Brasil pode se tornar líder em Combustível Sustentável de Aviação se a ambição se transformar em execução
Artigo de Marc Farré Moutinho, Líder do Brasil no Industrial Transition Accelerator (ITA)

A partir de 2027, o Brasil começará a exigir que suas companhias aéreas voem de forma diferente. Sob a Lei do Combustível do Futuro (Lei 14.993/2024), o programa ProBioQAV exigirá que as transportadoras reduzam as emissões em voos domésticos usando Combustível Sustentável de Aviação (SAF), começando em 1% e subindo para 10% até 2037.
Com o decreto que regulamenta o mandato previsto até o final deste ano, produtores, companhias aéreas e investidores estão saindo do campo das intenções e entrando no negócio mais difícil da implementação.
Essa mudança é importante, porque o Brasil tem condições reais de ocupar um papel de destaque nesse mercado. O país tem recursos naturais e capacidade agrícola para se tornar um dos produtores de SAF mais significativos do mundo. A Associação Internacional de Transportes Aéreos (IATA) estima que o Brasil poderá produzir cerca de 12 milhões de toneladas de SAF já em 2030, aproximadamente cinco vezes a produção projetada para todo o mundo em 2026. Poucos países podem fazer tal afirmação.
O desafio, agora, é transformar essa vantagem em uma indústria capaz de crescer com escala e credibilidade. Para o bio-SAF baseado em culturas agrícolas, as rotas mais credíveis dependem de biomassa cultivada em terras degradadas, inadequadas para a produção de alimentos ou reflorestamento, levando a um combustível que não compete com a agricultura nem coloca um único hectare de floresta em risco. Para um produto onde a palavra “sustentável” faz literalmente parte da sigla, corresponder a essa qualificação é fundamental.
Por isso, a sustentabilidade, nesse caso, precisa estar presente não apenas no produto final, mas em toda a cadeia de produção. Mas a ambição é a parte fácil, e é aqui que a história geralmente se torna mais complexa.
Anunciar um projeto não é o mesmo que conseguir financiá-lo, construí-lo e colocá-lo em operação. Em todo o mundo, o Global Project Tracker da Mission Possible Partnership contabiliza 216 projetos de SAF em andamento. Desses, 170 estão anunciados e, no entanto, apenas 24 atingiram a decisão final de investimento (FID) e apenas 22 estão em operação.
Essa diferença mostra o tamanho do desafio, já que existe uma distância relevante entre anunciar um projeto e conseguir tirá-lo do papel. Fechar essa lacuna não é uma questão de entusiasmo. É uma questão de disciplina: contratos de compra (offtake) garantidos, tecnologia comprovada, financiamento credível e uma cadeia de suprimentos estruturada, além de viabilidade econômica capaz de passar pela análise dos investidores. Sem esses elementos, mesmo projetos com grande potencial pode não avançar.
O Brasil já começa a mostrar que esse caminho é possível. Na primeira metade de 2026, a empresa de energia Acelen Renováveis atingiu a FID em uma biorefinaria de US$ 1,5 bilhão em São Francisco do Conde, Bahia. Usando a tecnologia HEFA, a fábrica foi projetada para produzir um bilhão de litros de SAF e diesel renovável (HVO) por ano, com operações comerciais previstas para o início de 2029 e cerca de 90% dessa produção já garantida sob acordos de compra direcionados aos Estados Unidos e à Europa. De acordo com um estudo da FGV, a cadeia de suprimentos integrada do projeto pode injetar até US$ 40 bilhões na economia brasileira e gerar cerca de 85.000 empregos ao longo da próxima década.
O caso da Acelen Renováveis ajuda a ilustrar um ponto relevante: projetos de SAF precisam combinar escala, tecnologia, demanda e acesso a capital para avançar. O projeto avançou porque todos os fundamentos importantes para sua estruturação, como compra garantida, tecnologia definida e viabilidade econômica capaz de suportar o escrutínio dos investidores. É assim que se parece um projeto bancável, e é um modelo que o Brasil pode e deve repetir.
Esse é um aprendizado que pode ser aplicado a outros projetos no Brasil. O mandato que chega em 2027 fará algo que o mercado não conseguiu sozinho - ele firmará e fará crescer a demanda por SAF dentro do Brasil. Esse é um sinal poderoso e pode ajudar a impulsionar o país para a frente. A indústria de SAF não é medida pelo número de projetos anunciados, mas sim pelo número de projetos financiados, construídos e operando com matéria-prima de alta integridade.
O que o Brasil fizer nos próximos dois anos, com projetos bem estruturados, atenção à bancabilidade e compromisso com a integridade ambiental, decidirá se sua ambição de SAF se tornará uma indústria genuína ou um capítulo sobre uma promessa não aproveitada. O potencial existe. Agora, é hora de transformar esse potencial em execução.
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