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Canetas emagrecedoras mudam hábitos e fazem bares de BH adaptar cardápios

Pesquisa aponta que 61% dos empresários do setor já perceberam mudanças no consumo

Minas Gerais|Cler Santos, do R7

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Belo Horizonte adapta cardápios de bares e restaurantes devido ao aumento do uso de canetas emagrecedoras.
  • Pesquisa da Abrasel revela que 61% dos empresários notaram mudanças no consumo, com aumento na procura por porções menores e alimentos mais leves.
  • O uso de medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida levou a uma redução no consumo de sobremesas e bebidas alcoólicas.
  • Estabelecimentos estão reformulando menus para incluir opções mais saudáveis, como sanduíches com carnes magras e bebidas sem álcool, visando atrair e fidelizar clientes.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

O uso de medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida tem dminuído o apetite das pessoas RECORD Minas/ Reprodução

Conhecida pelos bares e pela culinária marcada por pratos fartos, Belo Horizonte começa a sentir os efeitos da popularização das canetas emagrecedoras. O avanço no uso desses medicamentos tem mudado o comportamento dos consumidores e levado estabelecimentos da capital mineira a reduzir porções, oferecer alimentos mais leves e ampliar as opções de bebidas sem álcool.

Os impactos já aparecem nos números do setor. Uma pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), realizada com 1.600 estabelecimentos de todo o país, mostrou que 61% dos empresários identificaram mudanças no comportamento dos clientes associadas ao uso de medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida, princípios ativos presentes nas chamadas canetas emagrecedoras.


Entre os estabelecimentos que perceberam alterações, 64% relataram aumento na procura por porções menores. Outros 65% observaram redução no consumo de sobremesas. Também foram identificadas mudanças nos pedidos de pratos principais e bebidas alcoólicas.

As transformações ocorrem em meio ao crescimento das vendas desses medicamentos no Brasil. Dados da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), levantados pela agência Fiquem Sabendo e analisados pela Abrasel, mostram que a comercialização de produtos com semaglutida e tirzepatida avançou 23,2% no primeiro semestre de 2026, na comparação com o mesmo período do ano anterior.


O maior aumento ocorreu entre os medicamentos à base de semaglutida vendidos em caixas, que tiveram alta de 58,8%. Somente em junho, foram contabilizadas 368.741 vendas. O crescimento ganhou força principalmente durante o segundo trimestre.

Apetite e escolhas mudam

A mudança percebida pelos empresários começa no organismo dos próprios consumidores. Depois de iniciar um tratamento com tirzepatida, a cabelereira Luciene Souza afirma que passou a sentir alterações no apetite e no paladar. Ao sair para comer, ela agora procura alimentos menos pesados. “Coisas mais leves, porque eu chego saciada no local”, relata.


Após seis meses de tratamento, Luciene atingiu o peso desejado. Mesmo assim, encontrar estabelecimentos com opções compatíveis com a nova rotina alimentar continua sendo um fator importante na escolha do local.

“Tem um barzinho hoje com um cardápio que oferece uma proteína, uma coisa mais saudável, mais leve, para você estar ali acompanhado de alguém e acompanhar a pessoa naquele petisco mais leve”, afirma.


A experiência mostra que os usuários das canetas não necessariamente deixaram de frequentar bares e restaurantes. Eles continuam saindo, mas passaram a dividir pratos, consumir quantidades menores e procurar alimentos ricos em proteína, com menos fritura e considerados mais leves.

Restaurante de BH chegou a perder 20% do faturamento

Em um bar e restaurante no bairro Floresta, na Região Leste de Belo Horizonte, a mudança no comportamento dos clientes chegou a provocar uma queda de 20% no faturamento. O sócio do estabelecimento, Vinícius Duarte, conta que os primeiros sinais começaram a aparecer no fim de 2025 e se tornaram mais evidentes neste ano.

“A gente começou a perceber isso mais este ano, no final do ano passado. A gente notou não só pela quantidade de comida que as pessoas pediam mais para compartilhar, mas pela demanda de algumas pessoas para que tivesse alguma coisa mais leve, com menos fritura”, explica.

A percepção também veio de dentro do próprio negócio. O outro sócio do restaurante começou a usar uma caneta emagrecedora e passou a enfrentar dificuldades para consumir as porções oferecidas pela casa. A experiência ajudou os empresários a entender que não se tratava apenas de uma busca por alimentação saudável, mas também de uma redução significativa na capacidade de ingestão.

Depois de analisar os dados de consumo, o estabelecimento começou a reformular o cardápio. Um sanduíche de croquete de porco recheado com queijo, que antes estava entre os mais procurados, perdeu espaço para uma versão feita com frango defumado, salada e creme de parmesão.

“O sanduíche tem feito bastante sucesso. Acho que, além de querer uma coisa mais leve, as pessoas estão focando muito em consumir mais proteína de uma forma mais saudável, e esse sanduíche proporciona isso”, afirma Vinícius.

O restaurante também passou a estudar petiscos que provocam maior sensação de leveza, incluiu sanduíches preparados com carnes magras e ampliou as alternativas destinadas ao compartilhamento.

A proposta, segundo os empresários, não é transformar o estabelecimento em um “boteco fitness”, mas agregar opções que atendam tanto os usuários dos medicamentos quanto clientes que desejam manter uma alimentação mais equilibrada nos momentos de lazer.

Bebidas sem álcool ganham espaço

As adaptações não ficaram restritas à comida. O estabelecimento também percebeu aumento na procura por cervejas sem glúten, cervejas sem álcool e drinques sem teor alcoólico.

“A gente notou muito também com as cervejas a demanda por opções sem glúten e zero álcool. Colocamos no cardápio como long neck e agora já estamos vendendo em garrafas grandes, porque a procura aumentou muito. Também fizemos uma carta especial sem álcool, com três drinques que estão saindo bastante”, conta Vinícius.

As mudanças ajudaram o restaurante a recuperar o faturamento perdido. Para o empresário, oferecer alternativas mais leves não atende exclusivamente às pessoas que usam as canetas, mas também alcança consumidores que praticam atividades físicas ou seguem dietas e não querem abandonar completamente a rotina alimentar quando saem com amigos.

“Eu acredito que essa mudança no comportamento dos clientes não é passageira e deve influenciar o setor nos próximos anos. Eu também sempre fiz atividade física e seguia dietas regularmente, então sentia falta de frequentar lugares no meu momento de lazer sem sair tanto da rotina”, explica.

Compartilhamento de pratos e sobremesas

Além da redução no tamanho das porções, a Abrasel identificou uma tendência de compartilhamento. Em vez de cada pessoa pedir uma sobremesa, por exemplo, grupos passaram a dividir o mesmo pedido. O movimento também ocorre com petiscos e pratos principais.

A preferência por bebidas consideradas mais saudáveis e até mesmo sem álcool completa esse novo padrão de consumo. Para a entidade, adaptar o cardápio pode ajudar os estabelecimentos a atrair e fidelizar esse público.

“O mais importante para o restaurante é adaptar o cardápio para atender e ser inclusivo em relação a essas pessoas, porque você cria uma oportunidade de trazer mais gente e fidelizar esse público. Quando ele percebe que existem pratos que atendem a essa necessidade, vai optar pelo restaurante ou pelo bar quando levar os amigos para jantar, sair ou se encontrar”, destaca a associação.

Setor espera novas transformações

O presidente executivo da Abrasel, Paulo Solmucci, avalia que o setor ainda poderá passar por um novo momento de mudança caso o acesso aos medicamentos seja ampliado para outras faixas de renda.

“Enquanto o uso desses medicamentos esteve restrito às classes A e B, os estabelecimentos tinham como opção o investimento em experiências e produtos de maior valor agregado. Contudo, com a queda da patente e a possível chegada às classes C e D, o consumo deve passar por outro momento de mudança, e os estabelecimentos terão que buscar outras formas de se adaptar”, afirma.

A expectativa do varejo farmacêutico reforça a tendência de expansão. Atualmente, as canetas representam entre 8% e 9% da receita do setor. A estimativa é que essa participação chegue a 20% até 2030.

Para Vinícius, bares e restaurantes terão condições de acompanhar as mudanças. “O setor está mais do que preparado e é muito resiliente para atender esse público, qualquer que seja a mudança que a gente sinta no comportamento do consumidor”, conclui.

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