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Em respeito à memória do tenente N

Trago a vocês a história de um suicida, que no desespero final da vida, deixou uma carta e pediu que me enviassem 

Eduardo Costa|Do R7 e Eduardo Costa

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Todo jornalista tem uma obsessão: não se deixar enganar pelos personagens. Trago a vocês uma história que só tem uma versão, e o faço em respeito à memória de um suicida que, no desespero final da vida, deixou uma carta e pediu que me enviassem. Não tenho o outro lado porque minha colega Amanda Antunes, depois de combinar a entrevista, e insistir, foi informada de que a outra parte não quer falar. Em geral, quando a gente tem uma denúncia, procura o denunciado e este se recusa a responder, nos sentimos a vontade para publicar e mesmo acreditar que estamos dizendo a verdade.

A propósito de verdade, vale lembrar ela pode significar o que é real ou possivelmente real dentro de um sistema de valores. Traduzindo: nunca temos certeza de que estamos reportando a verdade. Em casos como o que trago a vocês, que envolvem pessoas menores de 18 anos, é prudente não deixar qualquer pista que possa identificá-las. Por isso, vou tratar o homem que se matou por desesperança apenas pela inicial N.


N fez carreira no Corpo de Bombeiros e chegou a tenente. Bem sucedido. Na vida pessoal, tudo bem até 2010, quando, aos 53 anos, saiu de um casamento de 27 anos, vítima de traição. Ainda sob os efeitos da decepção, encantou-se com L, 17 anos mais moça, abandonada pelo marido, vivendo em extrema pobreza com os filhos gêmeos, J e A.C., então com sete anos. L tinha outra filha, M., essa já com 20 anos e casada.

Fez tudo que podia para ter um lar feliz com L e os filhos, mas, apesar de cuidar de sogra, cunhada e outros parentes, as coisas foram deteriorando. A mais velha vivia idas e vindas com um companheiro usuário de drogas e pressionava sempre; para piorar, A.C., a princesinha, pela qual o tenente N se apaixonara perdidamente – como filha – e que levara para o Colégio Tiradentes, sonhando com grande futuro, chegou a adolescência, encontrou um rapaz complicado e começou relação que N não apoiava de jeito nenhum.


Resultado: embora sempre quisesse o melhor para a família que adotou, N acabou vítima de uma armação – pelo menos morreu com esse sentimento – denunciando a esposa L, a filha mais velha M, o jovem L e, pior, também A.C, sua princesinha, que o acusou do crime mais grave, especialmente quando praticado por um pai – estupro.

Foi demais para N. Ele decidiu se matar. Fez várias cartas, uma delas prestando contas aos colegas de futebol já que era o responsável pela caixinha da pelada. Em outra, que pediu fosse entregue a mim ou a Carlos Viana, contou todo o seu inferno e enforcou-se em uma árvore, no meio do mato, em Esmeraldas. O que sobrou de seu corpo foi encontrado um mês depois. Nós, da Itatiaia, estamos entregando a carta de N para a Polícia Civil, pedindo que rigorosa apuração dos fatos seja feita.

Só a polícia judiciaria poderá confirmar nossa suspeita de que N era um homem bom no mundo mau.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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