Trump aposta que seu bloqueio desencadeará um colapso social no Irã
Sucesso do plano depende da capacidade do povo americano de suportar custos crescentes e das reações do governo iraniano
Internacional|Stephen Collinson, da CNN Internacional
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O bloqueio marítimo do presidente Donald Trump é a tentativa mais recente de testar uma teoria até agora não comprovada da guerra do Irã — a de que o poder superior dos Estados Unidos inevitavelmente quebrará a República Islâmica.
A estratégia baseia-se em uma premissa simples: o estrangulamento das exportações de petróleo do Irã e das importações que sustentam a vida regular lá desencadeará um colapso social.
Isso criará uma pressão insuportável sobre o regime para que ele ceda às exigências dos EUA para renunciar permanentemente ao seu programa nuclear.
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Em Washington, isso parece lógico. Cada nação, seja uma teocracia radical ou uma democracia ocidental, desmoronará se não puder garantir o acesso ao básico — comida, energia e trabalho.
Quando as autoridades dos EUA veem uma inflação crescente, perdas catastróficas de empregos e escassez em Teerã, concluem que o bloqueio de duas semanas está funcionando.
“O bloqueio é genial, ok?”, disse Trump na quarta-feira (29). “A economia deles está em sérios apuros. É uma economia morta.”
O presidente está tão satisfeito com o plano que preparou seus assessores para que ele dure muito mais tempo, informou a CNN Internacional.
Uma das razões é que se trata de uma forma de acumular pressão sobre o Irã sem arriscar baixas dos EUA em operações terrestres ou retomar os bombardeios que foram implacáveis, mas inconclusivos.
Outra é que busca restaurar a influência dos EUA na guerra econômica, desgastada quando o Irã desencadeou uma crise global ao fechar o Estreito de Ormuz.
A economia dos EUA é muito mais poderosa que a do Irã, então isso não deveria ser uma disputa. Por outro lado, um temível assalto aéreo dos EUA e de Israel devastou as forças militares do Irã, mas não conseguiu garantir uma vitória estratégica na guerra.
O otimismo de Trump enfrentará duas questões que decidirão o destino de sua mais recente estratégia em uma guerra que muitas vezes pareceu carecer de uma justificativa ou de um objetivo final.
A primeira é por quanto tempo Trump, seus colegas republicanos e o povo americano conseguirão suportar os custos crescentes da guerra, incluindo a gasolina a mais de US$ 1,06 (R$ 5,27, na cotação atual) por litro e um provável aumento na inflação.
Os eleitores das eleições de meio de mandato já estão irritados com os altos custos e a economia de Trump.
A segunda questão é se o plano se baseia em inteligência realista sobre as condições no Irã e em um raciocínio sólido sobre como seus líderes podem reagir.
Existe, afinal, uma tendência longa e duvidosa em Washington de aplicar a lógica americana a sociedades do Oriente Médio que não reagem como os presidentes dos EUA esperam.
O presidente está apostando que os líderes do Irã, em uma teocracia islâmica radical com um histórico de infligir sofrimento extraordinário ao seu próprio povo, reagirão puramente por motivos econômicos — como talvez ele reagiria no lugar deles.
Uma crise crescente no Irã
Há evidências crescentes de que a economia do Irã está em terríveis dificuldades. O Wall Street Journal informou na quarta-feira que os custos da guerra incluem um milhão de desempregados; preços de alimentos disparando; e um bloqueio da internet que sufocou a economia online.
A inflação é desenfreada e itens básicos como carne vermelha são inacessíveis. Relatos da mídia do Oriente Médio alertam para a crescente escassez e ameaças à segurança alimentar.
O Ministro do Petróleo do Irã, Mohsen Paknejad, alertou o público na quarta-feira para reduzir o consumo de energia. E os escritórios do governo receberam ordens para cortar o uso de eletricidade em 70% após as 13h.
A equipe da Casa Branca da CNN Internacional informou que as autoridades dos EUA estão lendo relatórios de inteligência que preveem que a economia iraniana só poderá sobreviver por algumas semanas, se não dias, de acordo com duas fontes.
E Trump afirma repetidamente que a incapacidade do Irã de exportar petróleo significa que ele terá que interromper a produção e arriscar enormes danos aos poços de petróleo que poderiam levar anos para serem consertados.
Alex Vatanka, membro sênior do Middle East Institute, argumentou que o bloqueio poderia causar dor econômica severa que poderia se traduzir em oposição política incontrolável.
Mas ele acrescentou uma ressalva crítica: isso pode levar meses.
“A primeira coisa a lembrar é que nunca estivemos aqui antes; este é um território desconhecido”, disse Vatanka. “O bloqueio não é nada que o Irã já tenha experimentado, nem mesmo durante a guerra Irã-Iraque.”
Vatanka disse que poderia prever um momento em que milhões de trabalhadores potencialmente sairiam às ruas e exigiriam alívio. “É aí que o regime será testado de maneiras que nunca foi testado antes — isso não significa que não possa prevalecer, contando com a repressão. Mas será uma questão de saber se eles conseguem superar o volume de raiva.”
Vatanka alertou, no entanto, que o potencial para o colapso econômico desencadear mudanças políticas dependeria de um nível de organização nos protestos antirregime e de deserções no regime que ainda não se materializaram no Irã.
Trump pode não ter tempo para esperar pela contrarrevolução. Seus índices de aprovação estão em baixas históricas e os republicanos temem perder a Câmara e enfrentar uma luta difícil para manter o Senado em novembro. Quanto mais a guerra durar e o Irã mantiver o estreito de Ormuz fechado, maior será o dano nos EUA.
A psicologia pessoal de Trump também pode desempenhar um papel. Ele parece fixado em seu legado enquanto sonha com grandes obras arquitetônicas em seus últimos 1.000 dias de mandato.
Nada seria mais vergonhoso para um homem que se vê como um dos maiores vencedores da vida do que ser rotulado como perdedor em uma guerra com o Irã.
Algum dia, Trump pode não TACO (Trump Always Chickens Out - Trump sempre amarela).
Como o bloqueio pode falhar
No entanto, mesmo que Trump prometa ir longe, sempre há a chance de que a estratégia do bloqueio seja simplesmente falha.
Se a morte do Líder Supremo do Irã, Ali Khamenei, não fez o Irã desistir e semanas de bombardeios implacáveis não quebraram a determinação de seus líderes, há razão para pensar que uma crise econômica poderia?
A persistência e a teimosia da República Islâmica tornaram-se lendárias.
O Irã tem trabalhado sob sanções ocidentais por décadas. Ele suportou uma guerra horrenda de oito anos com uma estimativa de 1 milhão de baixas contra o Iraque na década de 1980.
Cada vez que os manifestantes ameaçavam atingir uma massa crítica, o regime enviava seus capangas às ruas para massacrar civis para salvar a revolução.
Todo o costume do regime nos 47 anos desde a Revolução Islâmica tem sido a resistência ao “Grande Mal” dos EUA. Ele pode escolher o colapso social em vez de ceder a Trump.
Trita Parsi, vice-presidente executivo do Quincy Institute for Responsible Statecraft, disse que a equipe de Trump era a mais recente administração dos EUA a acreditar, erroneamente, que uma campanha de pressão poderia forçar o Irã a ceder.
“Há essa busca constante por aquela bala de prata, aquele ponto de pressão que faça os iranianos colapsarem, capitularem ou simplesmente se corrigirem de acordo com os desejos da América”, disse Parsi. “E quase toda vez que os EUA seguem esse caminho, acabam se decepcionando.”
A confiança de Trump também reflete outra tendência familiar de Washington — uma crença nunca reconciliada, especialmente prevalente entre os conservadores, de que a economia e o regime iranianos estão perpetuamente prestes a entrar em colapso.
“Eles têm que pedir arrego, é tudo o que precisam fazer. Apenas dizer, ‘Nós desistimos, nós desistimos’”, disse o presidente no Salão Oval na quarta-feira.
Se o Irã o fizer, Trump poderá quebrar um ciclo fútil da história e finalmente acabar com o duelo de quase meio século da América com um inimigo amargo.
Se falhar, ele apenas terá provado mais uma vez que a vontade da República Islâmica de aguentar soco após soco pode neutralizar o poder americano, que é muito maior.
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