"Perdemos o direito de ir e vir e não sabemos o que vem pela frente"
Intervenção no Rio gera insegurança entre os moradores do Complexo da Maré, que ficam no meio do confronto entre militares e traficantes
Rio de Janeiro|Karla Dunder, do R7

Os moradores do Complexo da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, estão com medo de uma nova ação das Forças Armadas em uma das 16 comunidades que compõem a região.
A insegurança surgiu após o anúncio e aprovação no Congresso da intervenção federal no Estado, em 17 de fevereiro.
"Nós estamos com muito medo, não sabemos o que vem por aí. A gente sofreu muito, as pessoas não foram respeitadas. Aqui tem traficante? Tem, mas a maioria que vive aqui são moradores e trabalhadores como eu", diz a auxiliar de cozinha, J.S*.
"Nós perdemos o direito de ir e vir, a repressão caiu sobre a comunidade e a violência só aumentou de 2014 para cá, quando as Forças Armas vieram para a Maré", completa.
As Forças Armadas ocuparam o Complexo da Maré entre abril de 2014 e junho de 2015. Segundo a assistente social Lidiane Malanquini, responsável pela área de Segurança Pública da ONG Redes da Maré, com a ação dos militares a população não se sentiu mais segura, pelo contrário. "Com tanques nas ruas e soldados armados, aumentou o risco de confrontos a qualquer momento e isso gera muita tensão entre os moradores." O argumento para a ocupação foi a pacificação para a implantação de uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), o que não ocorreu.
A moradora avalia que a situação da comunidade ficou muito pior. "Eles (Exército) não estão preparados para lidar com os moradores. Muitas pessoas foram baleadas e até mutiladas, tenho um amigo que perdeu uma perna. E agora estamos muito preocupados porque não sabemos o que vem." O rapaz que ficou paraplégico é Vitor Santiago Borges, baleado por um soldado. Borges recebeu tiros no tórax e na perna, que teve de ser amputada.
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Para entender o impacto das ações da Forças Armadas na Maré, a Redes realizou uma pesquisa com mil moradores. De acordo com os dados, para 70% dos moradores nada mudou ou piorou a sensação de insegurança, e 22% relataram que sofreram violação de algum direito, principalmente na abordagem.
"Houve uma repetição do comportamento adotado pela polícia", observa Lidiane.S."Em um primeiro momento, a pesquisa mostrou que as pessoas sentiram a queda do número de confrontos e até mesmo a diminuição da letalidade, mas após a morte de um cabo do Exército em 2014, os confrontos passaram a ser diários e a insegurança aumentou."
Um termômetro, como aponta a Redes da Maré, é o número de dias que as escolas ficaram fechadas ao longo do ano. Em 2016 foram 20 dias que os alunos não tiveram aula devido a confrontos. Em 2017, este número saltou para 35 dias. "É impossível seguir com as atividades do cotidiano em meio aos confrontos. É preciso ter um trabalho de inteligência, evitar que as armas cheguem até a Maré — elas não são produzidas na Maré, chegam até a Maré — é muito mais eficaz que enxugar gelo com ações que só aumentam a violência." Na Maré atuam três grupos armados, sendo uma milícia e dois grupos de tráfico de drogas.
"Os governantes acham que nós temos de escolher com qual fuzil ficar%2C mas queremos apenas viver"
Um dos fatores que aumenta o medo da população, segundo Lidiane, é a incerteza de como será a intervenção no Rio. "Como será essa intervenção? Terá ocupação nas comunidades? Em caso de abusos da polícia, contamos com o apoio do Ministério Público e a Defensoria Pública, mas com a ação das Forças Armas? Não está claro". Para ajudar a acalmar a população, a Redes da Maré abre espaço para o diálogo e nesta sexta-feira (9) oferece uma aula aberta com professores de Direito para discutir a Intervenção Federal no Rio.
"Os governantes acham que nós não temos de escolher com qual fuzil ficar, mas eu quero apenas viver e trabalhar, sem fuzil", desabafa J. "Acho que investir em educação e saúde ajudaria muito mais."
* Moradora pediu para não ser identificada
















