"House of Cards" e "Homeland" mostram uma Washington além da Casa Branca
Internacional|Do R7
Cristina García Casado. Washington, 24 mar (EFE).- O Salão Oval, as reuniões e os organismos internacionais: assim é a Washington que existe no imaginário de milhões de pessoas já que a ficção nunca mostrou nada diferente. Até agora, quando "House of Cards" e "Homeland" despertam curiosidade para o que há além desses muros. Tantas vezes esquecida, Washington passa a se incorporar ao turismo de séries. Milhares de pessoas chegam à capital dos Estados Unidos para refazer os passos de seus novos personagens favoritos: o congressista sem escrúpulos, Frank Underwood, e a brilhante investigadora da CIA, Carrie Mathison. Os turistas querem comer costelas de porco com roupas iguais a do legislador no escondido Freddy's BBQ Join", correr pelo mesmo cemitério que a mulher mais-que-perfeita do congressista corre, reviver a tensão de Carrie na sequência da Praça Farragut, e tirar fotos na porta do apartamento da jovem em Adams Morgan. "O que essas séries fizeram foi transformar Washington em um personagem secundário da trama para ir além do palco da Casa Branca", comentou à Agência Efe Toni de la Torre, crítico especialista em séries de televisão, autor de "Las series que no me dejan dormir" (ainda sem edição para o Brasil). "Cada vez que vemos os personagens comerem em locais conhecidos ou passear por lugares típicos, a ficção está transformando também o espaço em um personagem", explicou. Washington foi cenário de incontáveis séries, mas até agora mostravam uma cidade com políticos, repórteres e funcionários que não saíam do trabalho ou iam ao supermercado. O exemplo mais claro é a mítica série "West Wing: Nos Bastidores do Poder" (1999-2006). Aaron Sorkin confinou seus personagens e uma legião de fãs durante 156 capítulos nas entranhas do número 1.600 da Avenida Pensilvânia: a Casa Branca. Antes e depois várias séries reduziram Washington a escritórios e reuniões: "Capital News" (1990), "Murphy Brown" (1988-1998), "Commander in Chief" (2005-2006),"Animais Políticos" (2012), "Scandal" e "Veep", entre outras. "O problema é que Washington foi para os criadores de séries mais um conceito do que uma cidade povoada de seres humanos. Por isso, aparecia até agora sempre como centro de poder e nunca como um personagem da história", disse à Agência Efe Pep Prieto, outro crítico de séries. Os dois sucessos da ficção mais recentes passados em Washington começam a inverter a tendência. Os personagens de "House of Cards" (exibido desde 2013) e "Homeland" (desde 2011) frequentam bares, andam na rua e usam pijama como o resto dos mortais, apesar de ter o que em Washington se conhece como "trabalhos tipo DC", ou seja, empregos no governo, o Congresso, um meio de comunicação ou um organismo internacional. Tamanha é a sua popularidade que foram lançados pacotes turísticos para "viver uma experiência House of Cards - ou Homeland - em Washington". Mas não se engane: nenhum dos lugares fetiche do calculista Underwood ou da obsessiva Carrie fica realmente em Washington. Os empecilhos burocráticos da capital fazem com que os produtores escolham lugares como Baltimore (Maryland) e Charlotte (Carolina do Norte) para as gravações. Nessas cidades não só encontram incentivos fiscais e preços muito mais acessíveis, como é possível economizar em medidas de segurança que imperam na capital especialmente após os atentados de 11 de setembro de 2001: é o preço que se paga por abrigar o presidente da nação mais poderosa do planeta. Assim, o congressista não conhece a jovem jornalista Zoe Barnes nas escadas do Kennedy Center de Washington, mas sim no Joseph Meyerhoff Symphony Hall de Baltimore, no estado de Maryland, a pouco mais de uma hora, mas onde poucos turistas se aventuram a ir por sua fama de decadente. Uma realidade certamente retratada exaustivamente por outra série: "A Escuta" (2002-2008). A distância entre cena e realidade irrita os verdadeiros moradores da cidade quase tanto quanto não mostrar a vida cotidiana de uma cidade vibrante, internacional e plácida como é, para surpresa de muitos, a capital administrativa e oficial dos Estados Unidos. Para eles, o cúmulo é uma das cenas mais lembradas de "Homeland": aquela na qual há um momento de grande tensão na Farragut Square que nada tem a ver com a insossa praça de Washington. Esta sequência comete um dos maiores erros nas localizações de Washington: mostrar uma cidade com edifícios altos quando, na realidade, e por uma lei que data de 1899, está proibida a construção de prédios de mais de 12 andares, a altura aproximada do Capitólio. Por isso os moradores de Washington, orgulhosos de sua privilegiada cidade de espaços abertos e muita luz, fazem cara feia quando veem retratada na tela uma cidade mais despojada da identidade que realmente tem, onde predominam, imponentes, o Capitólio e o obelisco do monumento a Washington. EFE cg/cdr-rsd








