamentos de paraquedistas russos que conseguiam escapar da guerra e buscavam aliados contra os alemães. Também obtinha armas na vizinhança. E a principal tarefa era dinamitar trilhos de trens com soldados alemães.
Numa ocasião, um grupo de soldados alemães o perseguiu em uma emboscada. Debaixo de uma ponte, os nazistas esperaram que eles passassem e começaram a atirar. Alguns do seu grupo morreram. Ele levou um tiro na perna esquerda, mas conseguiu fugir.
"Nos primeiros metros, não senti dor e corri. Mais na frente, depois de 1 km, caí. Um russo me levou à base. Lá havia um médico, que não era médico...Mas nós confiávamos. Pediu para eu mexer o dedo e nada. Achou que deveria amputar minha perna, para eu não ter infecção. Mas o comandante preferiu esperar uns dias. E depois de quatro dias comecei a mexer e voltou ao normal. Eu sempre soube que iria melhorar. Tinha certeza", conta.

Em outro momento, quando iam buscar comida, eles se depararam com três soldados alemães na casa de um morador da região. Houve uma luta corporal e os alemães, em menor número, foram capturados. Em certo momento, na trilha, quando um dos partisans foi urinar, os alemães, deitados de bruço, tentaram reagir.
"Um tentou me prender pelas costas", conta Moisés. "Quando ele pulou e me segurou, só tive tempo de enfiar a ponta da metralhadora na barriga dele. Era matar ou morrer naquele momento. O comandante, depois, reclamou que deveríamos tê-los mantido prisioneiros para pegar informações. Mas não tinha outro jeito", revela. Os outros dois soldados também foram mortos ao tentarem escapar.
O fim da guerra
Quando os russos libertaram Vilna, o grupo se dissolveu e Moisés retornou para sua cidade natal, onde morou por um tempo, trabalhando como policial para oficiais russos. "Cuidava de um banco", fala, com bom-humor.
Mesmo em um mundo caótico, ele tinha a habilidade de fazer amigos. Com boa conversa, conhecia pessoas por onde quer que passasse. "Era eu quem ia na frente do meu grupo, na floresta, para pedir informações sobre lugares ou sobre os alemães. Um oficial russo me instruiu. Pergunte sobre cinco lugares quando quiser saber de um. Porque se os alemães interrogarem o informante, ele não vai saber para onde você foi."
Mesmo tendo tomado a iniciativa de se proteger, ele sabe que faz parte de uma minoria. E não condena a maioria.
"Sinto muito orgulho por ter feito o que eu pude para ajudar pessoas. Eu gostava quando conseguia dinamitar os trens com alemães que iriam matar judeus. Os judeus que não sobreviveram ou que foram para o campo de concentração não tinham outra alternativa. Não tinham como se defender, estavam sem armas."
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Nas andanças após a guerra, ficou inteirado sobre as ações do Marechal Tito, como partisan. "O grupo de partisans da Iugoslávia era o mais forte."
Mas as exigências da guerra, em busca de um local seguro, fizeram o sr. Moisés deixar Vilna para ir morar na Polônia, na Romênia e depois na Itália. Aproveitou a vida em Milão para assistir a jogos da Internazionale. "Era bom morar na Itália, mas o país vivia uma crise e tivemos de sair."
Ele acha graça em relação à maneira com que veio parar no Brasil, em 1947.
"Não cheguei a ir para Israel, meu irmão não queria, tínhamos um conhecido que trabalhou antes da guerra na oficina do meu pai. Ele nos trouxe para o Brasil. Ele que nos chamou e providenciou os documentos. Interessante, meu irmão se lembrou do funcionário, que foi em 1934 para o Brasil. Disse para meu pai que iria em navio clandestino, de carga. Meu pai rebateu 'O Brasil é um país de índios, vai para Argentina ou Estados Unidos'. Ele não cedeu. Meu irmão lembrou dele, mandou uma carta, sem saber o endereço. Só com o nome completo, cidade e país. Incrível, mas o correio o achou."

Lembranças eternas
Faço questão de perguntar os nomes, como uma forma de homenagem e para testar a memória do sr. Moisés. Ele aprecia. E lembra de todos. De Jacob Dreisenstock, o funcionário. De Abba, o comandante. De Vitka. Dos russos, dos companheiros. Do pai, Arieh (Leib). Da irmãzinha de seis anos (Branke). Da irmã mais velha (Rachel). Do cunhado (Berel). Do irmão (Pessach). Da irmã (Luba). Do amigo de gueto (Chaim Leib). De todos.
Muitos deles morreram no gueto. Outros sobreviveram, mas não estão mais por aqui. Luba morreu no Canadá, onde foi morar. Pessach, no Brasil. Moisés se firmou vendendo tecidos no Bom Retiro e depois montou uma rede de móveis, a Clamoi. Fez uma nova família na capital paulista.
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Bom de papo, insistiu no começo. Não desistiu enquanto não conseguisse um credor para vender tecidos. E, após quarta tentativa, um proprietário de loja, o sr. Gershon Blimas, emprestou a verba. "'Ouvi sua história e sou o dono da loja, pode levar a mercadoria', ele me disse. Comecei a vender e comecei ganhar, abri loja de roupas, depois de móveis e fui em frente." Ele ainda se casou com a filha dele. "Ele também foi um casamenteiro", brinca.
Para, pensa um pouco e emenda.
"Gosto do Brasil. Sempre gostei de Carnaval. E tenho dois filhos, quatro netos e cinco bisnetos", conta, orgulhoso. Sabe detalhes da carreira e da vida de cada um. Esbanjando o amor que ainda mantém seu coração aquecido.

Ele vive há mais de 20 anos em um apartamento amplo na zona oeste paulistana, cuja vista dá para um lindo bosque, muito parecido com a tal floresta. Mesmo sempre cercado pelos parentes, ele mora sozinho. E recebe a ajuda de uma funcionária leal, com quem também faz caminhadas próximas ao bosque.
"Quando olho pela janela, me lembro-me de lá (floresta) e gosto. Foi onde me mantive vivo e lutei contra o inimigo."
Enquanto o sr. Moisés fala, um insight me vem à mente. É provável que não tenha sido por medo dele morrer que a mãe recusou a despedida. Foi o contrário. Uma mãe só se despede mesmo de um filho quando tem certeza de que ele não voltará. E ele voltou.
"O sr. acha que sua mãe estaria feliz agora?", pergunto.
"Muito!"
Ele responde com o mesmo otimismo, com a mesma vibração. Vibe é uma palavra moderna que se adapta bem a esse nonagenário. Ele emenda:
"Não querem mais um cafezinho, um bolo?"
Olho, então, para o retrato da mãe, em um local especial da sala, ao lado da porta de entrada. Você acredita que, com o toque de mistério e de encanto de uma Mona Lisa, ela parece estar mesmo sorrindo?
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