O que ninguém vê por trás da alta das passagens aéreas internacionais
Escalada nos preços é resultado de combinação entre fatores geopolíticos e mudanças na tributação brasileira
Luiz Fara Monteiro|Fabrizio Gammino, especial para o blog Aviação*
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Com o dólar voltando a se estabilizar abaixo da marca de R$ 5, a expectativa natural de muitos brasileiros era de que as viagens internacionais se tornassem mais acessíveis. No entanto, o cenário que se desenha para os próximos meses e anos aponta para uma direção oposta.
A escalada nos preços das passagens aéreas para o exterior não é um fenômeno isolado, mas o resultado de uma combinação complexa entre fatores geopolíticos e mudanças estruturais na tributação brasileira.
Para entender essa dinâmica, é preciso olhar além da cotação da moeda americana.
O primeiro e mais imediato fator de pressão vem do mercado internacional de combustíveis. O querosene de aviação (QAV) representa, historicamente, a maior fatia dos custos operacionais das companhias aéreas, variando entre 30% e 45% do total.
Com a recente escalada das tensões no Oriente Médio, o preço do barril de petróleo disparou. A Petrobras, acompanhando a paridade internacional, já repassou neste mês um aumento superior a 50% no preço do QAV.
Como destacou John Rodgerson, CEO da Azul, durante o Fórum PANROTAS 2026, o Brasil já possui o querosene de aviação mais caro do mundo, tornando o setor extremamente vulnerável a qualquer instabilidade global.
Mas a geopolítica explica apenas parte do problema. A outra metade da equação está sendo definida no Congresso Nacional e no Ministério da Fazenda, com a implementação da Reforma Tributária.
Atualmente, as passagens aéreas internacionais são desoneradas de tributos, tratadas na prática como uma exportação de serviços. Isso garante que o passageiro não pague impostos federais sobre o bilhete. Contudo, essa regra está com os dias contados.
Em nota oficial divulgada nesta semana, o Ministério da Fazenda esclareceu o cronograma e os impactos da reforma no setor aéreo. Após um período de testes ao longo de 2026, a parte federal da Reforma Tributária entrará em vigor em 1º de janeiro de 2027.
Nesse momento, a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) substituirá o PIS/Cofins, colocando fim à alíquota zero para voos internacionais. A cobrança será escalonada, partindo de 8,5% até atingir o patamar de 28% ao final da transição.
O cenário se torna ainda mais desafiador a partir de 2029, quando o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de competência estadual e municipal, entrará em vigor para substituir o ICMS e o ISS.
A união da CBS com o IBS formará o novo Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) dual. Diferente do modelo atual, o IVA será acrescido diretamente ao preço final da passagem.
O Ministério da Fazenda ressalta que a reforma também prevê desonerações, como a isenção de tributos sobre o abastecimento dos voos internacionais e sobre o serviço de catering (alimentação a bordo). Além disso, as empresas aéreas terão direito a crédito integral do IBS e CBS pagos em suas compras.
Apesar dessas compensações, a margem das companhias aéreas é muito estreita para absorver o impacto total. É importante notar que o impacto da reforma será assimétrico. Enquanto os voos internacionais enfrentarão a alíquota cheia, a aviação regional e doméstica foi incluída em um regime específico que prevê uma redução de 40% nas alíquotas de IBS e CBS.
Com isso, a carga tributária para voos internos deve permanecer próxima aos atuais 12% a 18%, amortecendo o impacto no mercado doméstico.
O que os dados mostram é que o encarecimento das viagens internacionais não é apenas uma flutuação momentânea, mas uma mudança estrutural. Para as companhias aéreas, o desafio será inovar na operação e na entrega de valor para justificar tarifas mais altas. Para o passageiro, o planejamento financeiro antecipado deixará de ser apenas uma recomendação para se tornar uma necessidade absoluta.
A conta do querosene mais caro e do novo modelo tributário chegará ao balcão de check-in. Resta saber como o mercado e os consumidores irão se adaptar a essa nova realidade de custos.
*Fabrizio Gammino é co-CEO da Grownt
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