A longa trajetória da ideia de interiorizar a capital: promessas e disputas ao longo dos séculos
A ideia de transferir a capital do litoral para o interior mostrou como disputas de poder e suspeitas políticas atravessam épocas
Heródoto Barbeiro|Heródoto Barbeiro

Tirar a capital do litoral é um sonho tão velho como a independência do Brasil. Desde que se iniciou a colonização portuguesa, a capital administrativa foi dividida entre as cidades de Salvador e do Rio de Janeiro. Em meio aos defensores dessa mudança estava o Patriarca, José Bonifácio de Andrada e Silva.
Entre os argumentos mais fortes estavam a extensão do território nacional e a concentração da população no litoral. O interior era completamente despovoado e até corria o risco de ser ocupado por um vizinho sul-americano. A saída seria mudar a capital do Império do Brasil para o centro geodésico do país.
Com isso se esperava aproveitar a imensidão territorial, distribuir terras para imigrantes, como aconteceu nos Estados Unidos, e desenvolver a região. Não se sabe exatamente o local da nova capital, mas não devia estar muito longe de Brasília.
A ideia de transferir a capital chega ao estado de São Paulo. Mudancistas dizem que a proposta é de 1810, antes mesmo da tentativa do Patriarca. O populista da época que governava o estado abraça o projeto e parte para a aprovação na Assembleia Legislativa. Seu mote de campanha é chegar em 1980 com uma cidade nova para chamar de sua, ainda que isso custe um buraco gigantesco nos cofres de São Paulo.
“É autofinanciável”, diz o governador. “Vai gerar empregos, investimentos e desafogar a cidade de São Paulo.” Para isso, precisa de votos na Assembleia.
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Com o passar do tempo, a mudança da capital para o interior enfrenta forte oposição. O custo é alto e será bancado pelo contribuinte. Ninguém sabe exatamente onde será implantada, se em algum município já existente, ou se será necessária a fundação de um novo. Até a Constituição deixa clara a determinação da mudança para o interior.
A imprensa e a oposição política batem forte no chefe do Executivo. Uns o acusam de ser megalomaníaco. Outros suspeitam que ele e seu grupo político têm terras na região escolhida.
O fato é que a decisão cabe à Assembleia Legislativa de São Paulo. A bancada governista é forte, mas o número de votos para a aprovação do projeto é maior. É preciso convencer deputados da oposição a apoiarem a iniciativa do governador e, para isso, ele está disposto a negociar.
As suspeitas estão nas páginas dos jornais e noticiários; os debates em plenário da Assembleia, cada vez mais ruidosos. A oposição traz manifestantes para vaiar e pressionar os políticos.
Aos trancos e barrancos, o projeto vai à votação. Perde por um voto e o governador Maluf, entusiasta da mudança, é derrotado.
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