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Colégios Bialik e Renascença tinham uma rivalidade especial

Como representante do Bialik, era eu quem conversava com o Moishe amistosamente; a gente resolvia tudo, até par ou ímpar e lado do campo

Nosso Mundo|Eugenio Goussinsky, do R7

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Aos sábados, sócios se reuniam para jogar futebol
Aos sábados, sócios se reuniam para jogar futebol

Minha amizade com o Moishe, na infância e adolescência, bem poderia ter me feito diplomata. Foram anos e anos de ligações, conversas no clube, até troca de recados na portaria da escola.

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Na maioria das vezes, o intuito era marcar algum jogo no Marítimo, complexo de campos de terra, rodeado por alguns bosques e botecos, na Cidade Jardim, para onde íamos de ônibus, depois das aulas.

Lá, alunos do Bialik e do Renascença costumavam se enfrentar para colocar suas rivalidades futebolísticas em dia.


Nunca houve vencedor permanente. Como em um clássico, às vezes um ganhava, às vezes outro.

Os jogos tinham, entre tantos participantes, arrancadas do Joel pela direita. Jogadas surpreendentes, como o gol de virada do Marcos. O oportunismo do Deiyvid na área. Os passes espertos do Alan. A bomba do Leco. A determinação do Fábio S.. A movimentação do Paulinho. Os mergulhos do Flávio e do Vico na lama.


Certa vez, eu, que diziam ser habilidoso, driblei o goleiro e, em momento decisivo, toquei de leve para o gol vazio.

A bola foi rolando e voltou, caprichosa, por causa do morrinho do campão de terra, sem tocar nas redes (que redes?). Eu ainda reclamei que o jogo prosseguiu, falei que foi gol, que a bola tinha passado a linha. Logo retrucaram: Que linha?


Como representante do Bialik, era eu quem acertava com o Moishe, amistosamente, anestesiando um pouco o clima de antagonismo entre bialikanos e renascentistas, típico da adolescência. A gente resolvia tudo, até par ou impar e lado do campo.

Mas, apesar do diálogo fácil com meu amigo, não dava para ficar de bate-papo. Cada um representava o "seu lado" durante todas aquelas negociações.

Sábados no clube

Só podíamos falar mais tranquilamente nos finais de semana, naqueles sábados em que, pela manhã, um grupo de sócios se reunia para jogar futebol de salão, e posteriormente society, até por volta das 13h.

Jogavam os vários David; o Felipe e o seu Jaime Knop; o Aírton "Gaúcho" Gontow; os vários Ilans; o Rafa; o Roni; o Rato; o César; o Isaac; os Schop; o Roger, o Ely, os irmãos Lask, o seu Edgar (são-paulino roxo, que mais assistia) e filhos e tantos outros.

Entre eles, garotos do Bialik, do Renasença, mantendo a rivalidade, mas, naquelas manhãs, dentro de um grau de convivência maior do que durante as tardes no meio da semana, quando ficávamos no clube, muitas vezes só para a "zoação", ou para ter aulas de vôlei com os professores Rubens e Sérgio.

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Um dia, já no início da minha fase adulta, até escrevi uma crônica criticando as reclamações que, de vez em quando, ocorriam naqueles jogos de fim de semana, da qual me arrependo. Estava cético demais.

No fim, o protagonista da crônica abandona tudo no meio do jogo, porque ficavam reclamando com ele. 

As reclamações, na verdade, faziam parte, eram uma maneira de se relacionar. Eram um tempero, até necessário, um extravasar em pessoas que, de certa maneira, eram próximas. Afinal, a impressão era de que aqueles finais de semana seriam eternos.

O pai do Moishe

Quem contemporizava era o sr. Hélio, o pai do Moishe. Era ele um dos que tentavam sempre apartar as brigas - raras, é verdade, em relação à boa convivência.

Com poucos cabelos, olhos claros e voz tranquila, ele não era muito de mostrar afeto nos gestos ou palavras. Mas sim nas atitudes.

Dava para ver o vínculo dele com os filhos - havia o Henrique (Quinho) e o Max também. Nos jogos, ele costumava atuar lá atrás.

Na quadra, o sr. Hélio se posicionava e ficava pedindo bola com estilo de falar judaico, influenciado por ancestrais europeus, que deve ter marcado sua infância: "Oi, oi, oi", repetia, quando estava livre.

E o passar dos anos fez dos rivais daqueles tempos, já mais gordos, de cabelos brancos ou ralos, também transformarem as rusgas em amizade.

Hoje se cumprimentam, conversam, riem juntos, como se o tempo fosse um roteirista, que, por trás da cortina da vida, revelou um enredo diferente do que se pensava, dando à hostilidade sua real feição fraterna. 

Pelo Facebook

Em amizade um tanto silenciosa, nas conversas com o Moishe, pouco falávamos sobre situações particulares. Mais sobre futebol. Principalmente sobre o Corinthians.

Com novos afazeres, fui encontrando ele cada vez menos. As conversas começaram a ficar mais espaçadas, de ano em ano, de dois em dois anos...

Também nunca mais havia visto o sr. Hélio, com sua mochila de couro, com alça, que levava quando passava o dia no clube, sempre encerrando com um bom banho no vestiário do ginásio, ao lado da quadra society.

Soube, apenas pelo Facebook, quando o Moishe publicou uma foto saudosa do pai na piscina, com os netos.

Nos poucos encontros, o filho nunca havia me comentado. E eu temia perguntar a ele: "Como vai o seu pai?"

Imaginava a resposta, dentro do hiato da ausência do sr. Hélio no clube. Mas, assim que vi a mensagem, a certeza chegou da maneira que nos acostumamos: no silêncio.

Restou-me, apenas, o recurso de curtir o post. E curti, no sentido facebookiano. Mas senti que aquela curtida não foi uma curtida comum. Era especial.

Era por aqueles jogos, pelas conversas, por todos que conhecemos em comum. Pelos campos de terra do Marítimo, sob o perfume das árvores e do entardecer.

Pelas manhãs na Hebraica. Pelas brigas que não davam em nada. Pelo futebol. Pelo sr. Hélio. Pela conciliação. Pela diplomacia.

Por tudo que ficou lá atrás e que, de alguma maneira, permanece em nós. Naquela curtida silenciosa, enfim, brindei uma era.

Os textos aqui publicados não refletem necessariamente a opinião do Grupo Record.

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