‘Químico eterno’: cidade no Reino Unido vive sob temor de contaminação de antiga fábrica
Preocupação aumentou após governo britânico identificar taxas de câncer renal acima do esperado na região
Internacional|Do R7
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Moradores de Thornton-Cleveleys, no norte da Inglaterra, vivem há anos sob o temor de que a contaminação provocada por uma antiga fábrica de produtos químicos esteja afetando a saúde da população. O receio aumentou após análises encontrarem o chamado PFOA, um composto associado a problemas de saúde e conhecido como “químico eterno”, no solo e em propriedades próximas à unidade industrial.
O caso foi revelado pelo Daily Mail, que ouviu moradores da região e teve acesso a informações de investigações ambientais realizadas no entorno da fábrica da AGC Chemicals Europe.
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Uma das residentes é Sam Hammond, de 48 anos. Mãe de cinco filhos, ela cultiva alimentos no jardim de casa há cerca de duas décadas e também cria patos e galinhas. A família consumiu durante anos frutas, verduras e ovos produzidos no próprio terreno.
A preocupação começou quando Sam percebeu que técnicos estavam recolhendo amostras de solo nos terrenos agrícolas próximos à sua propriedade. Os profissionais eram ligados à Agência Ambiental britânica, que investigava uma possível contaminação provocada pela fábrica.
Entre as décadas de 1950 e 2012, a unidade industrial liberou aproximadamente 49 toneladas de ácido perfluorooctanoico (PFOA) na atmosfera por meio de chaminés de exaustão. O composto foi utilizado durante décadas na fabricação de materiais como o Teflon.
Quando decidiu analisar o próprio solo, Sam recebeu os resultados em fevereiro deste ano. O que encontrou a deixou alarmada: além da contaminação do jardim, uma única amostra de ovo de pato apresentou uma quantidade de PFOA equivalente a dez vezes o limite semanal considerado seguro para um ser humano.
Segundo ela, sua família consumia diariamente os ovos produzidos por um grupo de aproximadamente 30 patos.
“Meu filho pequeno está preocupado. Ele continua me perguntando: ‘Meus patos vão morrer?’”, contou Sam ao Daily Mail. A moradora também afirmou que passou a evitar o próprio jardim e disse acreditar que um AVC sofrido em 2020 pode ter relação com a exposição ao composto, embora essa associação não esteja comprovada.
Casos de câncer chamam atenção
A preocupação dos moradores ganhou força após uma investigação encomendada pelo governo britânico identificar taxas de câncer renal acima do esperado em duas áreas localizadas em um raio de cinco quilômetros da fábrica.
Em uma das regiões, foram registrados 14 casos de câncer renal entre 2003 e 2022, enquanto o número esperado era de seis. Na segunda, foram identificados 17 casos, contra uma expectativa de nove.
O câncer renal é uma das doenças que estudos científicos já associaram à exposição ao PFOA. O especialista em epidemiologia do câncer ambiental Dan Middleton, da Queen’s University Belfast, afirmou ao Daily Mail que a doença está entre os tipos de câncer mais consistentemente relacionados ao contato com o composto.
Apesar dos números, a investigação oficial concluiu que os casos estavam geograficamente dispersos e não configuravam um agrupamento suficientemente próximo da fábrica para justificar uma investigação específica sobre um possível cluster de câncer.
A conclusão provocou críticas de especialistas. David Megson, cientista ambiental forense da Manchester Metropolitan University, afirmou que o relatório parecia minimizar os resultados em vez de analisá-los de maneira objetiva.
PFOA permanece no ambiente
O PFOA pertence ao grupo das chamadas substâncias perfluoroalquiladas, conhecidas como PFAS. O composto ganhou o apelido de “químico eterno” porque é extremamente resistente à degradação e pode permanecer durante longos períodos no meio ambiente.
Em 2017, a União Europeia classificou o PFOA como uma substância de grande preocupação. Três anos depois, restrições globais ao composto foram estabelecidas no âmbito da Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes.
Embora a fábrica tenha deixado de utilizar o PFOA em 2012, a persistência da substância significa que ela ainda pode ser encontrada no solo e nos cursos d’água da região.
A história da unidade industrial, localizada no Hillhouse Industrial Estate, remonta ao fim do século 19. Ao longo das décadas, o local passou pelo controle de diferentes empresas químicas, incluindo a Imperial Chemical Industries (ICI), antes de ser adquirido pela AGC em 1999.
Documentos obtidos pelo veículo investigativo Ends Report indicam que a AGC financiou pesquisas sobre os efeitos do PFOA ainda no fim dos anos 1990. Um dos estudos envolveu macacos que receberam o composto durante seis meses. Os animais apresentaram aumento do peso do fígado, um sinal associado à intoxicação, e alguns morreram.
Apesar dos resultados, o uso do PFOA só foi encerrado pela fábrica cerca de uma década depois.
Em declaração ao Daily Mail, a AGC afirmou que o estudo publicado em 2002 não permitia conclusões definitivas sobre os riscos para seres humanos. A empresa também disse que interrompeu voluntariamente o uso do PFOA em 2012 e que as emissões estavam dentro das permissões e da legislação britânica vigentes na época.
Moradores temem desvalorização dos imóveis
Além dos possíveis impactos à saúde, os moradores também enfrentam outra preocupação: o valor das casas.
Paul Jackman, que vive na região com a mulher, contou ao Daily Mail que seu avô comprou a propriedade quando ela foi construída, na década de 1950. Ele afirmou que o avô morreu de câncer de próstata aos 65 anos e disse estar preocupado com a própria saúde e a da família.
“Queremos, primeiro, uma limpeza. Depois, queremos que eles admitam que fizeram algo errado. E então, compensação”, afirmou. Em entrevista ao Daily Mail, ele também contou que já teve cães que morreram de forma que considerou “estranha e muito rápida”. Paul, no entanto, não afirmou que as mortes tenham sido provocadas pela contaminação da região.
“Estou preocupado comigo e com minha família. Tivemos cães que morreram de forma estranha e muito rápida”, relatou. A família também mantinha uma horta no terreno, mas decidiu interromper o cultivo diante dos temores relacionados à presença do PFOA no solo.
Outro morador, Steve Barton, vive há mais de 20 anos em uma casa próxima à fábrica. Segundo ele, o imóvel foi comprado por cerca de 45 mil libras em 1995 e atualmente poderia valer aproximadamente 200 mil libras.
O temor é que a possível contaminação dificulte a venda das propriedades ou até mesmo a obtenção de financiamento para novos compradores.
A preocupação já teria chegado ao mercado imobiliário local. Segundo moradores ouvidos pelo Daily Mail, algumas pessoas relataram dificuldades para conseguir hipotecas destinadas à compra de imóveis na área.
Fábrica pode encerrar atividades
A própria AGC Chemicals Europe anunciou neste mês que pretende encerrar as operações da unidade. A empresa citou dificuldades financeiras e operacionais, além da volatilidade do mercado e do aumento da concorrência.
Caso o fechamento seja confirmado após as consultas às partes envolvidas, até 200 empregos poderão ser afetados.
Enquanto isso, cerca de 90 moradores ouvidos pelo Daily Mail demonstraram interesse em participar de uma ação judicial contra a empresa.
Por enquanto, os terrenos agrícolas da Occupation Road permanecem fechados para remediação. A orientação da Agência de Segurança Alimentar britânica é que moradores em um raio de um quilômetro da fábrica que cultivam frutas e verduras lavem e descasquem os alimentos antes do consumo e considerem o uso de canteiros elevados com solo novo.
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