Coronel da PM se contradiz e diz não lembrar detalhes sobre o massacre do Carandiru
Durante depoimento, Mendonça negou versão anterior dada durante uma CPI sobre o episódio
São Paulo|Thiago de Araújo, do R7

Durou aproximadamente três horas o interrogatório do coronel da Polícia Militar Valter Alves de Mendonça, o primeiro réu a ser interrogado no terceiro dia do segundo julgamento do massacre do Carandiru, nesta quarta-feira (31), no Fórum Criminal da Barra Funda. Ele destacou em várias ocasiões “não se lembrar” de detalhes. O ápice foi renegar declarações dadas por ele durante uma CPI sobre o massacre em outubro de 1992, na Casa de Detenção.
— Mesmo constando (no processo), digo que isso aí não aconteceu.
O trecho relata que, na CPI instaurada pelo Congresso Nacional, poucos dias após o massacre, Mendonça relatou uma versão diferente da dita nesta quarta no fórum, quase 21 anos depois. Enquanto, na época, o então capitão da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar) disse ter participado de três dos quatro confrontos com presos no terceiro pavimento (segundo andar), “e não seguiu em frente por estar ferido e com muita dor”, hoje ele afirmou estar presente em todos, tendo inclusive socorrido presos feridos.
Ele afirmou ainda que o depoimento na CPI “foi complicado”, e que os parlamentares apenas queriam “culpar o governo de São Paulo” pelas 111 mortes no Carandiru. Questionado pela promotoria se tinha dito a verdade na ocasião, com os fatos ainda frescos na memória, ele afirmou apenas “não se lembrar” se jurou dizer a verdade aos deputados e senadores.
Em vários momentos, entre as respostas de questionamentos semelhantes do juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, dos promotores e da advogada de defesa, Ieda Ribeiro de Souza, Mendonça, que está inativo há mais de um ano da corporação, apresentou respostas conflitantes e, em alguns casos, contraditórias. Um exemplo foi admitir hoje que “não havia reféns”, refutando afirmações no passado em que exista sim reféns no presídio.
A existência de um “detento decapitado no pátio”, relatado por Mendonça, foi revelada por ele pela primeira vez. Questionado, ele assim respondeu:
— Se não disse antes, deve ter sido por não ter achado relevante na ocasião.
Coronel da PM relembra preso sem cabeça e fala em “medo de tomar tiro”
Outro ponto de discórdia foi o número de tiros feitos pelos policiais militares no segundo andar do Carandiru [“ouvi uns sete ou oito”, segundo Mendonça], enquanto minutos depois admitiu que todos os oficiais da Rota sob seu comando [“de 28 a 30, de acordo com o coronel] dispararam, sem saber mencionar com quais armas ou as quantidades de cada um.
— Todos os PMs que integravam minha tropa atiraram, mas não sei quantos disparos foram efetuados no total.
Carregando um escudo e uma metralhadora Beretta, Mendonça garantiu, inicialmente, não ter disparado “mais do que três tiros” durante os 15 a 20 minutos que esteve dentro do pavilhão nove. Mais à frente, para a defesa, declarou ter dado cinco tiros.
Primeiro dia
O primeiro dia foi marcado pela dispensa de sete das oito testemunhas da acusação. Apenas o perito criminal Osvaldo Negrini foi interrogado. Ele disse ter visto um “mar de cadáveres” e presenciado um “rio de sangue” ao chegar à Casa de Detenção no dia 2 de outubro de 1992. O depoimento de Negrini começou por volta das 14h10 e terminou pouco depois das 16h30.
Segundo dia
No segundo dia do júri, os jurados ouviram no plenário o ex-secretário de Segurança Pedro Franco de Campos e o ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho. Além deles, mais duas testemunhas protegidas prestaram depoimento.
A defesa ainda exibiu dois vídeos com depoimentos dos desembargadores Luiz San Juan França e Ivo de Almeida. França era juiz da Vara das Execuções Criminais da Capital em 1992, ano em que 111 detentos da então Casa de Detenção de São Paulo foram mortos após a entrada da Tropa de Choque da Polícia Militar para conter uma rebelião na unidade prisional. Já Almeida era corregedor dos Presídios da Capital na época dos fatos.
Relembre o caso
O massacre do Carandiru começou após uma discussão entre dois presos dar início a uma rebelião no Pavilhão 9. Com a confusão, a Tropa de Choque da Polícia Militar, comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, foi chamada para conter a revolta. A ação deixou 111 mortos. Ao todo, 286 policiais militares entraram no Complexo Penitenciário do Carandiru para conter a rebelião em 1992, desses 84 foram acusados de homicídio.
Em abril de 2013, 26 policiais militares foram levados ao banco dos réus pela morte de 15 detentos no segundo pavimento do pavilhão nove no massacre do Carandiru. Após sete dias de julgamento, a maioria foi condenada por homicídio qualificado — com uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Naquela ocasião, seis homens e uma mulher formaram o Conselho de Sentença.
Dos 26 policiais, 23 foram condenados a 156 anos de prisão, inicialmente, em regime fechado. Os réus receberam a pena mínima de 12 anos por cada uma das mortes dos 13 detentos. Os condenados poderão recorrer em liberdade. Outros três PMs foram absolvidos pelo júri, que acatou o pedido feito pela acusação.
Antes deles, Ubiratan Guimarães chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, porém, um recurso absolveu o réu e ele não chegou a passar um dia na cadeia.
Em setembro de 2006, Guimarães foi encontrado morto com um tiro na barriga em seu apartamento nos Jardins. A ex-namorada dele, a advogada Carla Cepollina, foi a julgamento em novembro do ano passado pelo crime e absolvida.
Dezessete testemunhas foram convocadas. Onze de acusação e seis de defesa. Do total, 12 eram aguardadas no tribunal, enquanto as outras cinco teriam vídeos dos seus depoimentos apresentados no plenário.














