Oito presidentes em 10 anos: conheça os principais escândalos dos últimos líderes do Peru
Prisões e acusações de corrupção foram recorrentes entre os últimos mandatários do país
Internacional|Jimena De La Quintana, da CNN Internacional
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Relógios da marca Rolex, uma cirurgia plástica no nariz, reuniões escondidas e encapuzado em um restaurante de comida peruano-chinesa, escândalos por supostas ligações com a empresa brasileira Odebrecht e construtoras locais, uma mensagem à nação para dissolver o Congresso e um presidente detido e preso nessa tentativa de romper a ordem constitucional.
Isso é apenas um resumo do que disparou várias crises políticas que levaram o Peru a ter oito presidentes nos últimos dez anos. O país sul-americano nunca teve uma década como esta, nem existe no mundo um caso similar.
Embora a crise peruana possa superar o roteiro de uma série política em qualquer plataforma de streaming, há um paradoxo: tudo ocorreu durante o período mais longo de democracia ininterrupta que o país teve, iniciado no ano 2000, após a renúncia e posterior destituição do ex-presidente Alberto Fujimori.
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Além disso, apesar das contínuas mudanças presidenciais, o Peru manteve o respeito pela institucionalidade econômica, o que o levou a continuar crescendo e a manter uma das moedas mais estáveis da região e do mundo, além de uma dívida pública controlável e importantes reservas internacionais, segundo o Banco Mundial.
Durante os últimos dez anos, houve dois períodos presidenciais de 5 anos cada um; em 2016 foi eleito Pedro Pablo Kuczynski e, em 2021, Pedro Castillo. O que deveria ter sido o mandato de dois presidentes tornou-se o de oito.
Qual é o legado desses presidentes? Como os peruanos se lembrarão deles? O que esta crise nos diz sobre a democracia peruana e o equilíbrio de poderes? Quando e por que nasce? O próximo presidente terá a mesma sorte?
O país terá um novo presidente, sim, e se tornará o nono desde 2016; isso ocorrerá quando for eleito o próximo mandatário nas eleições de abril.
E, como se não bastasse todos os mandatários que desfilaram pelo Palácio do Governo, são mais de 30 candidatos que se postulam para ser o próximo mandatário.
Pedro Pablo Kuczynski (2016-2018)
Saiu vencedor nas eleições de 2016, após vencer no segundo turno a candidata Keiko Fujimori, filha do ex-mandatário Alberto Fujimori.
O Congresso, de maioria fujimorista, tentou destituí-lo através de uma moção de vacância por incapacidade moral pela suposta relação que teve, antes de ser presidente, com a empresa brasileira Odebrecht.
Embora naquela vez os votos não tenham sido suficientes para o legislativo, em 2018 Kuczynski renunciou antes que se votasse uma segunda moção no Congresso para destituí-lo.
Horas antes, os legisladores do fujimorismo o acusaram de querer “comprar votos” no Congresso para evitar sua destituição, algo que Kuczynski sempre negou.
No plano penal, por estas supostas relações com a empresa Odebrecht, a Procuradoria da Nação acusa o ex-presidente pelo suposto crime de lavagem de ativos e pede para ele 35 anos de prisão.
Segundo disse à CNN Internacional Julio Midolo, advogado de Kuczynski, o julgamento do ex-presidente poderia iniciar no final do ano.
Segundo a Procuradoria, Kuczynski recebeu pagamentos da Odebrecht por assessorias financeiras realizadas por sua ex-empresa Westfield Capital, constituída nos Estados Unidos enquanto o ex-presidente foi funcionário do Governo de Alejandro Toledo (2001-2006).
Seu advogado assegura que as assessorias foram feitas e que isso foi informado à Procuradoria, mas que foi seu sócio na Westfield, e não Kuczynski, quem realizou o serviço.
O ex-presidente não conhecia as assessorias, nem participou delas, segundo seu advogado. “Ele não informou, não tinha por que informar a Pedro Pablo, que ia realizar assessorias financeiras com a empresa, porque a norma americana não exigia. Em nenhuma das assessorias Pedro Pablo participou diretamente”, disse o defensor, e acrescentou que isso “foi declarado por seu ex-sócio e funcionários” de um banco local que participaram da assessoria e inclusive “pelos representantes da Odebrecht”.
Kuczynski é atualmente candidato ao senado para as eleições de abril deste ano.
Martin Vizcarra (2018-2020)
Assumiu a presidência em substituição a Kuczynski. Vizcarra era seu vice-presidente e, segundo a linha de sucessão prevista na Constituição peruana, correspondia a ele assumir o cargo após a renúncia do mandatário.
Quase dois anos depois, Vizcarra foi destituído através de uma moção de vacância por incapacidade moral, após uma denúncia jornalística que indicava que o mandatário teria recebido dinheiro ilícito de empresas construtoras locais para favorecê-las com obras públicas, quando era governador da região de Moquegua entre 2011 e 2014.
Posteriormente à sua destituição, no âmbito penal, iniciou-se um julgamento contra Vizcarra por este mesmo caso. Atualmente encontra-se na prisão e sentenciado a 14 anos em primeira instância pelo crime de suborno.
Durante o julgamento, Vizcarra declarou-se inocente e, depois de sua última audiência, disse a jornalistas: “Empresários privados deram declarações que não puderam corroborar durante o julgamento, não há justificativa alguma para uma sentença condenatória”.
A CNN Internacional contatou Erwin Siccha, advogado do ex-mandatário, que indicou que os empresários que declararam contra Vizcarra “mentiram”.
Segundo Siccha, estes se “tornaram colaboradores” da investigação para “evadir suas próprias responsabilidades”.
Detalha que a justiça não considerou os meios de prova da defesa de Vizcarra e que se apelou da sentença em primeira instância.
“Não só existe a possibilidade de revogar a sentença pela inocência do senhor Martin Vizcarra, mas acima disso está a probabilidade de que se declare nula essa sentença que está repleta de erros e de vícios”, assegurou Siccha.
Manuel Merino (10 a 15 de novembro de 2020)
Após a destituição de Vizcarra, e por não haver outro vice-presidente, o presidente do Congresso assumiu o cargo, conforme a sucessão presidencial contemplada na Constituição peruana.
Mas Manuel Merino esteve apenas alguns dias na presidência, pois renunciou após os protestos na capital e em várias partes do país que deixaram 2 mortos e quase 100 feridos, segundo dados da Procuradoria e do Ministério da Saúde.
Segundo as reações que a CNN Internacional colheu durante as manifestações, as mesmas ocorreram contra a decisão tomada no Congresso de destituir Vizcarra, o que qualificaram como um “golpe legislativo”.
Quem marchava dizia não defender Vizcarra, mas sim a figura presidencial que havia sido golpeada a apenas meses das eleições presidenciais que deveriam ser realizadas no Peru.
O ex-presidente Merino disse à CNN Internacional que a vacância por incapacidade moral contra Vizcarra foi feita cumprindo os requisitos da lei e que o sentimento nas ruas se devia ao fato de que eles as “prepararam”, referindo-se a Vizcarra e a um setor que tinha um “tipo de interesse particular” para que “Martin Vizcarra continuasse no Governo”.
“O que houve no caso da minha renúncia foi um golpe de Estado civil; em algum momento os responsáveis terão que ser punidos, que foram os grupos políticos que incitaram, neste caso os empresários, os esquerdistas, porque foi todo um tumulto que utilizou a juventude”, denunciou Merino.
Francisco Sagasti (novembro de 2020 a julho de 2021)
Após a renúncia de Merino, o Congresso elegeu outro presidente do legislativo que se tornou presidente da República. Trata-se de Francisco Sagasti, que completou o Governo de cinco anos iniciado por Kuczynski.
Foi o Governo de transição de Sagasti que, após as eleições em 2021, entregou o posto a Pedro Castillo, que venceu a candidata Keiko Fujimori durante o segundo turno.
Pedro Castillo (2021-2022)
As crises no Governo de Castillo dispararam poucos dias após o início de seu mandato. Uma das primeiras eclodiu quando o então presidente começou a despachar do local que foi seu centro de operações durante sua campanha à presidência e não do Palácio do Governo.
O local foi qualificado por um setor de congressistas e meios de comunicação locais como um gabinete “paralelo” ou “clandestino” e acusava-se o mandatário de realizar pactos irregulares no local.
Os ministros nomeados como parte de seu Governo também eram questionados, pois vários deles tinham investigações fiscais em curso.
Assim, o Executivo, sem maioria no Congresso, enfrentou críticas em relação à gestão do novo mandatário e as moções de vacância voltaram a ser apresentadas como no caso de Kuczynski e Vizcarra.
No plano político, o Congresso apresentou três moções “por incapacidade moral” contra Castillo. No plano penal, a Procuradoria abriu três investigações contra o mandatário por vários supostos crimes.
A primeira moção de vacância, apresentada em outubro, com apenas três meses de início de seu Governo, não alcançou os votos para destituí-lo.
A mesma, que se baseava em vários pontos, não só incluía o lugar de onde Castillo despachava e os questionamentos contra seus ministros, mas também citava uma investigação que a Procuradoria peruana abriu por suposto financiamento ilícito do partido pelo qual o mandatário concorreu à presidência em 2021.
Meses depois, em janeiro de 2022, a então procuradora da Nação, Zoraida Ávalos, abriu duas investigações preliminares contra o mandatário.
A primeira, relacionada a duas concessões realizadas pelo Estado em 2021 (tráfico de influência e conluio). A segunda, por uma suposta ingerência do mandatário nas promoções militares durante seu Governo (tráfico de influência e patrocínio ilegal).
No entanto, a Procuradoria deixou claro que “os atos de investigação” seriam suspensos “até a conclusão de seu mandato presidencial em razão de sua imunidade”.
Nesse mesmo mês de janeiro, e em meio aos escândalos que protagonizava, Castillo concedeu uma entrevista à CNN Internacional, a primeira a um veículo internacional como presidente.
Nela, o jornalista Fernando del Rincón perguntou: “O senhor vai terminar seu mandato?”. Castillo respondeu: “Com certeza, o povo me trouxe aqui”. Mas a história foi outra. Meses depois foi destituído pelo Congresso, detido e colocado na prisão após tentar dissolver inconstitucionalmente o parlamento.
Aquela entrevista, que foi para as primeiras páginas de quase todos os meios locais e de vários internacionais, complicou a situação de Castillo. Suas respostas sobre os temas que o envolviam, e que tinham dado origem à moção de vacância e investigações fiscais, não só não convenceram seus críticos como, além disso, o ex-professor de uma escola pública deixou dúvidas sobre sua capacidade para governar.
“Eu não fui treinado para ser presidente”, disse na entrevista. “O Peru vai continuar sendo minha escola”, acrescentou.
Além disso, durante a entrevista à CNN Internacional, Castillo disse que estaria disposto a considerar uma consulta popular para decidir sobre a concessão de uma saída ao mar para a Bolívia, após o que o Congresso iniciou um processo para destituí-lo por traição à pátria.
A Bolívia perdeu seu acesso ao mar após a Guerra do Pacífico, que entre 1879 e 1884 enfrentou o Chile contra a aliança formada por Bolívia e Peru. Em novembro de 2022, o Tribunal Constitucional ordenou ao parlamento anular o processo.
Em março de 2022 chegou a segunda moção de vacância, que também não alcançou os votos necessários no Congresso para destituí-lo. O documento baseou-se nos supostos atos de corrupção ocorridos durante seu Governo, os mesmos que haviam sido anunciados pela procuradora Ávalos em janeiro.
Em maio desse mesmo ano, Pedro Castillo tornou-se o primeiro presidente peruano em exercício a ser investigado pela Procuradoria pois, diferentemente de Zoraida Ávalos, o novo procurador da Nação, Pedro Sánchez, decidiu investigá-lo.
A posição de Sánchez era que, embora Castillo não pudesse ser acusado devido à sua imunidade, a Constituição não impedia que ele fosse investigado.
Finalmente, chegou a última moção de vacância contra Castillo que, assim como a segunda, baseava-se, em parte, nas investigações abertas pela Procuradoria.
Mas a moção nunca chegou a ser votada pois, nesse mesmo dia, em 7 de dezembro de 2022, que foi uma quarta-feira (7), Castillo ordenou “dissolver” o Congresso em uma mensagem à nação pela TV nacional.
Disse que governaria mediante decretos-lei e declarou a reorganização do sistema de justiça que o investigava. Nesse momento, o Legislativo o destituiu através de uma moção de vacância por incapacidade moral.
Castillo foi imediatamente detido e atualmente encontra-se preso e sentenciado em primeira instância pelo crime de “conspiração para uma rebelião”.
Castillo sempre rejeitou todas as acusações contra si e as considerou uma perseguição política, o que repetiu várias vezes publicamente durante o julgamento contra ele.
Dina Boluarte (2022-2025, 2 anos e 10 meses)
Ao ser a vice-presidente de Pedro Castillo, e conforme o mandato constitucional, Dina Boluarte assumiu a presidência.
Os problemas para seu Governo eclodiram imediatamente, pois, em meio aos protestos após assumir o cargo, morreram dezenas de pessoas entre confrontos com a polícia e devido ao fechamento de vias por parte dos manifestantes.
Após isso, a Procuradoria começou a investigar Boluarte pelos crimes de genocídio, homicídio qualificado e lesões.
Posteriormente, a procuradoria arquivou o crime de genocídio e o Congresso o caso em seu conjunto, o que, segundo disse à CNN Internacional Joseph Campos, advogado da ex-presidente, significa que, no plano penal, ou seja, na Procuradoria, “não existem neste momento investigações, todas foram arquivadas”.
Dada a imunidade de Boluarte como mandatária, a Procuradoria exigia a aprovação do parlamento.
Mas com o tempo, Boluarte acumulou outras investigações contra si no plano penal, entre elas, uma pela posse de vários relógios Rolex e outra por abandono do cargo após uma cirurgia plástica no nariz.
No caso conhecido como Rolexgate, Boluarte é acusada pelo crime de enriquecimento ilícito. Tudo começou em março de 2024, após uma reportagem do programa local La Encerrona, que publicou imagens nas quais Boluarte usava relógios de luxo em eventos públicos.
Embora a então presidente, em suas primeiras declarações à imprensa, tenha dito que os relógios eram fruto de seu trabalho e que eram “antigos”, semanas depois, no mês de abril, mudou sua versão e disse que os relógios eram “emprestados”.
Meses depois, em dezembro do mesmo ano, a Procuradoria abriu uma nova investigação contra a mandatária pelo crime de “omissão de atos funcionales” ou abandono do cargo.
A procuradoria sustenta que Boluarte não comunicou ao Congresso que estava impedida temporariamente de exercer o cargo devido a um procedimento cirúrgico que havia realizado seis meses antes.
Em uma mensagem à Nação, Boluarte reconheceu a cirurgia, mas disse que não se tratou de um procedimento estético, mas sim de um procedimento necessário “e imprescindível” para sua saúde, e apontou que este e outros casos “vinculados ao seu ambiente pessoal” eram “utilizados como cenários políticos onde se pretende a desestabilização da ordem democrática”.
Boluarte sempre disse publicamente que era inocente das acusações pelas quais foi indiciada em todas as investigações.
O certo é que, por conta desses casos, Boluarte enfrentou várias moções de vacância e assim, em 10 de outubro de 2025, que foi uma sexta-feira (10), e após o assassinato de um músico peruano em meio ao aumento da delinquência no país, foi destituída através de quatro moções de vacância por incapacidade moral, que reuniram as denúncias sobre a crescente insegurança cidadã, o caso dos Rolex e a cirurgia.
José Jerí (2025-2026, 4 meses)
Com menos de 40 anos, José Jerí assumiu o cargo de presidente da República em substituição a Boluarte.
Quando a mandatária foi destituída, Jerí atuava como presidente do parlamento, de modo que, como já havia ocorrido no passado e conforme a sucessão prevista na Constituição, cabia a ele assumir a presidência.
Mas Jerí durou apenas 4 meses no cargo e, após o escândalo que eclodiu por suas reuniões com um empresário chinês, também abandonou a presidência.
O Chifagate, como ficou conhecido no Peru, começou a ser gestado quando meios de comunicação locais divulgaram imagens do presidente encapuzado entrando em um chifa, como são conhecidos os restaurantes de comida peruano-chinesa no Peru.
Nem essa nem outras reuniões com o empresário, que Jerí aceitou publicamente, constavam nos registros da presidência.
O ex-mandatário pediu desculpas pela forma como entrou no local, mas negou em várias oportunidades ter cometido qualquer ato irregular.
O empresário com quem o ex-mandatário se reuniu mantém uma concessão com o Estado peruano e seu nome aparece também no relatório final de uma comissão investigadora do Congresso peruano, da qual Jerí fez parte e cujo trabalho começou em 2022, embora o ex-presidente tenha dito perante o próprio parlamento que conhece o empresário desde 2024.
O relatório final dessa comissão investigadora indica que o grupo de trabalho foi criado para investigar “as irregularidades nas licitações e obras realizadas pelas empresas chinesas” convocadas por várias entidades do Estado peruano, de 2018 até 2022.
Após os encontros do ex-mandatário com o cidadão chinês, a Procuradoria abriu uma investigação contra Jerí.
O ex-presidente declarou publicamente ser inocente. A CNN Internacional contatou seu advogado para obter comentários sobre essas acusações e está à espera de resposta.
José Maria Balcazar (fevereiro de 2026 - até o momento)
Assumiu a presidência em substituição a Jerí e também em sua qualidade de presidente do Congresso. José Maria Balcazar é quem deverá entregar a presidência da República ao próximo presidente que for eleito no pleito realizado em abril deste ano.
Assim termina o período presidencial de cinco anos que começou com Pedro Castillo, que foi substituído por Boluarte, substituída por sua vez por Jerí.
Quando nasce a crise peruana e como ela influencia o cidadão? O próximo presidente terá a mesma sorte?
Enquanto estava no cargo de Defensor do Povo entre 2016 e 2022, Walter Gutiérrez, advogado constitucionalista, viu passar cinco presidentes da República.
“O Congresso não apenas legisla, mas também coloca presidentes”, diz à CNN Internacional o ex-funcionário, que assegura que o modelo institucional peruano, que “era um modelo presidencialista com controles parlamentares”, está “completamente distorcido” e que se transformou em um “parlamentarismo de fato”.
Grande parte da crise e a sucessão de um presidente após outro responde, segundo suas palavras, ao “abuso” feito do que se conhece como vacância por incapacidade moral, “uma espécie de impeachment”, explica Gutiérrez.
A presidência do Peru torna-se vaga por sua permanente incapacidade moral ou física declarada pelo Congresso, conforme o artigo 118 da Constituição. Ou seja, a incapacidade moral é uma causa de vacância ou destituição.
No entanto, não existe uma definição concreta sobre o que seu conteúdo implica e sua interpretação fica nas mãos do Congresso da República.
“Houve um abuso dos alcances e possibilidades do julgamento político, essa figura transbordou completamente e o executivo foi seriamente enfraquecido”, diz Gutiérrez.
“Nós nos opusemos a esse uso descuidado da incapacidade moral” a partir da Defensoria, assegura o ex-funcionário. “A Defensoria tem em seu mandato a obrigação de zelar pelo bom andamento da administração, não apenas pelos direitos humanos”.
O ex-defensor do Povo diz que a figura da vacância pela qual três presidentes foram destituídos nos últimos anos também pressionou outros, como Kuczynski, a renunciar. Assegura que foi nesse período que se iniciou a crise que viu passar oito presidentes em dez anos.
“A gigantesca maioria que o fujimorismo tinha, que começa a questionar, iniciou várias ações para declarar a incapacidade moral de Kuczynski e começaram a enfraquecê-lo, ao ponto de ele renunciar”. Para Gutiérrez, a bancada fujimorista “exagerou e abusou desta figura”.
Gutiérrez aponta que a vacância se tornou uma espécie de “cláusula aberta onde tudo entrava”. Portanto, assegura, “com essa figura você podia colocar e tirar presidentes”.
Embora, esclareça, esta vacância por incapacidade moral exista desde o século 19 e surja como uma incapacidade física. “Era incapacidade para tomar decisões, mais do que incapacidade de ética pública”.
Desde sua criação, no início de 1800, até antes do ano 2000, ou seja, em quase 200 anos, havia sido utilizada apenas duas vezes.
Gutiérrez pensa que o fato de o Peru voltar a ter um parlamento bicameral pode evitar que esta crise se repita durante o próximo Governo que será eleito em alguns meses.
“Como o Senado foi criado e terá grande poder, isso será mais difícil, espero, porque o Senado exercerá um controle maior sobre esta figura” e “isso poderia dar uma estabilidade maior ao Peru”.
Estes últimos 10 anos, na opinião de Gutiérrez, viram crescer um grande “mal-estar social” e um “desapego” que leva a círculos viciosos.
“As pessoas não querem ter vínculo com a política. Esta é uma paradoxo, porque se você não tem esse vínculo, a política não pode melhorar, vai piorar”, assegura. “A democracia é o sistema da eterna vigilância”, sustenta.
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