Investigação aponta que pilotos ignoraram alarmes e pousaram fora dos padrões em acidente com Boeing 767
Um deles expressou preocupação com a velocidade excessiva da aeronave antes do pouso

Informações reveladas pelo gravador de voz da cabine e divulgadas nesta quarta-feira (9) pelo Conselho Nacional de Segurança dos Transportes dos Estados Unidos, NTSB, apontam para procedimentos de pouso diferentes do padrão utilizado para uma aproximação. Um dos pilotos do Boeing 767 da Amazon Air — que ultrapassou o limite da pista no Aeroporto Internacional de Miami no domingo — chegou a expressar preocupação com a velocidade excessiva da aeronave ao mesmo tempo em que alarmes soavam a bordo, antes ainda do pouso.
O NTSB divulgou o relato do que foi ouvido na cabine do jato de carga da Amazon em uma atualização da investigação, ressaltando que as informações eram preliminares e estavam sujeitas a alterações.
O resumo detalhou que vários avisos automatizados do Sistema de Aviso de Proximidade com o Solo (GPWS) foram ouvidos na cabine durante a descida da aeronave. Em duas ocasiões, a voz computadorizada do GPWS emitiu o alerta de “sink rate”, relativo à taxa de descida do 767, avisando aos pilotos que o avião estava descendo rápido demais. Em um outro alarme, o sistema repetiu por cinco vezes o aviso de “too low terrain”, o que pode indicar que a aeronave estava voando baixo e rápido demais.
Os dados coletados pelo NTSB indicam também que os pilotos pousaram com a aeronave com flaps entre 15 e 20 graus, o que pode configurar uma posição abaixo do protocolo. Os flaps são superfícies móveis localizadas na parte traseira (bordo de fuga) das asas de uma aeronave e servem para aumentar a sustentação e o arrasto em velocidades mais baixas. Quando acionados para baixo, os flaps alteram a curvatura e, em alguns tipos, aumentam a área total da asa. São os flaps que dão mais sustentação: O perfil modificado gera mais força para manter o avião no ar mesmo voando devagar.
No acidente de domingo em Miami, 1 minuto e 42 segundos antes do momento em que o Boeing 767-300F saiu da pista, um dos pilotos pediu a posição de flaps 20. Foi nesse instante em que o outro piloto advertiu sobre a velocidade do avião, indicando que estavam muito rápidos para acionar o flap nesta posição. Os dados revelam ainda que dispositivos como ground spoilers superfícies móveis localizadas na parte superior das asas de uma aeronave que se elevam totalmente logo após o toque no solo durante o pouso - não subiram e os reversores, que auxiliam na frenagem, não foram acionados.
O NTSB confirmou que o trem de pouso principal do lado esquerdo não tocou a pista por durante 11 segundos, ao contrário do trem direito e do trem de nariz, o que pode ter contribuído para a desestabilização. Nesse instante a aeronave não reconheceu que estava no solo, contribuindo para que o auto break não fosse ativado automaticamente. O auto break é um sistema de frenagem automática que controla a desaceleração da aeronave após o pouso ou durante uma decolagem abortada.
Sem indicação que o o Boeing 767 iria frear, os pilotos tomaram outra decisão: liberaram os freios e deram potência aos motores, avançando as manetes, em uma tentativa de arremetida. Quatro segundos depois os pilotos recuaram as manetes e voltaram a aplicar freios, sem sucesso.
Depois de sofrer a excursão de pista, o Boeing operado pela 21 Air em nome da Amazon Air atingiu dois carros que estavam em um estacionamento adjacente ao aeroporto. Cinco pessoas que estavam nos veículos morreram e outras cinco se feriram.
A divulgação dos trechos selecionados capturados nas gravações de voz da cabine ocorreu no mesmo dia em que o NTSB esperava entrevistar os dois pilotos, disse a presidente do Conselho, Jennifer Homendy. Até o momento, no entanto, o órgão não compartilhou nenhuma informação das entrevistas com os pilotos.
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