Quem mexeu no meu miojo?
Prisma|Carmen Farão

Antes do fatal julgamento, facilíssimo nesses tempos de códigos meio abertos e democráticos onde anônimos ou quase ocultos sentem-se à vontade para tacar-lhe pau no que ou quem quiser, decidi aller au combat.
Qual é o problema com o miojo ? Particularmente, não morro de amores. Na verdade, gosto o mesmo tanto que aquele sanduíche com o pepino no meio. É prático e serve para ocasiões específicas, e só.
De madrugada vai muito bem, com um pouco de requeijão e parmesão ralado, fica uma coisa. Também com um ovinho frito com as bordas crocantes e a gema mole com uma leve pitada de sal. Se tiver roquefort na geladeira, ou brie, até macarrão instantâneo tem seus dias de glória.
Por quê rejeitar essa prática ferramenta gastronômica moderna e passar horas fazendo massa caseira, cortando, cozinhando? Explico que não há comparação. Nenhuma possibilidade de comparação. São duas situações diferentes. Uma é ritual, reunião da tribo em volta do caldeirão de água fervente, recebendo tiras e mais tiras das mãos enfarinhadas daquelas que começaram nos primeiros raios da manhã à bater a massa. Delicioso. Maravilhoso. Único. Momentos de troca que nos fazem sentir o que deixamos de ser há tempos: unidos em prol de uma atividade comum e para o bem de todos. A mesma coisa é fazer cerveja artesanal, um barato.
Portanto, o que trago aqui não é se é bom, fino, chique, caro ou barato. Mas a sua existência e a importância da mediocridade de um macarrão que fica pronto em 3 minutos. O instantâneo contra o super-homem que tudo sabe fazer e despreza o que lhe aprouver desprezar. Hoje é o miojo. Amanhã, o brie que não vem da França. Ou a garota que fez a sua escolha. Não, não. Tudo é obra de seja lá quem for. Para que possamos escolher. A pior situação do mundo é não ter escolha.
Qual-é-o- problema-com-o-Miojo?
Como em Eclesiastes, tudo tem seu tempo. E comparar uma massa artesanal com o macarrão instantâneo é covardia.
A competitividade absurda do "eu sou necessário", ou "eu sou imprescindível", só não é mais ridícula porque é nefasta. Achou pesado? Nefasta, sim. Porque manipuladores vibram para que onde não estiverem envolvidos, dê tudo; errado, para que o competidor nato entre com a solução e um sorriso rasgado, como se realmente fosse imprescindível. Que bom que está lá para fazer as coisas, mas se não estivesse, que bom também.
Pra tudo tem jeito. Desnecessária essa energia nebulosa.
Va via! Diria meu nono. Va via, mau-agouro. Como no filme "Liberdade para as Borboletas", a mãe do lindo (suspiros!) que é cego de nascença e resolve morar sozinho. Superprotetora, lança uma coleção de livros para crianças onde sempre deixa a lição de moral: O pior cego é aquele que não quer ver. O pior surdo é aquele que não quer ouvir, o pior mudo é aquele que não quer falar, o pior aleijado é aquele que não quer andar. E ele, crescido, maduro, passa a ajudar quem pensa que o está ajudando, aceitando as leituras semanais como lição de vida e encorajamento. O que seria dessa mãe se não pudesse ajudar?
O que seria de nós ao chegar de madrugada famintos, sem ter feito compras, geladeira vazia e não encontrar um pacote de mijo perdido no fundo do armário?
Particularmente, prefiro a massa artesanal, meus amigos, conhecidos ou envolvidos na ação um milhão de vezes. Mas deixa o instantâneo em paz. Não é preciso destruir para prevalecer.















