Internacional Sequência de erros fez de tiroteio em escola na Flórida uma tragédia

Sequência de erros fez de tiroteio em escola na Flórida uma tragédia

Investigação de jornal dos EUA mostrou que seguranças, autoridades escolares e policiais cometeram erros que podem ter custado vidas

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Evacuação do prédio demorou por erros dos monitores e policiais

Evacuação do prédio demorou por erros dos monitores e policiais

Reuters

Mais de dez meses após o massacre na escola Marjorie Stoneman Douglas, em Parkland, na Flórida (EUA), uma investigação sobre a ação policial durante o ataque apontou dezenas de erros cometidos por autoridades envolvidas que podem ter custado diversas vidas.

No dia 14 de fevereiro desde ano, pouco antes do horário da saída, o ex-aluno Nikolas Cruz, 19, entrou na escola com um rifle AR-15 e matou 17 pessoas (sendo 14 alunos) e deixou outros 17 feridos.

Um número que poderia ter sido menor, de acordo com o relatório e uma linha do tempo montada pelo jornal local Florida Sun-Sentinel, usando imagens de câmeras de segurança da escola, registros de áudio da polícia e câmeras presas a uniformes de policiais.

Falta de reação

De acordo com a reportagem, Cruz chegou à escola logo antes das 14h20. Um dos monitores, o técnico de beisebol Andrew Medina, estava em um carrinho de golfe, abrindo os portões do campus para a saída dos estudantes, e viu quando o ex-aluno se aproximou de um dos prédios com uma mochila e uma sacola onde carregava a arma.

Segundo a investigação, Medina reconheceu Cruz como o "garoto maluco" que os outros funcionários acreditavam que poderia causar um atentado algum dia. Mesmo assim, o treinador, que estava desarmado, não o confrontou.

Apenas alertou outro monitor, David Taylor, sobre a presença dele e não emitiu o 'alerta vermelho' que fecharia a escola e alertaria a polícia rapidamente. Em seguida, as imagens mostram Taylor indo na direção de Cruz já dentro do prédio 12 da escola e depois dando meia-volta e indo em outra direção.

Um estudante, Chris McKenna, entrou na escadaria do prédio e viu Cruz carregando o rifle. Em depoimento, ele contou à polícia que o atirador lhe disse: "é melhor você fugir, as coisas vão ficar feias por aqui".

McKenna correu para fora do prédio e avisou o técnico de futebol da escola, Aaron Feiss, sobre Cruz armado dentro do prédio. Feis também não acionou o alerta vermelho.

Primeiras vítimas

Nikolas Cruz, o atirador de Parkland

Nikolas Cruz, o atirador de Parkland

Broward County Sheriff/Handout via REUTERS/15.02.2018

Às 14h21, Cruz dispara os primeiros tiros, matando três alunos no corredor do primeiro andar. A câmera da escadaria mostra Taylor correndo para o segundo andar. Ele se escondeu em um armário e jamais emitiu um alerta pelo rádio.

Sem ninguém para impedi-lo, o ex-aluno percorre o corredor atirando em direção às salas, através das janelas e portas. Seis outros alunos são mortos dessa maneira.

Exatamente às 14h22, o serviço de emergência 911 é finalmente acionado, mas já é tarde. A chamada é registrada pela polícia do distrito vizinho de Coral Springs, e a transferência para a polícia de Broward, distrito do qual Parkland faz parte, faz tudo demorar ainda mais.

Vítimas no corredor

Enquanto isso, na escola, sem o código vermelho, que faria os estudantes e professores se abrigarem dentro das salas, a fumaça dos disparos aciona o alarme de incêndio. As pessoas começam a fugir para os corredores, onde seriam vítimas fáceis.

O único segurança armado da escola, Scot Peterson, se encontra com Medina, que o informa sobre Cruz, do lado de fora do prédio. Ele corre até uma da laterais, saca sua pistola e fica no lugar, sem jamais entrar na escola.

Nesse meio tempo, o atirador executa Chris Hixon, diretor de esportes da escola, no corredor e, em seguida, Feis, assim que o técnico entra no prédio.

O atirador chegou em seguida ao segundo andar, onde não fez nenhuma vítima. Ao ouvir o barulho dos tiros, os professores conseguem proteger os alunos dentro das salas.

Presos no terceiro andar

No último andar, a situação era outra. Muitos estudantes e professores ficaram no corredor, sem saber do tiroteio. A porta de uma das classes está trancada, assim como os banheiros. Cerca de 20 pessoas ficam expostas quando Cruz chega e começa a atirar.

O professor de geografia Scott Beigel segura a porta de uma sala para que os alunos possam se abrigar e é baleado e morto pelo atirador. Cinco alunos também são assassinados a sangue frio no corredor.

Do lado de fora, o primeiro policial a chegar ao campus, quase 5 minutos após o início dos tiros, para a 300 metros da escola e se preocupa em bloquear o trânsito na avenida próxima, ao invés de confrontar o atirador.

Ao encontrar o corpo de Feis na entrada do primeiro andar, Elliott Bonner finalmente emite o alerta vermelho. Nesse ponto, mais de 5 minutos se passaram.

Policiais do lado de fora

Por volta das 14h26, outros quatro policiais chegam perto da escola. Os áudios gravados pelas câmeras em seus uniformes mostram barulhos de tiros dentro do prédio, mas nenhum deles corre na direção do prédio.

Segundo o Sun-Sentinel, após os tiroteio de Columbine, em 1999, passou a ser uma orientação nacional para os policiais norte-americanos que eles têm o dever de neutralizar o atirador antes de qualquer outra coisa.

Leia mais: Massacre na Flórida: polícia recebeu 23 denúncias contra atirador

O xerife do condado de Broward, Scott Israel, admitiu depois que mudou por conta própria o regulamento local, dizendo que os oficiais "podem" tentar neutralizar atiradores, ao invés de dizer que eles "devem".

A investigação também mostrou que os policiais de Broward passaram anos sem treinamentos específicos para enfrentar situações de tiroteio.

Sem comando

Com os minutos passando, outros policiais chegam à cena, mas nenhum dos mais graduados toma o comando da situação. Com isso, as comunicações sobrecarregam o sistema de rádio e dificultam ainda mais a coordenação.

Todos os oito oficiais se abrigam atrás de suas viaturas e não se aproximam do prédio. Nesse ponto, Cruz vai até as janelas do terceiro andar e tenta atirar contra alunos que fogem do prédio, mas os vidros resistem aos tiros e ninguém é atingido.

O último tiro é disparado às 14h27, pouco mais de 7 minutos depois da chegada de Cruz à escola. Ele tira o colete à prova de balas que vestia e joga seu rifle em uma das escadarias antes de fugir, se misturando aos outros estudantes.

Delay e mais confusão

Para piorar a situação, o vice-diretor do colégio, Jeff Morford, e o chefe de segurança, Kelvin Greenleaf, vão à sala de segurança para ver as câmeras de segurança e começam a tentar auxiliar os policiais, monitorando os passos de Cruz.

O problema é que eles não perceberam que estavam vendo imagens registradas 20 minutos antes. Achando que o atirador ainda estava na escola, o socorro às vítimas demora ainda mais para chegar e muitas morrem por hemorragia no corredor.

Às 14h32, policiais do distrito de Coral Springs são os primeiros a entrar no prédio. Cruz já havia deixado o edifício minutos antes.

Ao todo, 17 pessoas morreram. Cruz está preso e aguarda julgamento.