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Agiotagem avança na Grande BH com juros de até 40%, ameaças e vídeos de espancamentos

Operações da Polícia Civil já prenderam dezenas de suspeitos em 2026

Minas Gerais|Cler Santos, do R7

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Criminosos em Belo Horizonte e Região Metropolitana usam violência e ameaças em esquemas de agiotagem, com juros abusivos chegando a 40% ao mês.
  • Casos investigados revelam empréstimos com juros altos, perseguições e agressões, com vítimas intimidadas por vídeos de espancamentos e ameaças nas redes sociais.
  • Operações policiais, como a Operação Capital Coativo, resultaram na prisão de suspeitos, incluindo estrangeiros, e na apreensão de armas, dinheiro e equipamentos.
  • Advogado explica que a prática de agiotagem é ilegal e frequentemente associada a crimes como extorsão, lesão corporal e cárcere privado.

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Vídeos de espancamentos e cobranças pautadas por violência tem se tornado comuns na capital mineira
Vídeos de espancamentos e cobranças pautadas por violência tem se tornado comuns na capital mineira Reprodução/RECORD Minas

Vídeos de pessoas sendo espancadas, mensagens de ameaça, perseguições e cobranças insistentes fazem parte da rotina relatada por vítimas de agiotagem em Belo Horizonte e na Região Metropolitana. Para intimidar quem está endividado, criminosos chegam a publicar imagens de agressões e supostas torturas nas redes sociais ou enviar o conteúdo diretamente aos devedores. Ao longo de 2026, diferentes casos investigados pela polícia revelaram empréstimos com juros abusivos e cobranças que, em algumas situações, terminaram em violência.

Uma mulher, que não será identificada por medo de represálias, conta que acabou assumindo uma dívida contraída por um familiar com agiotas. Segundo ela, o parente pegou R$ 5 mil emprestados, mas o valor ultrapassou R$ 40 mil por causa dos juros cobrados.


“Foram atrás dele várias vezes e eu acabei assumindo a dívida para não vê-lo morrer”, relata.

Mesmo depois de pagar valores elevados, a mulher afirma que não conseguiu encerrar a dívida. Atualmente, diz desembolsar cerca de R$ 2 mil por mês para os agiotas, enquanto recebe aproximadamente R$ 2,8 mil. Segundo ela, os cobradores afirmam que ainda faltam cerca de R$ 8 mil. A cada atraso, novos juros são acrescentados.


A vítima chegou a procurar a polícia para registrar um boletim de ocorrência, mas desistiu ao descobrir que os dados pessoais dela seriam incluídos no documento. Com medo de represálias, afirma que não sabe como conseguir sair da situação.

A intimidação, segundo ela, não se limita às cobranças diretas. Quando a data combinada para o pagamento cai em um fim de semana, por exemplo, as mensagens começam antes mesmo do vencimento. Nas redes sociais, os agiotas também publicariam vídeos e fotos de pessoas sendo agredidas. O objetivo, segundo o relato, seria mostrar aos devedores o que poderia acontecer caso o dinheiro não fosse entregue.


Casos investigados ao longo deste ano mostram que a cobrança violenta de dívidas tem aparecido de forma recorrente em ocorrências policiais na Grande BH. Em maio, a Polícia Civil desencadeou a Operação Capital Coativo contra um esquema suspeito de agiotagem, extorsão e lavagem de dinheiro. A ação teve como um dos principais focos Contagem.

Em uma das fases da operação, 14 pessoas foram presas na Grande BH, entre elas nove estrangeiros, a maioria colombianos, e cinco brasileiros. Segundo as investigações, o grupo oferecia empréstimos principalmente a pequenos comerciantes e mulheres e cobrava taxas elevadas.


Facas que, conforme a Polícia Civil, eram utilizadas para ameaçar vítimas, além de celulares, computadores e dinheiro em espécie, foram apreendidas em imóveis ligados aos investigados. A polícia apontou ainda que integrantes do grupo perseguiam devedores, tiravam fotografias e gravavam vídeos como forma de pressioná-los a realizar os pagamentos.

As investigações também identificaram relatos de exposição pública das vítimas. Em alguns casos, cartazes com fotografias de pessoas endividadas teriam sido espalhados pelas ruas para constrangê-las. Também houve denúncias de invasões de imóveis e retirada de pertences das casas dos devedores.

Mais de 340 vítimas

A estimativa da Polícia Civil é de que mais de 340 pessoas tenham sido vítimas do esquema investigado. Uma das etapas da operação foi realizada simultaneamente em 18 cidades de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná, com a participação de cerca de 340 policiais civis. Na ocasião, 15 pessoas haviam sido presas, a maioria em municípios mineiros, como Belo Horizonte, Contagem, Betim e Uberlândia.

As investigações tiveram novos desdobramentos. Em 15 de julho, um homem de 28 anos foi preso em flagrante no bairro Tupi, na região Norte de Belo Horizonte. A apuração começou depois que comerciantes da Rua Furquim Werneck procuraram policiais da 6ª Delegacia de Polícia Civil de Contagem e denunciaram o aumento das cobranças feitas por agiotas acompanhadas de ameaças.

Os investigadores passaram a monitorar a movimentação na região e identificaram um homem que circulava de motocicleta entre estabelecimentos comerciais. Conforme a Polícia Civil, comerciantes reconheceram o suspeito como um dos responsáveis por realizar cobranças para um grupo que atuava no local.

Durante a abordagem, foram encontrados panfletos com ofertas de empréstimos. Comerciantes também apresentaram capturas de tela de mensagens que, segundo a investigação, demonstravam as ameaças. Celulares e a motocicleta utilizada pelo suspeito foram apreendidos.

O homem teve a prisão em flagrante ratificada pelos crimes de perseguição, extorsão e usura pecuniária. A Polícia Civil também representou pela conversão da prisão em preventiva e manteve as investigações para identificar outros envolvidos.

A agiotagem também apareceu associada a episódios de violência em outras investigações deste ano. Em junho, duas pessoas foram presas durante a Operação Cárcere, na região Oeste de Belo Horizonte. Uma vítima relatou ter sido sequestrada e agredida durante uma cobrança relacionada a uma dívida. Os investigados eram suspeitos de crimes como extorsão, agiotagem e cárcere privado.

No mês seguinte, um homem investigado por agiotagem foi preso após ser suspeito de espancar uma mulher durante a cobrança de uma dívida de R$ 10 mil em um hotel no Centro de Belo Horizonte. A investigação levou a Polícia Civil a cumprir medidas em hotéis das ruas Guaicurus e São Paulo e apurava suspeitas de agiotagem, extorsão e tortura.

Também em julho, uma operação policial teve como alvo um esquema que reuniria tráfico de drogas, extorsão e agiotagem na Grande BH. Dois irmãos foram presos e milhões de reais em bens foram bloqueados durante as investigações.

Em agosto, dez pessoas foram presas em uma operação contra outro esquema suspeito de agiotagem e tortura na Região Metropolitana. Segundo a investigação, o grupo atuava principalmente em São José da Lapa e cobrava juros que chegavam a 30% ao mês. A violência seria utilizada como forma de pressionar as vítimas pelo pagamento.

A prática também apareceu como possível motivação para homicídios. Em julho, um jovem de 22 anos foi morto a tiros em Ibirité, e uma dívida com agiotas foi apontada pela polícia como uma das linhas investigadas para o crime. Em fevereiro, um homem de 33 anos apontado como agiota foi assassinado em Contagem após, segundo a investigação, marcar um encontro para cobrar uma dívida superior a R$ 400 mil.

Nesta semana, outro caso foi registrado em Belo Horizonte. Um homem de 32 anos suspeito de agiotagem foi preso em flagrante no bairro Ouro Preto, na região da Pampulha. Segundo a polícia, ele ameaçava vítimas mostrando armas e munições e cobrava juros que chegavam a 40% ao mês.

Uma das vítimas havia pegado R$ 500 emprestados e já teria desembolsado aproximadamente R$ 1,4 mil, mas ainda era cobrada por uma suposta dívida de cerca de R$ 5 mil. Desesperada, ela marcou um encontro com o suspeito em um estabelecimento próximo a uma delegacia e procurou a polícia antes da chegada dele. O homem acabou abordado e preso.

O que diz a lei?

O advogado criminalista Paulo Crosara explica que o termo agiotagem é usado popularmente para se referir ao crime de usura, caracterizado, segundo ele, pelo empréstimo de dinheiro com cobrança de juros acima do permitido para pessoas que não integram instituições financeiras autorizadas.

“O que caracteriza o crime, que é de usura — não existe o crime de agiotagem —, é emprestar dinheiro acima dos juros permitidos por lei. Instituições financeiras autorizadas podem emprestar com juros acima disso. Pessoas comuns não podem emprestar dinheiro acima de 1% ao mês. Então, se você faz um contrato cobrando juros acima de 1%, isso é o crime de usura, que a gente chama de agiotagem. Então, 40% ao mês é claramente uma agiotagem”, afirma Crosara.

Segundo o advogado, a ilegalidade dos juros também ajuda a explicar por que as cobranças feitas por agiotas podem migrar para ameaças e violência, já que a cobrança dos percentuais abusivos não poderia ser feita normalmente pela via judicial.

“É muito comum, exatamente por ser ilegal, que a cobrança dessa dívida não se dê na Justiça. Até porque, se cobrar na Justiça, essa cláusula dos 10%, 20%, 30%, 40% de juros ao mês vai ser considerada ilegal”, explica.

Crosara afirma que é justamente na forma de cobrança que podem surgir crimes mais graves. Ameaça, constrangimento ilegal, lesão corporal, cárcere privado e extorsão estão entre as condutas que, segundo o criminalista, podem aparecer associadas à agiotagem.

“Eles vão ter que cobrar de outras formas. Então, o que nós vamos ter são esses tipos penais: ameaça, constrangimento ilegal, lesão corporal, cárcere privado, trancar a pessoa num lugar até ela pagar, são esses tipos de crime que estão associados à agiotagem”, afirma.

Para o advogado, a gravidade dos casos pode estar justamente nos crimes cometidos durante a tentativa de receber o dinheiro. Apesar de os episódios registrados ao longo do ano não estarem necessariamente relacionados entre si, as investigações apresentam características semelhantes: empréstimos informais, juros elevados, dívidas que crescem rapidamente e cobranças acompanhadas, em alguns casos, de ameaças, perseguição e agressões.

Para quem é vítima, Crosara orienta guardar o maior número possível de provas das cobranças e ameaças. Conversas por aplicativos de mensagens, áudios, textos, fotografias e gravações podem auxiliar uma eventual investigação.

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