Além de hackers: como governos podem tentar explorar fissuras para manipular eleições
Interferência externa visa corroer a confiança nas instituições democráticas e moldar a percepção pública, segundo pesquisadores
The Conversation|Gustavo Magalhaes da Silva Junior e Arthur Ituassu
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
Um relatório recente da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) apontou a possibilidade de interferência direta dos Estados Unidos nas próximas eleições brasileiras, que ocorrem neste domingo (4).
Segundo o documento, para tentar frear a influência da China na América Latina, o governo norte-americano estaria intensificando ações que vão desde pressões diplomáticas até o possível financiamento de campanhas e o impulsionamento de perfis nas redes sociais.
Esse diagnóstico ganhou força na última semana, quando senadores democratas norte-americanos questionaram o secretário de Estado, Marco Rubio, sobre a postura de Donald Trump em relação ao pleito brasileiro.
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Os parlamentares cobraram o reconhecimento do resultado das urnas.
Como pesquisadores que acompanham de perto a comunicação política, vemos nesses episódios um exemplo concreto de um fenômeno que investigamos a fundo nos últimos anos.
É claro que a tentativa de um país de influenciar a política interna do outro não é nenhuma novidade.
Os pesquisadores Paul Baines e Nigel Jones argumentam, no artigo Influence and interference in foreign elections (Influência e interferência em eleições estrangeiras, na tradução livre), que essas interferências sempre existiram, mas a diferença é que plataformas digitais lhes deram uma velocidade e uma camuflagem inéditas.
Mas como essa desestabilização ocorre no dia a dia? Para responder a essa pergunta, analisamos centenas de artigos e relatórios de inteligência, cruzando o que acadêmicos e órgãos de defesa já sabem sobre o uso das mídias digitais como armas diplomáticas.
O trabalho faz parte de uma dissertação de mestrado defendida recentemente no Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da PUC-Rio.
Ao tentar entender como esses mecanismos funcionam, o primeiro erro é imaginar um cenário de filme.
Debate público
Quando se fala em interferência externa em processos eleitorais, a maioria das pessoas pensa em um ataque técnico, como um invasor roubando senhas ou alterando os números de uma urna eletrônica.
A nossa pesquisa mostra, contudo, que o alvo desses ataques não são máquinas, mas, sim, o debate público.
O artigo Hacking democracy, managing influence campaigns and disinformation in the digital age (Hackeando a democracia, gerenciando campanhas de influência e desinformação na era digital, na tradução livre), conduzido por Niels Schia e Lars Gjesvik, ilustra bem esse ponto.
Os autores concluem que o objetivo das campanhas modernas de influência cibernética não é derrubar sistemas informáticos, mas sim corroer a confiança nas instituições democráticas e moldar a percepção dos cidadãos.
Ao cruzar os estudos e os documentos de segurança, um padrão se torna claro. A interferência estrangeira não ocorre apenas nas vésperas da votação, mas também de forma contínua e “híbrida”.
Isso significa que agentes externos misturam táticas digitais, como contas automatizadas e clonagem de portais de notícias.
Por exemplo, o 3° relatório do Serviço Diplomático da União Europeia registrou 505 incidentes de ameaças digitais externas apenas em 2024.
Eles envolvem 68 mil conteúdos veiculados em 38 mil canais de diversas plataformas, com foco em disseminar rapidamente a desinformação.
Além disso, muitos anúncios são projetados para manipular emoções mescladas com ações no mundo real.
W. Lance Bennett e Steven Livingston, no artigo Platforms, politics, and the crisis of democracy (Plataformas, política e a crise da democracia, na tradução livre), afirmam que plataformas são desenhadas para prender a atenção, maximizando o engajamento emocional. Transformam-se em um campo de batalha invisível entre países.
Semeando a discórdia
É reconfortante culpar apenas a inteligência estrangeira ou os bots quando o debate político vira um caos.
Mas o principal achado da nossa investigação nos levou a constatar que a manipulação vinda de fora não cria confusão do nada. Ela rastreia e joga gasolina nas divisões já existentes no país.
O relatório Countering foreign interference in U.S. elections (Combatendo a interferência estrangeira nas eleições dos EUA, na tradução livre), da RAND Corporation, ajuda a entender essa dinâmica.
Ao avaliar as eleições norte-americanas, o documento revelou que memes promovidos por agentes russos circularam com eficácia ao explorarem clivagens identitárias da sociedade americana, como o debate sobre o porte de armas.
Campanhas de agentes externos dependem de rachaduras políticas, identitárias e sociais em cada sociedade.
Se um país já sofre com polarização, eleitores radicalizados e descrédito crescente nas instituições políticas, ele oferece um ambiente propício para que narrativas externas sejam abraçadas como se fossem revoltas legítimas.
O objetivo final não é apenas garantir a vitória de um candidato nas urnas. A grande vitória para quem orquestra esses ataques é plantar a semente da dúvida.
Ao explorar as fissuras, essas campanhas geram um desgaste lento e contínuo, com perda de confiança no processo democrático.
Diferentes abordagens, um desafio em comum
Durante a pesquisa, notamos um abismo entre a forma como as universidades estudam esse problema e a forma como as agências de segurança dos governos lidam com ele no dia a dia.
De um lado, pesquisadores estão preocupados com o dano a longo prazo. Um trabalho de 2024, liderado por Ceren Budak e intitulado Misunderstanding the harms of online misinformation (A má compreensão dos danos da desinformação online, na tradução livre), argumenta que a desinformação satura o ambiente de ruídos e destrói o que os acadêmicos chamam de infraestrutura epistêmica.
A poluição do debate público pelas redes sociais é tão grande que a sociedade perde sua capacidade básica de concordar sobre quais fatos são reais e, a partir daí, tomar decisões democráticas informadas.
Do outro lado, os relatórios de agências estatais, que ditam as políticas de defesa ao redor do mundo, adotam uma postura de urgência tática.
Os governos priorizam o pragmatismo de identificar redes inautênticas, cortar financiamentos e conter à força as ameaças imediatas, como a enxurrada de imagens e perfis falsos gerados por IA.
O grande problema é que essas duas visões quase nunca conversam de forma integrada.
E, ainda, nossa análise revelou que tanto os cientistas quanto as agências de inteligência tropeçam no mesmo obstáculo ao tentarem determinar o tamanho real do estrago. Hoje, ainda é praticamente impossível medir se essas campanhas milionárias de desinformação conseguem mesmo virar votos nas urnas, e em qual medida.
O estudo Exposure to the Russian Internet Research Agency foreign influence campaign on Twitter in the 2016 US election and its relationship to attitudes and voting (Exposição à campanha de influência estrangeira da Agência de Pesquisa da Internet russa no Twitter nas eleições dos EUA de 2016 e sua relação com atitudes e o voto, na tradução livre), conduzido pelo pesquisador Gregory Eady, comprova essa dificuldade.
Ao analisar a campanha de influência russa no X durante as eleições americanas, a sua equipe descobriu que, embora milhões de usuários tenham sido expostos ao material manipulado, não foi possível comprovar que isso tenha gerado conversão de votos.
Por que isso acontece? A resposta expõe a maior assimetria de poder da era digital. As pesquisas dependem, em grande medida, dos dados fornecidos pelas próprias big techs.
Pesquisadores e governos operam no escuro, tateando algoritmos opacos e plataformas privadas que guardam suas informações como segredos industriais.
Sem acesso transparente à arquitetura de dados, ficamos incapazes de mensurar com precisão como o eleitor muda de opinião após ser bombardeado por propagandas microdirecionadas.
Existe também uma enorme injustiça geográfica na forma como tentamos compreender o problema.
Ao longo da pesquisa, constatamos que a esmagadora maioria dos estudos, dos investimentos e das ferramentas de segurança está voltada para o que ocorre nos Estados Unidos e na Europa.
Países do Sul Global sofrem os danos violentos dessas operações externas, mas as suas realidades continuam a ser lidas sob a ótica das preocupações do Norte.
Blindando a democracia
Defender as eleições no século 21 exige compreender que a tecnologia, por si só, não cria fragilidade democrática.
Para enfrentar esse cenário que ameaça a soberania nacional, o debate precisa ultrapassar a lógica exclusiva da segurança cibernética e do combate isolado às notícias falsas.
A proteção efetiva da integridade eleitoral demanda unir o conhecimento crítico da academia com o pragmatismo das agências de Estado.
O enfrentamento dessas ameaças passa por reduzir as nossas próprias vulnerabilidades e construir um ecossistema digital mais transparente.
Gustavo Magalhães da Silva Junior recebeu financiamento CNPQ durante o periodo em que cursou Mestrado no PPGCOM PUC-Rio
Arthur Ituassu é Pesquisador Associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD) e Membro do Conselho do Instituto Democracia em Xeque (DX). Recebe financiamentos da CAPES, CNPq e FAPERJ. Também é Professor Visitante no Centro de Estudos Latino Americanos da Universidade do Arizona (CLAS/UA) com financiamento da Fulbright.


















