Após fugitivos serem baleados no chão, PM dá ordem pelo rádio: perseguições a motos estão proibidas
Corporação nega que medida seja novidade e diz que "acompanhamentos" estão autorizados
São Paulo|Do R7

A Polícia Militar emitiu uma ordem, na noite de quinta-feira (25), proibindo "perseguições em geral", “sobretudo a motocicletas”. A norma foi transmitida via rádio dois dias depois de o cabo C.S., de 39 anos, balear dois fugitivos caídos no chão, após persegui-los sozinho no Parque Santo Antônio, zona sul.
O R7 teve acesso à mensagem emitida pelo CPAM-6 (Comando de Policiamento de Área Metropolitana 6), responsável pela região do ABC, a todas as viaturas da área.
O operador do rádio diz que uma norma interna atribui ao Copom (Centro de Operações da Polícia Militar) a seguinte atribuição: “Pelo menos uma vez a cada 12 horas divulgar nota de instrução na rede de rádio informando sobre a proibição de perseguição em geral, sobretudo a motocicletas por viaturas de duas ou quatro rodas.”
O Copom é o órgão responsável por orientar as viaturas pelo rádio.
PM nega mudança de prática
Questionada, a Polícia Militar afirmou, em nota, que "quando se referiu à vedação da perseguição, o operador de rádio do Copom-ABC (pertencente ao CPA/M-6) apenas fez reproduzir norma antiga da Polícia Militar, que, com justa razão, impede seja efetuado o seguimento à veículo suspeito sem observância das regras técnicas capazes de garantir à ação a máxima eficácia, com o mínimo risco." (sic)
De acordo com a corporação, "na linguagem técnica de polícia, as expressões perseguição e acompanhamento têm significados diversos, sendo a primeira sinônimo de ato desprovido de cautelas, em especial a irradiação frequente da localização do veículo acompanhado — de forma a permitir o cerco - e o desenvolvimento, pela viatura policial, de velocidade compatível com a segurança."
A PM disse ainda que, "tão logo" tomou conhecimento de que a divulgação "provocara equivocada compreensão", determinou que "fosse feito esclarecimento à toda rede-rádio, que foi complementado por mensagem transmitida a todos os Comandantes de Unidades do CPA/M-6".
Na gravação a qual o R7 teve acesso, um policial chega a perguntar ao Copom se "acompanhamentos" estão autorizados. O operador não responde claramente: "Bom, o que está escrito aqui é 'perseguição em geral'."
Ao vivo
A perseguição protagonizada pelo cabo C.S. foi transmitida ao vivo pelo Cidade Alerta, da Rede Record. O cabo chegou a ficar detido administrativamente na sede do CPAM-2, na zona sul. Mas, na quinta-feira (25), recebeu a visita do deputado Coronel Telhada (PSDB) e foi liberado.
Em 2012, o policial esteve envolvido em outra perseguição, que terminou com dois suspeitos mortos.
Cena forjada?
A polícia ainda apura se o cabo C.S. tentou simular um confronto para que sua ação não fosse considerada excessiva.
Após balear os fugitivos, o PM aproximou-se dos adolescentes, pegou uma arma que estava com um deles, e atirou duas vezes para o chão. Até então, os infratores não tinham disparado. Em depoimento à Polícia Civil, o cabo disse que os tiros com a arma apreendida foram acidentais.
A perseguição teve início na avenida João Dias e terminou na rua Olímpio Rodrigues Araújo, quando os adolescentes bateram contra um poste. Sem descer da moto, o cabo, que estava sozinho, apontou para os fugitivos, caídos no chão, e disparou quatro vezes.
Nas imagens da TV Record, é possível ver um dos adolescentes com as mãos para o alto.
Na delegacia, o PM afirmou que só atirou nos momentos finais da perseguição, após o adolescente mais novo, que estava na garupa, atirar o capacete contra ele e apontar uma arma.
Ainda conforme o policial, mesmo após a batida da moto, os fugitivos continuaram ameaçando atirar — e não obedeceram à ordem de largar as armas. O cabo disse que então disparou "diversas vezes" como um "ato de reflexo" em "autodefesa".
Roubo
De acordo com o registro da ocorrência, meia hora antes de serem baleados, os adolescentes haviam roubado a moto — uma CG 150 Titan —, dois celulares e R$ 107 de um motoboy de 36 anos, na rua Paes da Silva, em Santo Amaro. A vítima os reconheceu por foto.
Logo após o caso, a Polícia Militar afirmou em nota que “reforça seus valores de transparência, imparcialidade e legalidade, sendo certo que todo e qualquer tipo de não conformidade na atuação policial será objeto de responsabilização nas esferas competentes”.
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