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Conheça G: a jovem que não coube na escola, virou ativista e agora enfrenta a PM de São Paulo

Grupo de militantes se reúne após libertação e relata como foram as 30 horas de detenção

São Paulo|Caroline Apple, do R7

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Quatro dos jovens detidos contam como foi que foram parar no Deic suspeitos de associação criminosa
Quatro dos jovens detidos contam como foi que foram parar no Deic suspeitos de associação criminosa

A imagem da jovem de 17 anos abraçando os avós ao ser liberada da Fundação da Casa, na última segunda-feira (5), após ser detida com outras 26 pessoas suspeitas da prática de associação criminosa, antes do protesto contra o presidente Michel Temer, virou motivo de orgulho para a jovem que, sempre que tinha a oportunidade, mostrava a imagem para os amigos. Os pais biológicos, segundo a adolescente, “estão pelo mundo”. Apesar dela ter feito da rua sua escola, o carinho dos avós lhe serve como norte.

G. recebeu a reportagem em sua casa em um bairro na zona leste, onde vive em um pequeno quarto com uma amiga. A adolescente não trabalha e se sustentar é um desafio. Há pelo menos três anos ela não vai à escola, de onde foi expulsa na sétima série por “discordar das aulas de história e geografia”.


Apesar da tenra idade, G. tem fortes ideais políticos e acredita que a anarquia seja a melhor opção de organização social, mas sabe que, enquanto o sistema vigente predominar, não tem outro jeito, tem que buscar formas de sobrevivência. O tênis que usava reflete esse choque entre ideologia e realidade. Os pares surrados ostentavam o logotipo da Ralph Lauren com símbolos do anarquismo, feitos à caneta.

Durante a entrevista, G. contou que os avós que a receberam na saída da Fundação Casa foram os responsáveis por sua criação. Sem dinheiro, no fim da noite, ela foi jantar com eles, enquanto percebia como era bom estar livre.


O sabor da liberdade é ainda mais importante para G. porque a adolescente corre o risco de voltar para a Fundação Casa, já que não é a primeira vez que dá as caras por lá. A jovem foi apreendida por vandalismo e desacato recentemente e se preocupa com o andamento do processo, principalmente por ouvir de policiais que, se ela continuar “nesse caminho”, seu retorno será iminente.

A possibilidade da apreensão faz com que o sorriso doce desapareça e dê lugar ao semblante de tensão e reflexão. Mas, parar de militar, não é uma opção para ela no momento. Quanto a nova apreensão, G. é categórica:


— Não estávamos fazendo nada para que tivéssemos sido presos. Disseram que somos do movimento Black bloc e isso nem existe. O que tem por aí são pessoas que usam a tática dos Black bloc e um monte de vândalo emocionado que sai quebrando tudo.

Reencontro


Reportagem do R7 se encontrou com os jovens na zona sul de SP
Reportagem do R7 se encontrou com os jovens na zona sul de SP

Abraços apertados e pulos de comemoração marcaram o primeiro reencontro de quatro das 27 pessoas do grupo detido no domingo. O R7 acompanhou a reunião dos amigos militantes na noite desta terça-feira (6), no parque do Ibirapuera, zona sul de SP. Estavam presentes, além de G., Ruy Elídio, de 22 anos, Cézar Vasconcelos, de 20 anos, e também a estudante A., de 17 anos.

Os jovens esperavam mais gente no reencontro, mas, mesmo com a baixa adesão, conseguiram conversar sobre o que aconteceu no dia do “enquadro”. Como toda a história, cada um traz detalhes e pequenas percepções do ocorrido, mas, o que todos concordam, é que serem presos naquelas condições foi uma arbitrariedade.

De acordo com o boletim de ocorrência, 21 jovens foram detidos próximo à rua Vergueiro, após a polícia ser parada por uma pessoa na rua, que informou ter conhecimento de que integrantes do movimento Black Bloc estariam mascarados e reunidos próximo ao Centro Cultural. Outro trecho diz que a PM (Polícia Militar) afirmou que os integrantes do grupo estariam reunidos para o “fim especial de cometer danos patrimoniais” e portavam barras de ferro, paus e pedras, além de estarem vestindo roupas escuras, máscaras, lenços e gorros para encobrir o rosto.

A versão soa de forma estranha aos suspeitos. Ao começar que eles estavam reunidos em 22 pessoas, porém um dos colegas foi afastado pela polícia, mas não foi encaminhado para o Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais) e teria desaparecido.

Os jovens desconfiam da versão da denúncia anônima e acreditam que esse jovem que “desapareceu”, na verdade, era um P2 (nome dado a policiais militares infiltrados). Ruy explica de onde vem a desconfiança.

— Além dele não ter sido preso, a polícia chegou com um aparato enorme e munida de armas letais. Para nossa surpresa, um ônibus já nos esperava nas imediações. Como isso seria possível se fosse apenas uma abordagem feita após uma denúncia anônima? Nos reunimos antes do ato para marcarmos uma manifestação antifascista para o dia 24 de setembro. Não quebramos nada e nem havíamos discutido ainda se iríamos ao ato. Nos prenderam baseados em “achismo”. Carregar máscara de gás e vinagre não é crime.

Saber quem é quem realmente é uma dificuldade para os jovens, uma vez que muitos deles se conheceram por nome apenas depois de serem detidos. O grupo explica que se conheceu de forma aleatória durante as manifestações e, como compartilha de ideais parecidos, os integrantes trocaram contatos e decidiram formar um grupo antifascista. Independente disso, eles garantem que a experiência por qual passaram os transformaram em grandes amigos.

A abordagem, segundo os jovens, ocorreu de forma súbita. Dezenas de policiais os separaram em grupos. Primeiro, os donos das mochilas que continham artefatos suspeitos foram colocado de lado. Depois, separaram as meninas dos meninos e levaram as meninas para uma revista num banheiro da estação Vergueiro do Metrô. G. conta que se sentiu humilhada durante a abordagem.

— Nos levaram para o banheiro onde estava uma policial militar mulher. Ela mandou a gente tirar toda a roupa. Ficamos completamente peladas para sermos revistadas.

O grupo seguiu para o Deic. O tratamento, de acordo com os presos e apreendidos, foi bom. No local, comeram pizza e tomaram refrigerante. O bom trato, para eles, tinha motivo. A movimentação da imprensa e de advogados era grande na porta do departamento. Qualquer abuso seria facilmente descoberto. Apesar de não esconderem que policiais tenham feito comentários nada condizentes com suas funções, o grupo seguia esperando uma definição do caso.

A. conta que realmente entenderam a gravidade do problema quando um policial afirmou que eles teriam que pedir permissão até para ir ao banheiro.

O grupo foi separado. Os menores de idade foram encaminhados para a Fundação Casa, onde tiveram que vestir o uniforme e se alimentar de “uma comida ruim”.

Os maiores foram liberados na noite de segunda-feira (5), depois de mais de 30 horas. Um magistrado determinou a soltura de todos e deu um parecer no qual critica a ação PM. Um trecho diz: “Destaco que a prisão dos indiciados decorreu de um fortuito encontro com policiais militares que realizavam patrulhamento ostensivo preventivo, e não de uma séria e prévia apuração, de modo que qualificar os averiguados como criminosos à míngua de qualquer elemento investigativo seria, minimamente, temerário".

Nem todos os jovens tinham conhecimento do teor da decisão.

Casamento no cerco

Cézar Vasconcelos, de 20 anos, e A., de 17, se consideram casados. As alianças, penduradas em um colar no pescoço, foram trocadas durante o fechamento de um cerco policial em um dos atos contra as Olimpíadas, no início de agosto, no qual ficaram entre os 105 detidos. A. havia comprado as alianças e fez do momento “simbólico” a oportunidade de selar a recente união.

Ligado por ideais, agora, após a nova detenção, o casal passa por um momento delicado. Cézar afirma que a prisão causou um mal-estar com a irmã, que pediu para ele sair de casa.

— Por causa da polícia, minha irmã acha que eu sou um vândalo baderneiro. Estou sem casa. Minha família é muito próxima, mas somos mais amigos que parentes. Agora ela fica falando que pareço meu pai, que bebe muito.

A. é estudante e está lidando com o desconforto dos pais diante dos acontecimentos.

— Estamos procurando um lugar para morar juntos. Não somos vândalos, apenas militantes. Protestar é um direito e não um crime.

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