Aeronaves x colisão com pássaros: por que um impacto aparentemente pequeno pode esconder danos sérios?
Colisões de aviões com aves cresceram 32% no Brasil, registrando um caso a cada 5 horas

Para quem está viajando a bordo de uma aeronave, algumas colisões com aves podem passar completamente despercebidas. Afinal, na maioria dos casos, o voo prossegue normalmente e os únicos vestígios aparentes são pequenas marcas na fuselagem ou no para-brisa.
O que poucas pessoas imaginam é que um impacto aparentemente simples pode gerar danos internos capazes de comprometer a integridade de componentes estruturais do avião, um problema mais comum do que se imagina.
Nesta quarta-feira (30), por exemplo, um voo da LATAM que ia de Brasília para Salvador teve que retornar ao aeroporto de origem depois que um pássaro atingiu um dos motores do Airbus A321 da companhia.
Dados do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) mostram que o Brasil registrou 5.184 colisões entre aeronaves e aves entre 2022 e 2024 — média de uma ocorrência a cada cinco horas.
O cenário segue preocupante: somente no primeiro semestre de 2025 foram contabilizados mais de 1.100 casos, um crescimento de 32% em relação ao mesmo período do ano anterior. Cerca de 80% desses eventos ocorrem justamente durante a decolagem e a aproximação para pouso, fases mais críticas da operação aérea.
Embora, na maioria das vezes, esses eventos não provoquem consequências imediatas para a operação, eles exigem protocolos rigorosos de inspeção técnica. Isso porque a gravidade de um impacto não está necessariamente relacionada ao tamanho da ave ou ao aspecto visual do dano; a explicação está na física.
Mesmo um pássaro com poucos gramas pode atingir uma aeronave a centenas de quilômetros por hora, produzindo uma quantidade de energia suficiente para provocar deformações localizadas, delaminações em materiais compósitos, danos em bordos de ataque, para-brisas, radomes e até componentes dos motores.
Impactos dessa natureza ainda podem alterar a distribuição de tensões em determinados componentes, favorecendo o surgimento de microtrincas e acelerando processos de fadiga ao longo dos ciclos de operação da aeronave.
Segundo Glaysson Henrique da Rocha Cruz, engenheiro de Produção, especialista em manutenção aeronáutica e integridade estrutural de aeronaves, inspetor de Controle e Qualidade FAA A&P, certificado em Ensaios Não Destrutivos (NDT) Nível II e conformidade regulatória FAA/ANAC, o maior risco está justamente nos danos que não podem ser vistos a olho nu.
“O erro mais comum é avaliar a gravidade apenas pelo tamanho da ave ou pela marca deixada na aeronave. A severidade não depende apenas do tamanho da ave. A velocidade da aeronave, o ângulo do impacto, a massa do animal e a área atingida influenciam diretamente a energia transferida à estrutura. Em componentes metálicos, o impacto pode gerar deformações e pequenas trincas próximas a fixadores ou regiões de concentração de tensão. Em estruturas fabricadas em materiais compósitos, a superfície pode aparentar poucos danos, enquanto camadas internas apresentam delaminação ou perda de aderência. Um pequeno amassado pode esconder deformações internas, perda de resistência do material ou o início de uma trinca que só será identificada por meio de uma inspeção técnica especializada”, explica.
Toda colisão com aves deve ser avaliada conforme os procedimentos estabelecidos no Aircraft Maintenance Manual, Structural Repair Manual e NDT Manual aplicáveis à aeronave. Dependendo da área atingida, podem ser necessários ensaios por ultrassom, correntes parasitas, termografia, inspeção por tap test ou boroscopia.
Nos motores, por exemplo, devem ser verificadas as fan blades, o spinner, a entrada de ar, os painéis acústicos e os estágios internos quanto a deformações, trincas, perda de material e evidências de ingestão.
Glaysson também ressalta que devem ser inspecionados o radome, o radar meteorológico, o para-brisa, os bordos de ataque, as superfícies de comando e sensores externos, como tubos de Pitot e indicadores de ângulo de ataque.
“As colisões com aves raramente resultam em emergências graves, porque a aviação trabalha com elevados padrões de projeto, prevenção, manutenção e inspeção. O objetivo é impedir que um dano inicialmente pequeno evolua por fadiga, vibração, pressurização ou exposição ambiental. A manutenção aeronáutica não se limita a reparar aquilo que está visível; ela busca identificar precocemente qualquer alteração que possa comprometer a resistência estrutural, o desempenho do sistema ou a vida útil do componente”, afirma.
O especialista ainda explica que tecnologias como ultrassom, líquido penetrante, correntes parasitas e radiografia permitem avaliar a integridade interna dos componentes sem a necessidade de desmontá-los ou causar qualquer dano adicional.
“A inspeção visual é apenas a primeira etapa, pois ela identifica somente os danos evidentes, sem conseguir revelar alterações internas do material. Por isso, toda colisão com aves deve seguir os procedimentos previstos pelos fabricantes e pelas autoridades aeronáuticas, garantindo que a aeronave retorne à operação em condições totalmente seguras”, conclui Glaysson.
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