‘Eu me senti invadida e constrangida’, diz paciente que denuncia importunação sexual em hospital de MG
Paciente afirma que estudante de medicina tirou fotos de suas partes íntimas, fez perguntas constrangedoras e a tocou sem autorização durante atendimento
Minas Gerais|Cler Santos, do R7 ; Juliana Pereira e João Victor, da RECORD Minas
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“Eu me senti muito constrangida, muito vulnerável. Ele é um psicopata.” É assim que uma paciente de 21 anos, que prefere não ser identificada, descreve o que diz ter vivido dentro do Hospital Universitário Alzira Velano, em Alfenas, no Sul de Minas, a 338km de Belo Horizonte. A jovem denuncia ter sido vítima de importunação sexual durante um atendimento médico. O suspeito é um estudante de medicina, de 39 anos, preso em flagrante, mas colocado em liberdade provisória poucas horas depois.
A paciente conta que procurou o hospital apenas para receber duas aplicações de Benzetacil, prescritas durante um atendimento anterior. Ela tratava uma lesão na região íntima e aguardava encaminhamento para um ginecologista quando começou a sentir enjoo. Segundo o relato, foi nesse momento que passou a ser atendida pelo estudante.
“Ele perguntou se eu tinha fotos das minhas partes íntimas para acompanhar a evolução do caso. Eu falei que não tinha. Depois me chamou para uma sala dizendo que iam estudar o meu caso e me ajudar”, lembra.
A jovem afirma que, inicialmente, outro acadêmico conduzia o atendimento, mas que o suspeito entrou na sala e passou a fazer perguntas pessoais. Entre elas, uma a deixou completamente surpresa.
“Ele olhou para mim e perguntou: ‘Você faz programa?’. Eu respondi que não, que sou cabeleireira. O outro acadêmico ficou indignado com a pergunta e saiu da sala”, relata.
Pouco depois, segundo a vítima, o estudante retornou usando jaleco e segurando uma prancheta, apresentando-se como o médico responsável pelo caso. “Ele falou: ‘Eu sou o médico que vai atender seu caso’. Eu acreditei. Achei que realmente ele era o médico que iria me examinar”, conta.
Foi então que, segundo a denúncia, o abuso aconteceu. A paciente afirma que, seguindo as orientações do homem, mostrou a região íntima acreditando que fazia parte do atendimento. Nesse momento, percebeu que ele segurava um celular.
“Ele pediu para eu abrir as pernas e mostrar uma região específica. Quando fiz isso, vi o celular e, de repente, o flash disparou. Na hora perguntei: ‘Você está tirando foto? Estou me sentindo constrangida. Apaga, por favor’.”
Segundo ela, o estudante respondeu que as imagens seriam utilizadas para estudo do caso. “Ele falou que era para mostrar para a equipe que estava do lado de fora. Depois saiu da sala.”
A jovem afirma ainda que, além de fotografá-la sem autorização, o estudante tocou sua região genital sem utilizar luvas de procedimento. Logo após deixar a sala, ela contou o que havia acontecido a outros estudantes.
Abalada, a paciente deixou o hospital e foi para casa. Segundo ela, foi somente ao chegar que conseguiu dimensionar o impacto emocional da situação.
“Quando cheguei em casa, não consegui me controlar. Comecei a chorar. Me senti muito constrangida e muito vulnerável. Minha mãe e uma amiga chamaram a Polícia Militar na mesma hora.”
A Polícia Militar foi acionada por volta de 1h da madrugada e retornou ao hospital com a vítima. Segundo a corporação, o estudante foi localizado e preso em flagrante.
Ainda conforme o relato da jovem, durante a abordagem, o suspeito alegou que havia fotografado a paciente para apresentar as imagens à ginecologista. No entanto, segundo ela, a médica negou essa versão.
“A ginecologista disse que ele nunca mostrou foto nenhuma para ela e que nem estava no consultório naquele momento.” A paciente também afirma que, após ser levado ao presídio, o estudante pediu desculpas. “Ele falou: ‘Me desculpa, eu me arrependi’. Depois ainda disse aos policiais que eu estava drogada, que eu era louca.”
Apesar da prisão em flagrante, o estudante recebeu liberdade provisória no fim da tarde do mesmo dia. Para a vítima, a decisão causa revolta.
“Eu espero que ele seja preso e pague pelo que fez. Que ele nunca consiga exercer a medicina. Eu fui ao hospital procurar ajuda e achei que ele era o médico que iria cuidar de mim. Ele estava totalmente com segundas intenções.” Ela afirma que decidiu denunciar o caso para impedir que outras mulheres passem pela mesma situação.
“Se ele fez isso comigo, uma mulher de 21 anos, o que pode fazer com uma criança? Com uma idosa? Eu só quero que a Justiça seja feita.”
Hospital afastou estudante
Em nota, o Hospital Universitário Alzira Velano informou que afastou imediatamente o estudante de todas as atividades na instituição assim que tomou conhecimento da denúncia. O hospital afirmou ainda que instaurou procedimentos internos para apurar o caso e que mantém diálogo com a instituição de ensino responsável pelo aluno.
A direção ressaltou que a paciente e seus familiares receberam acolhimento e suporte da equipe e reforçou que estudantes não são autorizados a atender pacientes desacompanhados de um médico supervisor. Segundo a unidade, a conduta denunciada não faz parte dos protocolos assistenciais do hospital.
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais informou que o caso tramita em segredo de Justiça. A reportagem procurou o suspeito e aguarda posicionamento.
Casos crescem no Brasil
A denúncia registrada em Alfenas ocorre em um cenário de crescimento desse tipo de crime no Brasil. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que, somente em 2025, foram distribuídos 19.835 novos processos por importunação sexual, uma média de 54 novos casos chegando diariamente ao Judiciário.
Os registros policiais apontam números ainda mais elevados. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o país contabilizou 41.425 ocorrências de importunação sexual em 2025, contra 39.029 em 2024, um aumento de 6,4% em apenas um ano.
O crime de importunação sexual passou a ter previsão específica na legislação brasileira em 2018. Ele ocorre quando alguém pratica, sem consentimento, ato libidinoso com o objetivo de satisfazer a própria lascívia ou a de terceiros. A conduta inclui situações como tocar partes íntimas de outra pessoa sem autorização, praticar atos de natureza sexual em locais públicos, exibir conteúdo pornográfico ou se masturbar diante de alguém sem consentimento.
Para a especialista em Direito da Mulher, Thalita Arcanjo, a denúncia é um passo fundamental para interromper esse tipo de violência e garantir que os responsáveis sejam investigados. Segundo ela, muitas vítimas deixam de procurar ajuda por medo, vergonha ou por demorarem a reconhecer que sofreram um crime.
A orientação é que, diante de qualquer situação de importunação sexual, a vítima procure uma delegacia, registre boletim de ocorrência e, sempre que possível, preserve provas e informações que possam contribuir com a investigação. Essas medidas podem ser decisivas para a responsabilização do autor e para garantir proteção à vítima.
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