Dono da Voepass admitiu à PF que já sabia de omissão de falhas em diários de bordo antes do acidente
Tragédia matou 58 passageiros e os 4 tripulantes do ATR-72, em 9 de agosto de 2024
São Paulo|Márcio Neves, repórter investigativo da RECORD
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O proprietário da Voepass, José Luiz Felício Filho, admitiu em depoimento à Polícia Federal que já tinha conhecimento de que falhas técnicas deixavam de ser registradas nos diários de bordo das aeronaves da companhia antes da queda do voo 2283, em Vinhedo (SP), que matou 62 pessoas.
Durante o interrogatório, Felício respondeu “sim” ao ser questionado se sabia da prática de não registrar ocorrências no TLB (Technical Log Book). Em seguida, afirmou que um diretor da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) havia alertado diretamente sobre esse risco.
A admissão consta do relatório final da investigação criminal que levou ao indiciamento de 16 pessoas por crimes contra a segurança do transporte aéreo.
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Além dos indiciamentos, a Justiça Federal determinou a aplicação de medidas cautelares contra todos os investigados, proibindo que deixem o país durante a tramitação do processo.
Segundo o delegado André Almeida de Azevedo Ribeiro, responsável pelo inquérito, não está descartada a adoção de novas medidas cautelares no decorrer da ação penal, caso sejam consideradas necessárias pela Justiça.
O relatório da Polícia Federal foi encaminhado ao Ministério Público Federal, que decidirá se oferece denúncia contra os investigados.
Depoimentos
O depoimento ocorre após o delegado responsável pelo inquérito apresentar ao empresário uma sequência de episódios ocorridos antes da tragédia. Segundo a investigação, dois dias antes do acidente, um voo da empresa enfrentou condições severas de formação de gelo, registrando falha no sistema pneumático de degelo sem que a ocorrência fosse lançada no diário de bordo. Somados aos voos do dia 9 de agosto de 2024, a Polícia Federal sustenta que foram quatro voos consecutivos com falhas relacionadas ao sistema de degelo sem o devido registro técnico.
Outro ponto destacado pela investigação é uma aparente contradição entre depoimentos. Ao ser questionado sobre um grupo de WhatsApp em que seriam discutidas decisões operacionais, Felício afirmou não se recordar de participar do grupo antes do acidente. No entanto, em depoimento prestado anteriormente, o despachante operacional John Major Viana afirmou que o grupo reunia, entre outros integrantes, o próprio Felício, o então gerente de planejamento William Schmidt Agatz, o diretor de manutenção Eric Consoli e o diretor de operações Raphael Limongi de Figueiredo, em que eram discutidas situações como “dá para segurar?” e “dá para reportar em tal base?”.
Os depoimentos também apontam problemas estruturais na gestão da manutenção da companhia. O então gerente do Centro de Controle de Manutenção (MCC), Juliano Flores Pacheco, afirmou que, na época do acidente, a empresa operava com mais de 100 itens liberados pelo MEL (Lista de Equipamentos Mínimos) em toda a frota e reconheceu que falhas no sistema de degelo ficavam registradas apenas no gravador de dados de voo (FDR), sem lançamento no livro técnico da aeronave.
Em outro depoimento, o mecânico André Ulisses da Silva Peres, ouvido como testemunha, afirmou ter sofrido pressão para liberar aeronaves para operação. Segundo ele, Juliano Flores o ameaçava de perder sua habilitação profissional caso não autorizasse a liberação das aeronaves. O mecânico também relatou o desaparecimento dos dados armazenados na chamada pasta REC dos cartões de gravação, documentos de guarda obrigatória.
A investigação ainda aponta que Juliano Flores permaneceu na gerência de Manutenção mesmo após ter sua licença cassada em 2022, em razão de um processo relacionado ao despacho de aeronaves sem condições de aeronavegabilidade junto à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
Nota à imprensa
“A Voepass informa que a segurança operacional sempre foi sua prioridade. Ao longo de mais de 30 anos de atuação na aviação brasileira, a companhia adotou rigorosamente todos os protocolos de segurança, manutenção e capacitação de tripulações previstos pela Anac (Agência Nacional de Aviação Civil).
A empresa reforça que sua atuação sempre esteve pautada pelos mais elevados padrões de segurança da aviação, contando, desde 2012, com a certificação Iosa (Iata Operational Safety Audit), concedida pela Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo) às companhias aprovadas em rigorosa auditoria internacional de segurança operacional.
Os treinamentos de pilotos contemplavam os procedimentos previstos para o enfrentamento de condições de formação de gelo, incluindo medidas como alteração de altitude e velocidade, conforme as orientações do fabricante da aeronave e os protocolos operacionais aplicáveis. As tripulações eram permanentemente orientadas a cumprir rigorosamente esses procedimentos, de acordo com cada cenário operacional.
A tripulação do voo 2283 era composta por profissionais experientes, devidamente habilitados e certificados, que somavam mais de 5 mil horas de voo, com treinamentos técnicos, certificações e avaliações médicas regularmente atualizados, sem qualquer registro prévio que comprometesse sua aptidão para o exercício da função.
Desde o início das investigações, a Voepass colaborou integralmente com as autoridades, disponibilizando documentos, diários de bordo, registros operacionais e relatórios técnicos ao Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) e à Polícia Federal. A companhia compreende que o relatório da Polícia Federal integra a fase investigatória e aguardará os próximos desdobramentos processuais, e, se for o caso, exercerá plenamente seu direito de defesa, nos termos da legislação vigente.
A Voepass reitera sua solidariedade às famílias das vítimas e reafirma que permanece à disposição das autoridades, das instituições competentes e dos demais agentes envolvidos para prestar todos os esclarecimentos necessários."
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