Logo R7.com
RecordPlus

Sánchez ou Fujimori? O que está em jogo nas eleições no Peru em meio à instabilidade política

Candidatos enfrentarão um primeiro desafio quase imediato caso consigam os votos para a Presidência: construir governabilidade

Internacional|Anabella González, da CNN Internacional

  • Google News

LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Keiko Fujimori e Roberto Sánchez disputam a presidência do Peru em meio a uma crise de legitimidade presidencial e desafios de governabilidade.
  • O próximo presidente enfrentará um Congresso fragmentado e precisará lidar com a insegurança, criminalidade e a necessidade de crescimento econômico.
  • Ambos os candidatos têm propostas distintas para segurança e economia, com Fujimori inclinada a uma política de linha dura e Sánchez focado no desenvolvimento social.
  • A eleição é vista como crucial para a estabilidade política do Peru, com a expectativa de que o próximo governo possa reverter a década de instabilidade.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Homem com chapéu branco e mulher com microfone em eventos políticos distintos; ambos vestem branco e aparecem diante de painéis com textos e logotipos.
2º turno presidencial entre Sánchez e Fujimori Angela Ponce/Reuters e Stifs Paucca/File Photo/Reuters

Keiko Fujimori e Roberto Sánchez seguem caminhos opostos para alcançar o mesmo objetivo: chegar à Presidência do Peru. Eles se diferenciam por suas visões de país e por dois modelos políticos distintos.

Mas o que está em jogo neste segundo turno os reúne em um cenário comum e inevitável: o Peru atravessa há anos uma crise de legitimidade presidencial que quem chegar ao poder terá de solucionar para conseguir se manter no cargo.


Tanto Sánchez, do partido Juntos por el Perú, quanto Fujimori, da Fuerza Popular, enfrentarão um primeiro desafio quase imediato caso consigam os votos para assumir a Presidência: construir governabilidade com um eleitorado e um Congresso fragmentados.

Veja Também

No primeiro turno, a soma dos votos obtidos pelo candidato do Juntos por el Perú e pela líder da Fuerza Popular não chegou a 30% dos votos válidos, menos de um quarto do eleitorado. Para muitos peruanos, isso significa ir às urnas neste domingo para escolher “o mal menor”, segundo o cenário descrito por analistas à CNN Internacional.


Depois virão outros desafios. Enfrentar a crescente criminalidade e insegurança que afetam e preocupam cada vez mais os peruanos, alcançar uma estabilidade política após uma década marcada por sucessivas trocas de presidentes e impulsionar o crescimento econômico do país são alguns deles.

Desde a eleição de 2021, quando o ex-presidente Pedro Castillo — hoje referência política de Sánchez — foi eleito pelo voto popular, uma série de presidentes governou o Peru em decorrência de sucessivas moções de destituição promovidas pelo Congresso.


Após a queda de Castillo, seguiram-se os governos de sua vice-presidente, Dina Boluarte (2 anos e 10 meses no cargo, também destituída), depois José Jerí (4 meses) e, desde fevereiro, José María Balcázar.

O cenário para Sánchez ou Fujimori agora é diferente, e a expectativa é que possam resgatar a força do voto popular e utilizá-la em favor da estabilidade do país, afirmam os analistas.


“A forma como aproveitarem esse mandato, especialmente durante os primeiros meses, será crucial para determinar se será possível vislumbrar o fim da longa crise de legitimidade presidencial que o Peru atravessa”, disse à CNN Internacional Henry Ziemer, pesquisador associado do Programa para as Américas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).

Será decisivo nesses primeiros meses o relacionamento do futuro presidente, que assumirá em 28 de julho, com o Congresso, que voltará a ser bicameral após 30 anos e contará com um novo Senado.

Embora nem Fujimori nem Sánchez tenham maioria absoluta de cadeiras, a herdeira política do ex-presidente Alberto Fujimori (1990-2000) lidera a maior bancada em ambas as casas legislativas.

“Provavelmente, ela terá menos dificuldades para governar do que Sánchez”, que “enfrentará uma oposição ferrenha” da Fuerza Popular, avalia o pesquisador do CSIS.

Alfredo Torres, analista político e presidente da Ipsos, uma das empresas de pesquisa mais respeitadas do país, acompanha há meses as tendências e preferências eleitorais.

“Os dois partidos que chegaram ao segundo turno o fizeram com uma porcentagem baixa de votos. A maioria dos eleitores não votou em nenhum dos dois. Os eleitores irão votar naquele que considerarem ‘o mal menor’, sem muito entusiasmo; uma parte inclusive cogita votar em branco”, afirma Torres.

‘Governabilidade difícil’

Por isso, ele prevê uma governabilidade “difícil”, que precisará ser construída por meio de intenso diálogo com outros partidos. Seis legendas conquistaram cadeiras em ambas as câmaras, nenhuma delas com maioria absoluta. O cenário pode ser complexo, especialmente porque, no último debate, os dois candidatos trocaram acusações e responsabilizaram um ao outro pelo “caos” e pela instabilidade política do Peru.

Quem for eleito precisará compreender a singularidade do momento e o que está em jogo: trata-se de um contexto que exige moderação das agendas próprias em um país dividido, escolha de figuras moderadas para ampliar apoio e atrair eleitores que não votaram neles, explica à CNN Internacional o analista político José Carlos Requena, mestre em História pela Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) e sócio-fundador da consultoria Público.

Para Requena, este segundo turno é, de certa forma, “uma reedição de 2021, de duas visões de país, dois modelos”. Naquela eleição, Castillo derrotou Fujimori por uma diferença de pouco mais de 40 mil votos.

Insegurança

A insegurança e o crime organizado estão entre os temas que mais preocupam os peruanos e figuram entre as principais demandas por mudança.

Segundo o Barômetro das Américas no Peru 2025/26, publicado no fim de março, 72% dos entrevistados apontaram a insegurança (57%) e a corrupção (15%) como os problemas mais graves do país, seguidos pela economia.

“A segurança será um fator determinante. Nos últimos quatro anos, o Peru perdeu sua reputação de país relativamente seguro. A expansão de grupos criminosos transnacionais e o avanço da mineração ilegal de ouro na Amazônia peruana contribuíram para níveis mais elevados de atividade criminosa e violência política”, afirma Tiziano Breda, analista sênior para América Latina e Caribe da organização não governamental ACLED.

A ACLED registrou mais de 400 protestos desde 2024 contra a crescente extorsão e insegurança, muitos deles liderados por trabalhadores do transporte público, segundo Breda.

Sobre esse tema, os candidatos apresentam propostas bastante diferentes, observa Ziemer. “É provável que Fujimori adote uma política de linha dura” e possivelmente “solicite assistência aos Estados Unidos para combater as organizações criminosas” em território peruano.

A candidata da Fuerza Popular, de 51 anos, tem demonstrado proximidade com as ideias do governo do presidente Donald Trump. No entanto, diferentemente de outros casos na região, ainda não recebeu apoio público dos Estados Unidos.

Ligado à esquerda, Sánchez poderia, por sua vez, impulsionar uma estratégia de segurança baseada no desenvolvimento rural e em programas sociais, avalia Ziemer.

O presidente do partido Juntos por el Perú se define como o “candidato presidencial castillista” e busca reivindicar a figura do ex-presidente Pedro Castillo, atualmente preso após condenação por conspiração para rebelião, acusações que ele rejeita.

O presidente da Ipsos destaca que o Peru possui uma economia diversificada e uma estabilidade macroeconômica reconhecida internacionalmente. O desafio, segundo ele, “é aumentar o ritmo de crescimento, o que exige atrair mais investimentos”.

Sánchez afirmou semanas atrás que o “pânico financeiro” provocado por sua candidatura “não tem fundamento”, rejeitou qualquer proposta de expropriações e disse defender um modelo em que o Estado lidere o desenvolvimento nacional. Já Fujimori promete dobrar o crescimento do PIB, que encerrou 2025 em 3,4%.

As nomeações dos primeiros-ministros, sua permanência nos cargos, a escolha do ministro da Economia e o futuro do Banco Central de Reserva do Peru (BCR) serão fatores decisivos nos primeiros passos do próximo governo, afirma Requena.

Nesse aspecto, destaca-se o nome de Julio Velarde, que ocupa a presidência do banco central desde 2006 e é visto por muitos analistas como um garantidor da estabilidade monetária do país, algo incomum na região.

“Uma vitória de Fujimori será quase certamente interpretada como o episódio mais recente de uma série de vitórias da direita na América Latina”, prevê Ziemer.

Parcerias internacionais

Embora Keiko Fujimori costume ser associada a um alinhamento maior com Washington e Roberto Sánchez seja visto como mais próximo da China, “é improvável que o status da China como principal parceiro comercial do Peru mude, independentemente do vencedor”, acrescenta o pesquisador do CSIS.

Atualmente, Brasil, México, Colômbia, Chile e Peru representam cerca de 90% da atividade comercial da América Latina com Pequim. Localizado a 80 quilômetros ao norte de Lima, o megaporto de Chancay, o maior da América do Sul, gerou críticas do governo Trump, que se opõe à crescente presença chinesa na região.

Em princípio, isso não deve representar grandes preocupações, segundo os analistas consultados pela CNN Internacional.

“A política externa peruana tradicionalmente busca equilíbrio e tende a manter boas relações com ambas as potências”, afirma Requena, que considera provável uma diplomacia orientada pelo “pragmatismo tradicional”.

“O Peru tem uma chancelaria muito profissional e existe amplo consenso em manter uma economia aberta que receba investimentos de todas as partes”, concorda Torres.

Isso não significa, porém, que o próximo presidente peruano não terá de lidar com pressões e tensões para preservar boas relações tanto com os Estados Unidos quanto com a China.

Neste domingo, as atenções também estão voltadas para como e quando serão divulgados os resultados eleitorais, após os atrasos na apuração registrados no primeiro turno. Embora existam dúvidas sobre a repetição desses problemas, também há expectativa de que esta eleição possa trazer a estabilidade política que o Peru não tem há anos.

“Se os atores políticos tiverem um mínimo de prudência e razoabilidade, deveríamos conseguir reverter toda esta década de instabilidade. Há espaço para isso, é possível”, conclui o analista Requena.

Search Box

Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.