Cada jurado terá que responder a 1.560 perguntas para dar veredicto a réus do massacre do Carandiru
Promotoria lembrou que 85% das vítimas foram atingidas na cabeça no dia da invasão
São Paulo|Vanessa Beltrão, do R7

Os seis homens e uma mulher que formam o Conselho de Sentença se reuniram por volta das 21h40 deste sábado (20) para decidir o veredicto de 26 policiais militares acusados de participar do massacre do Carandiru. Os réus foram a júri popular nesta semana no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste de São Paulo.
Cada um dos jurados deverá responder a 1.560 questões sobre a relação dos réus com a morte de 15 detentos que estavam no segundo pavimento do pavilhão nove da casa de detenção, no dia em que 111 presos foram assassinados no episódio, que ficou conhecido como "massacre do Carandiru".
Cada jurado vai analisar quatro quesitos e as vítimas serão individualizadas. Como são 26 réus, haverá 104 perguntas. Por sua vez, são 15 vítimas, conta que faz chegar às 1.560 questões.
Os jurados vão responder a questionamentos comuns a julgamentos, como: o réu concorreu para a morte do preso? Os disparos de arma de fogo contribuíram para a morte do preso? Você absolve o réu? E houve recurso que impossibilitou a defesa das vítimas?
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Defesa
A tréplica da defesa terminou por volta das 21h30. Durante os debates, a advogada dos policiais destacou que seus clientes estavam cumprindo ordens e que agiram “em legítima defesa”. Ieda Ribeiro de Souza ainda questionou a falta de uma individualização de conduta: não é possível afirmar que o PM “A” matou o detento “B”.
— Eu só posso ser condenado pelo que eu fiz, não pelo que dizem... Esses homens efetivamente cumpriram ordens, missão dada é missão cumprida.
Ieda chegou a chamar os PMs de “heróis” e destacou a importância dos policiais para a sociedade. Um dos réus chegou a se emocionar durante a fala da advogada que lamentou por quem “perdeu dois filhos na vida”.
Acusação
Já a promotoria defendeu que se trata de uma “acusação de conduta coletiva” e que a individualização nunca esteve em questão. Para o promotor Márcio Friggi, “se sempre for necessário individualizar a culpa, não terá como punir no Brasil massacre e chacina”.
Friggi vê excesso na ação dos PMs da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) que, segundo ele, atiraram contra os presos no interior de suas celas.
Questionando a falta de visibilidade relatada pelos réus durante a fase de interrogatório, Friggi destacou que 85% das vítimas foram atingidas na cabeça e no pescoço.
Neste sábado, a acusação pediu a absolvição de três dos 26 réus. Segundo o promotor Fernando Pereira, Eduardo Espósito e Maurício Marchese Rodrigues entraram com cachorros para fazer a proteção dos policiais, mas não chegaram a “contribuir para as mortes”.
As investigações apontaram que Roberto Alberto da Silva estava em outro andar e deve ser julgado por participação da ação em outro júri.
Relembre o caso
O massacre do Carandiru começou após uma discussão entre dois presos dar início a uma rebelião no pavilhão nove. Com a confusão, a tropa de choque da Polícia Militar, comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, foi chamada para conter a revolta. Foram mortos 111 detentos.
Ao todo, 286 policiais militares entraram no complexo penitenciário do Carandiru para conter a rebelião em 1992, desses 84 foram acusados de homicídio. Desde aquela época, cinco morreram e agora restam 79 para serem levados a julgamento.
Até hoje, apenas Ubiratan Guimarães chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, porém um recurso absolveu o réu e ele não chegou a passar um dia na cadeia. Em setembro de 2006, Guimarães foi encontrado morto com um tiro na barriga em seu apartamento nos Jardins. A ex-namorada dele, a advogada Carla Cepollina, foi a julgamento em novembro do ano passado pelo crime e absolvida.













