Tragédias: Trânsito, Brumadinho, Rio de Janeiro, CT do Flamengo
Justificar tragédias como vontade divina tira da gente a responsabilidade por nossas escolhas (Umberto Eco)
Moto Segurança e Trânsito|André Garcia, do R7

2019 mal começou e sucessivas tragédias dizimaram centenas de famílias, sonhos…
O mais triste é o tratamento dado a cada catástrofe como mera fatalidade.
Discordo.
Fatalidade, segundo o dicionário Aurélio: “Força que predispõe os acontecimentos.,Destino inevitável.,Qualidade de fatal.,Grande desgraça (que influi em sucessos futuros)”
Um raio na cabeça de uma pessoa é fatalidade. Um tsunami como de Filipinas é fatalidade.
Vou além, não consigo denominar todos esses acontecimentos como acidente, já que se no dicionário o significado é “acontecimento casual ou inesperado; acaso”, nas palestras que ministro não canso de mencionar que só podemos considerar acidente “quando se fez tudo que era necessário para não obter o resultado”.
O que temos visto, devemos tratar como incidente que no dicionário trata como: “2.
que sobrevém a outra coisa; superveniente; acessório”
Não fica difícil concluir que se incidente sobrevém a outra coisa, essa coisa é a negligência (deixar de fazer algo que sabidamente deveria ter feito), imprudência(ação que foi feita de forma precipitada e sem cautela) ou a imperícia(não saber praticar o ato).
Portanto prezado leitor(a), Brumadinho, mortes devido chuva torrencial no Rio, CT do Flamengo e mais os milhares de acidentes de trânsito diariamente não é acaso, não é vontade divina, não é fatalidade.
Em Brumadinho a ganância financeira da Vale matou pessoas e a natureza.
No Rio de Janeiro, mesmo diante dos avisos de fortes chuvas, não se fez o óbvio que consistia, inclusive, em fechar a avenida Niemeyer e evitar duas mortes. É público e notório os deslizamentos que invadem aquela via.

No CT do Flamengo, tudo errado, mesmo depois de 31 multas e clara omissão das autoridades locais e ganância do Clube, dez jovens mortos e o povo sai gritando “Força Flamengo”. O Clube de Regatas Flamengo é algoz e não vítima.
Fiquei imaginando cidadãos saindo pelas ruas de Brumadinho ou Mariana gritando: “Força Vale!!!”. Patético!
Já perdi muitos amigos, amigos dos amigos, colegas que partiram por incidente, sim, incidente, evento não planejado cujo risco foi assumido, mas, não acidente, repito, que gosto de definir: como ação onde os envolvidos fizeram tudo que era necessário para não haver o resultado.
Trazendo a discussão para o trânsito, pergunto:
1) o cara andando a 80km/h no corredor entre carros parados ou quase parados com uma moto é acidente?
2) o cara bebe e sai dirigindo, mata alguém, é acidente?
3) o piloto em autódromo bate em guard-rail a 300km/h onde deveria ter uma barreira inflável de proteção, é mero acidente?
4) Motorista usando celular enquanto dirige, mata um motociclista ou ciclista ou pedestre, foi acidente?
5) Pedestre com fones de ouvido, usando celular, atravessa a rua sem olhar, foi acidente?
6) Motorista que corta caminho por dentro de posto de gasolina e mata um pedestre, foi acidente?
Não! O termo acidente foi vulgarizado. Em todos os casos o tratamento deve ser como incidente porque alguém assumiu o risco, poderia ser evitado ou, ainda, o resultado morte não existir.
Poderíamos aqui conjecturar várias outras situações que beira o ridículo, mas mata.

Do ponto de vista filosófico, científico ou religioso, fica a seu critério, a questão é: podia ser evitado?
O Homem é, na maior parte dos casos, o autor de seus próprios infortúnios, mas, ao invés de reconhecer isso, acha mais conveniente e menos humilhante para sua vaidade acusar a sorte, acusar a Deus.
Nas palestras que realizo em empresas, dado o alto índice de acidentes de trabalho “in itinere” ou de deslocamento (casa-trabalho-casa), começo com esse pensamento de André Luiz: “(...)Deus nos habilita para a eficiência com máquinas diversas, por meio da própria inteligência humana. Compete a nós a programação e a condução delas. Em suma, toda criação e doação das vantagens de que dispomos procedem de Deus. Entretanto, é justo reconhecer que todos os êxitos e problemas da utilização pertencem a nós.”.
Se Deus criou tudo de bom que existe no Universo, inclusive o Homem com inteligência o suficiente para ter o livre-arbítrio, por que acusá-lo de uma decisão sua, minha, nossa?
Ahhhh!!! Mas ele não é Deus?? Como pode deixar essas coisas más acontecerem??
Amigo(a) o mal foi criado pelo Homem, é seu livre-arbítrio que determina o rumo da vida. Deus só lhe deu a vida e assim como um pai ou uma mãe não pode mimar seu filho(a) sob pena de comprometer seu amadurecimento, Deus não pode e não deve intervir em uma ação irresponsável de seu filho(a), sob pena de comprometer sua evolução. Não somos o centro do Universo como muitos pensam e defendem.
Devemos aplicar a mesma teoria em tragédia aérea: o que podemos fazer no trânsito e qual o legado dessas tragédias para não se repetir?
Pior quando pensamos que a tragédia de Mariana não conseguiu evitar Brumadinho. Será que Brumadinho evitará outras tragédias?
É o famoso “e se?”.
Não concordo em hipótese alguma com a tese “era hora dele(a)”. Esse papo é, tão somente, conveniente. Quem somos para determinar isso? A morte não seu deu por uma doença qualquer. Não tinha um câncer, por exemplo, e aí sim, até poderíamos confabular tais questões cármicas ou não.
O ser humano está perdendo a sensibilidade com a tese “era hora dele(a)”. Está matando e morrendo com coisa tola, pela mais simples descaso onde se esconde a ansiedade, a vaidade de aparências, a ambição doentia, a avareza e múltiplas carências, procurando encher esse vazio bebendo, correndo, usando celular quando não se deve usar, fazendo o que não deveria fazer na hora e local inadequado, confabulando para ganhar($) mais e mais, mesmo que ceifando vidas.

No mundo 1,5 milhão de pessoas morrem por ano por incidente (me nego usar o termo acidente) de trânsito, no Brasil já são mais de 40 mil em dados oficiais, em dados não oficiais fala-se em 60 mil pessoas.
O Homem sofre de uma prepotência (sentimento falso de alto poder) imensurável que o leva a cometer atos impensados. Ele acha que com ele nunca vai acontecer.
A Vale, a Prefeitura do Rio e os dirigentes do Flamengo, apostaram e apostam sua ganância material em face de vidas. Não vejo diferença, dado suas proporções, com o cidadão no trânsito que na pressa, na ânsia, talvez de ganhar algo a mais, mata ou morre.
A postura ética do Homem de bem perante as leis civis deve ser pela integridade física e moral de todas as pessoas e da natureza. Todas legislações, não existem por acaso, devem seu cumprimento. Quando lemos na Constituição Federal no caput do artigo 5º que todos são iguais perante a lei e que são invioláveis o direito à vida, à liberdade, à segurança e a propriedade (g.n.) significa que todos sem exceção, pessoas físicas ou jurídicas, devem se empenhar as tais garantias uma das outras e o Estado deveria garantir isso fiscalizando.
Por fim para fechar tal reflexão, mas lembrando que estudar e não aplicar é como um copo vazio, transcrevo trecho do livro “Muitas Vidas, Muitos Mestres” de Brian Weiss:
“(...) A sabedoria é conseguida muito lentamente. A razão é que o conhecimento intelectual, facilmente adquirido, deve ser transformado em conhecimento "emocional" ou subconsciente. Uma vez transformado, torna-se permanente. A prática comportamental é o catalisador necessário para esta reação. Sem ação o conceito irá definhar para em seguida desaparecer.
O conhecimento teórico sem uma aplicação prática não é suficiente.
Negligenciam-se o equilíbrio e a harmonia atualmente, mas eles são a base da sabedoria.
Tudo é feito em excesso. As pessoas têm peso a mais porque comem excessivamente. Os corredores negligenciam aspectos de si mesmos e dos outros porque correm exageradamente. As pessoas parecem excessivamente mesquinhas. Bebem demais, fumam demais, se divertem demais (ou muito pouco), falam muito sem nexo, preocupam-se exageradamente. Pensam muito em termos de preto ou branco. Tudo ou nada. Não é isto que encontramos na natureza. Na natureza existe o equilíbrio. (...) A humanidade não sabe o que é equilíbrio, muito menos como praticá-lo. É guiada pela ganância e ambição, movida pelo medo. (...)
A felicidade se baseia na simplicidade. A tendência para o excesso em pensamento e ação a diminui. O excesso obscurece os valores básicos.
As pessoas religiosas nos dizem que felicidade está em encher o próprio coração de amor, em ter fé e esperança, em praticar caridade e ser generoso. Estão corretas. Essas atitudes levarão ao equilíbrio e harmonia, constituindo-se num modo de ser. (...).
A humanidade é imortal, e aquilo que fazemos presentemente é aprender as nossas lições. Andamos todos na escola. É absolutamente simples desde que se acredite na imortalidade.
Se parte da humanidade é eterna e há muitas evidências e fatos históricos para que se pense assim, então por que nos causamos tanto mal?Por que é que pisamos constantemente os outros para nosso "ganho" pessoal, quando na realidade estamos a esquecer a nossa lição? Tudo indica que o nosso destino final seja o mesmo, embora os percursos se realizem a diferentes velocidades. Ninguém é maior do que o próximo. (...) “
Trate como gostaria de ser tratado nas mínimas questões.

