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‘Não desejo o mal para ele’, diz mãe de Laudemir sobre empresário acusado de matar o gari em BH

Irani, de 80 anos, espera que René Júnior possa refletir sobre o crime após condenação; nesta terça-feira (11) completa um ano do crime

Minas Gerais|Arnon Gonçalves, do R7 e Janaína Machado, da Record Minas

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Irani de Souza Fernandes, mãe do gari Laudemir, deseja que o empresário Renê Júnior reflita sobre o crime após sua condenação.
  • O crime ocorreu após uma briga de trânsito, onde Renê usou a arma de sua esposa, uma delegada, resultando na morte de Laudemir.
  • Renê possui um histórico de violência, incluindo casos de agressão e um atropelamento fatal em 2011.
  • O julgamento de Renê está em andamento, com expectativa de que ele vá a júri popular, enquanto a delegada envolvida enfrenta um processo administrativo.

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Assassino confesso do gari Laudemir Fernandes foi denunciado por homicídio duplamente qualificado, porte ilegal de arma de fogo e ameaça
Assassino confesso do gari Laudemir Fernandes foi denunciado por homicídio duplamente qualificado, porte ilegal de arma de fogo e ameaça Reprodução/Record Minas

Irani de Souza Fernandes, de 80 anos, mãe do gari Laudemir Fernandes, de 44, disse que não deseja o mal para o empresário Renê Júnior. A idosa conta que quer sim que ele seja condenado, mas que use esse tempo para refletir sobre o que fez. Nesta terça-feira (11), completa um ano da morte do gari, assassinado à tiros no dia 11 de agosto de 2025, no bairro Vista Alegre, em Belo Horizonte.

Segundo investigação da Polícia Civil, o crime foi motivado por uma briga de trânsito quando o caminhão de coleta em que Laudemir estava parou em uma rua para realizar o serviço e o empresário se irritou ao tentar passar pela via. De acordo com a investigação, Renê usou a arma da esposa, a delegada da Polícia Civil Ana Paula Lamego Balbino, para intimidar a motorista do caminhão quando Laudemir entrou na frente e foi atingido por um disparo.


Irani, mãe de Laudemir, conta que ficou sabendo da notícia pela TV. “Eu desabei. O mundo virou de cabeça para baixo. Nunca imaginava ver um filho meu morrer”, desabafa. Segundo a idosa, o gari era muito calmo, um ótimo filho, e não costumava brigar.

Sobre René, ela espera que o empresário pense no que fez enquanto estiver na cadeia. “Eu não desejo o mal para ele, mas quero que ele fique trancado para meditar sobre o que ele fez”, afirma.


A mãe de Laudemir também comenta que pretende ir no dia do julgamento e que irá acompanhar tudo até o final. “Seja daqui um ano, seja daqui dez anos, eu vou acompanhar”. Ela disse, ainda, que pede por justiça para que o caso não fique impune.

Eledias Rodrigues, a motorista que dirigia o caminhão de coleta no dia do crime, conta que decidiu permanecer na mesma rota que passa pela rua onde o assassinato ocorreu, mas que mudou a forma de enxergar as coisas. “Significa superação, não criar um gatilho para chegar ao ponto de desistir da minha profissão. Eu pensei, refleti muito, e vi que não foi o bairro, não foi o local, foi o posicionamento de um ser humano”.


Sobre Renê, Eledias é incisiva ao afirmar que o empresário se sentiu em uma posição de poder na situação. “Ele fez um descaso, da poícia, do nosso trabalho, da nossa posição social, estamos aqui pra cuidar, zelar e não prejudicar ele. Ele se sentiu em uma situação de poder, querendo passar a todo custo. E ainda se sentiu ofendido por não ter sido no momento que ele queria”, comenta.

Em relação ao julgamento, a motorista espera que René vá a júri popular. “Que tenha uma sentença justiça, que venha a confessar o que ele fez”, completa.


Processo em andamento

Em janeiro deste ano a Justiça determinou que Renê da Silva Nogueira Júnior vá a júri popular pelo assassinato do gari Laudemir de Souza Fernandes. A decisão de pronúncia foi proferida pelo Tribunal do Júri da comarca da capital.

Na decisão, a juíza entendeu que existem provas do crime e indícios suficientes de autoria. Agora, é aguardado uma análise do recurso para que o processo possa voltar ao Tribunal e, caso fique decidido, seja marcado o júri popular.

O advogado criminalista, Paulo Crosara, explica que não existe um prazo legal para que esse recurso seja analisado, só a prisão preventiva que precisa ser revista a cada 120 dias, enquanto o júri não é marcado. Nesse tempo de espera, o processo fica parado. “Nós estamos em uma capital que tem muitos homicídios, existe uma fila”, explica.

Sobre o fato do réu ter sido pronunciado em janeiro e já ter se passado sete meses, ele explica que o processo está dentro do prazo normal, e que esse ano ainda deve sair a decisão se irá para júri popular ou não. “O rito do tribunal do júri é um pouco mais demorado que os outros, é mais formal e burocrático, por tudo que envolve, então ele tem um andar um pouco mais devagar”, explica.

Troca de advogado

No último sábado (8), o escritório Lima e Silva, Correa e Resende Neves Sociedade de Advogados anunciou que assumiu oficialmente o “patrocínio das demandas cíveis e criminais de todas as demandas em curso” envolvendo o réu Renê da Silva Nogueira Júnior.

O escritório é o mesmo que faz a defesa da diarista Paola Stefany Neto Cirino, acusada de matar um casal de idosos no bairro São Pedro, em BH, em 29 de junho deste ano.

O anúncio do novo advogado ocorreu logo após a equipe do advogado Bruno Silva Rodrigues, com sede no Rio de Janeiro, deixar a defesa do empresário. Esta é a quarta mudança na representação jurídica do acusado desde o início do processo.

Dia do crime

Segundo a Polícia Militar, o crime ocorreu após um desentendimento banal no trânsito. Um caminhão fazia a coleta de lixo na rua Jequitibá, que é mão dupla. Uma fila se formou com carros que vinham de outra via, a rua Modestina de Souza, e que iriam entrar na Jequitibá, em direção à Avenida Tereza Cristina.

Dirigindo um carro SUV, Renê teria hesitado em passar ao lado do caminhão. Neste momento, segundo a Polícia Militar, ele passou a xingar e a fazer ameaças à motorista da limpeza urbana. Os garis desceram para tentar acalmar o empresário. Nesse momento, segundo testemunhas, o disparo foi feito e acertou a região do abdômen do Laudemir. Ferido, ele ainda caminhou até a esquina, onde caiu. Renê, contaram testemunhas, seguiu pela rua Jequitibá e sumiu na avenida Tereza Cristina.

Horas após o crime, o empresário foi preso em uma academia de alto padrão na região Oeste de BH. Ele teve a prisão em flagrante ratificada por homicídio qualificado e ameaça, com agravantes como motivo fútil e recurso que dificultou a defesa da vítima. Durante as investigações, foi identificado que a arma utilizada no crime estaria ligada à Ana Paula Balbino, delegada de polícia influente no combate à violência doméstica, o que motivou a abertura de apuração interna para verificar eventual responsabilidade administrativa.

Em setembro do mesmo ano, o Ministério Público de Minas Gerais denunciou o acusado por homicídio qualificado, porte ilegal de arma de fogo, ameaça e tentativa de fraude processual. A denúncia incluiu três qualificadoras: motivo fútil, perigo comum e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. O processo segue em tramitação na Justiça, enquanto a Polícia Civil conduz, paralelamente, a apuração disciplinar que pode resultar na demissão da delegada envolvida no caso.

Depoimento do empresário

O empresário Renê da Silva Nogueira Júnior concedeu, em novembro, sua primeira entrevista desde que foi preso. Em entrevista exclusiva a Roberto Cabrini, realizada no presídio em Caeté, Minas Gerais, o acusado admitiu ter passado pelo local do crime armado e reconheceu estar presente na cena durante o ocorrido, mas nega ter disparado contra Laudemir.

Testemunhas afirmam que Renê teria ameaçado os garis antes dos disparos: “Se vocês encostarem no meu carro, eu dou um tiro na sua cara”, alega um dos profissionais presentes na cena do crime. O empresário diz que apenas avisou os profissionais que seu carro não passaria ao lado do caminhão de lixo e nega estar irritado no momento: “Se batesse o carro, era só uma porta, não a vida de uma pessoa. É muito diferente”.

Passagens pela polícia

Renê possui um histórico extenso de violência, conforme registros da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Em 2003, ele foi encaminhado ao juizado especial criminal por agredir uma mulher. Dois anos depois, voltou a ser conduzido a uma delegacia por um caso de violência doméstica contra a ex-noiva, que teve as costelas mordidas pelo agressor, segundo ocorrência policial.

Já em 2011, René atropelou uma mulher de 50 anos no bairro Recreio dos Bandeirantes, na capital fluminense. A vítima não resistiu aos ferimentos e morreu. Na ocasião, ele foi acusado de homicídio culposo por dirigir em alta velocidade.

Em 2021, Renê foi investigado por violência doméstica contra sua ex-mulher. Conforme depoimento da vítima, ele teria ameaçado e causado lesões corporais graves, em desavenças relacionadas ao divórcio, especialmente sobre a partilha de bens e pensão alimentícia.

Delegada investigada

No dia 23 de abril, a Corregedoria-Geral da Polícia Civil instaurou um Processo Administrativo Disciplinar contra a delegada Ana Paula Lamego Balbino Nogueira, que pode resultar na demissão da servidora em Minas Gerais. A medida foi publicada no Diário Oficial na manhã do mesmo dia e aponta possíveis transgressões disciplinares previstas na Lei Estadual 5.406/69. A investigação administrativa busca apurar a conduta da delegada, que tem vínculo com o principal acusado do crime.

Dois dias após o crime, a delegada recebeu uma licença de afastamento “por questões de saúde”. No dia 9 de junho, foi publicado no Diário Oficial da União que a licença seria prorrogada por mais 60 dias, terminando nesse domingo (9). Leonardo Avelar Guimarães, advogado de Ana Paula, confirmou que a delegada permanece afastada, mas não disse por quanto tempo durará o novo prazo. Na próxima quarta-feira (13) completará um ano desde a primeira licença da servidora.

Em nota, Leonardo disse que ela não possuiu qualquer participação ou relação com os fatos investigados sobre a morte de Laudemir. Disse, também, que jamais houve empréstimo, cessão ou qualquer forma de autorização ou conivência da delegada quanto ao acesso de arma de fogo sob sua guarda.

“Muito embora tenha ocorrido seu indiciamento em inquérito policial relacionado à apuração do crime de homicídio, a Defesa ressalta que, além de precipitada e indevida a conclusão, a Dra. Ana Paula não foi sequer ouvida naquele procedimento, sendo que a sua inocência será demonstrada no devido processo, em que terá oportunidade de se defender adequadamente”, afirma o advogado.

Sobre o afastamento médico, ele disse que “não se trata de afastamento voluntário nem de expediente processual relacionado à sua defesa técnica; cada prorrogação decorreu de perícia realizada por médicos do Estado, que atestaram a permanência do quadro incapacitante”.

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