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Luiz Fara Monteiro

Falta de profissionais qualificados pode se tornar gargalo para manutenção de aeronaves

Boeing estima necessidade de 728 mil novos técnicos no mundo até 2045. Especialista alerta que formação precisa acompanhar expansão do setor aéreo

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Fabricante projeta a necessidade de 42 mil novos profissionais na América Latina Imagem gerada por IA/Gemini

A expansão da aviação mundial está colocando um novo desafio no radar do setor: formar profissionais qualificados em velocidade suficiente para acompanhar o crescimento das operações e substituir uma geração de técnicos que deixa o mercado.

A dimensão do problema aparece no mais recente Pilot and Technician Outlook, da Boeing. A fabricante estima que a aviação comercial precisará de 728 mil novos técnicos de manutenção entre 2026 e 2045. Somente na América Latina, a demanda projetada é de 42 mil profissionais. Dois terços da necessidade global de novos trabalhadores da aviação estarão relacionados à reposição de profissionais que deixam o setor, enquanto um terço decorrerá da expansão da frota.


Para Glaysson Henrique da Rocha Cruz, engenheiro de Produção e especialista em manutenção aeronáutica e integridade estrutural de aeronaves, o desafio não está apenas em aumentar o número de profissionais, mas em garantir formação e experiência compatíveis com o nível de responsabilidade exigido pela atividade. “A manutenção aeronáutica exige conhecimento técnico, treinamento, experiência prática e cumprimento rigoroso de procedimentos. Não é uma mão de obra que pode ser formada de maneira imediata. Se a demanda cresce mais rapidamente do que a capacidade de qualificação, cria-se um gargalo para toda a cadeia”, explica.

Menos profissionais, mais pressão sobre a manutenção


Quando uma aeronave permanece impossibilitada de voar por necessidade de manutenção, ocorre o chamado AOG (Aircraft on Ground). Quanto maior a dificuldade para encontrar profissionais habilitados em determinadas especialidades, maior pode ser a pressão sobre oficinas e companhias aéreas.

Outro desafio está na substituição dos profissionais mais experientes. A própria Boeing aponta a aposentadoria e a saída natural de trabalhadores como fatores relevantes para a demanda futura e destaca a importância da transferência de conhecimento para profissionais mais jovens.


Segundo Glaysson, esse ponto ganha ainda mais importância na manutenção de aeronaves que acumulam anos e ciclos de operação e podem demandar inspeções estruturais mais específicas. Entre elas estão os Ensaios Não Destrutivos (END/NDT), técnicas utilizadas para identificar descontinuidades e possíveis danos, como trincas, corrosão e sinais de fadiga, sem comprometer a integridade da peça inspecionada. “Quando um profissional com décadas de experiência deixa o setor sem que esse conhecimento seja adequadamente transferido, não se perde apenas mão de obra. Perde-se uma experiência prática construída ao longo de milhares de inspeções”, destaca.

Para o especialista, que também atua como Designated Station Trainer (DST), treinando, orientando e qualificando novos inspetores de manutenção, a formação contínua é uma das principais respostas para evitar que a escassez se transforme em um problema estrutural.


Interesse existe, mas formação precisa ganhar escala

No Brasil, uma iniciativa recente ajuda a dimensionar a procura pela profissão. Um programa do Ministério de Portos e Aeroportos em parceria com o Senat recebeu quase 2 mil inscrições para 74 bolsas integrais destinadas à formação de Mecânicos de Manutenção Aeronáutica. O curso possui 1.440 horas e duração aproximada de 18 meses.

Para Glaysson, os números evidenciam não apenas uma oportunidade profissional, mas um desafio estratégico para a capacidade de manutenção do setor aeronáutico. Existe interesse pela carreira, porém o crescimento da frota e a incorporação de aeronaves com sistemas, materiais e métodos de inspeção cada vez mais avançados exigirão uma força de trabalho tecnicamente qualificada, certificada e continuamente atualizada.

“A expansão da aviação não pode ser analisada apenas pela quantidade de novas aeronaves ou pelo avanço tecnológico das frotas. Cada aumento de capacidade operacional precisa ser acompanhado por uma estrutura de manutenção capaz de sustentá-lo. Isso significa dispor de profissionais qualificados para executar inspeções, interpretar dados técnicos, identificar descontinuidades e mecanismos de degradação, avaliar danos dentro dos limites estabelecidos pelos fabricantes e assegurar a aeronavegabilidade das aeronaves. Sem investimento consistente em formação, qualificação e retenção dessa mão de obra especializada, a disponibilidade de profissionais pode se tornar um fator limitante para o próprio crescimento da indústria. Portanto, desenvolver capital técnico não é apenas uma questão de recursos humanos; é uma necessidade diretamente relacionada à capacidade de manutenção, à confiabilidade da frota e à segurança operacional”, conclui Glaysson Henrique da Rocha Cruz.

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