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Das feridas, união: alunos de Suzano se juntam para superar traumas

Estudantes da E.E. Raul Brasil e pais falam sobre a convivência em um ambiente onde viram, há seis meses, o ataque que tirou a vida de seus amigos

São Paulo|Guilherme Padin, do R7

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'Teve gente que até saiu da escola e voltou, porque não dá pra ficar longe daqui'
'Teve gente que até saiu da escola e voltou, porque não dá pra ficar longe daqui'

O que aconteceu no último dia 13 de março não será esquecido na E. E. Raul Brasil, em Suzano (SP). Nem que os alunos e funcionários da escola quisessem isso seria possível: logo na entrada os muros estão preenchidos por grafites homenageando as vítimas, com seus nomes e pedidos por paz escritos em vários espaços. Seis meses depois de um imprevisível massacre, feridas continuam expostas e vivas naqueles que perderam amigos, filhos, professores e alunos na tragédia que chocou o País inteiro.

Se antes as portas da escola ficavam abertas e os arredores vibravam com a energia dos adolescentes, hoje o cenário indica uma infeliz necessidade: em nome da segurança do local, a impressão passada em um dia comum de aula é de que há feriado na cidade e ninguém está lá. Na Rua Otávio Miguel de Sena, endereço da instituição, há pouco movimento. Em horário de aulas, os portões frontais ficam fechados, e quem precisa entrar – exceção feita aos estudantes – só consegue a autorização após se anunciar no interfone.

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“Continua [um clima diferente] pela rua, até mesmo a vizinhança está assim. Tem vizinhos que às vezes saem na porta e olham, mas apesar da segurança fica todo mundo com aquele pé atrás”, relatou Eric Vando enquanto esperava a filha na saída da escola. Rivamberto Rossi, membro de uma igreja à frente da escola, conta que o ambiente mudou muito desde aquela manhã de março. “Os estudantes ficavam na calçada depois das aulas e passavam tempo lá. Era mais animado. Hoje, as aulas acabam e já não há ninguém na rua”, relembrou.

Os momentos da saída dos alunos do período da manhã e da entrada à tarde simbolizam o pragmatismo como consequência do trauma. Com a companhia de alguns pais e a presença de policiais militares da rota escolar, os estudantes saem da escola e em cerca de dez minutos a rua volta a ficar pouquíssimo movimentada. Da mesma forma, quem estuda no turno seguinte também não perde tempo nas calçadas, que após o fechamento do portão para as aulas vespertinas se esvaziam novamente.

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Todos ficaram juntos e a gente se ajuda quando precisa. Assim%2C fica mais fácil enfrentar a dor

(Jéssica*)

O clima que se vê nos arredores da escola, no entanto, se distingue da atmosfera entre os alunos: apesar do massacre de exatos seis meses atrás, os estudantes se uniram e hoje demonstram resiliência para encarar a rotina no local onde presenciaram as piores cenas de suas vidas.

Para Fernando*, de 16 anos, “a escola está aconchegante, porque todo mundo está mais junto. Um apoiando o outro. Parece que criou mais união. Teve gente que até saiu da escola e voltou, porque não dá pra ficar longe daqui”.

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Já Mário*, 13, observa que o comportamento dos alunos em relação à instituição também mudou. “Sinto que tem mais respeito à escola, mais dedicação aos estudos. Alguns saíram da escola, mas muita gente entrou também. Nunca quis sair. Penso que isso poderia acontecer em qualquer escola”, diz ele.

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Mário se considera mais seguro com as mudanças na segurança da escola: “Colocaram câmeras e aumentaram as rondas. Pra entrar na escola está muito mais difícil. Tem seguranças que ficam na porta averiguando quem entra e quem sai. Não podemos ficar sem camiseta da escola lá dentro. Antes era mais livre nesse sentido, mas é pra poder identificar os alunos”.

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Não foi apenas nesta área que o Estado e a Prefeitura interviram. Além dos procedimentos de segurança na escola, da prisão de quatro homens e da apreensão de um então menor de idade, o terceiro mentor do massacre, as indenizações foram pagas às vítimas fatais e feridos, e a cidade recebeu quase 50 psicólogos a mais para atender quem passou por experiências traumáticas durante ou após o ataque.

Para mudar a 'cara' da escola Raul Brasil, uma grande reforma, custeada pela iniciativa privada e com participação efetiva do Governo de São Paulo, está prevista com início das obras ainda para este setembro e conclusão no início de 2020. O intuito é minimizar os efeitos do trauma causado pelas mortes dos alunos e funcionários da instituição.

Mário: 'Nunca quis sair. Penso que isso poderia acontecer em qualquer escola'
Mário: 'Nunca quis sair. Penso que isso poderia acontecer em qualquer escola'

Prefeito de Suzano, Rodrigo Ashiuchi disse em entrevista ao R7 que a reforma é “um projeto no qual estamos (município e Governo do Estado) muito engajados. É uma coisa pessoal nossa. Foi a pior cena que vimos na vida. É um projeto não só administrativo, mas uma meta pessoal”.

Doutora em Educação e coordenadora da área de juventude e políticas públicas Flacso (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), Miriam Abramovay avalia que “os professores e essa rede proteção [aos alunos] devem estar muito conectados. A escola tem que ser um local de proteção para esses jovens. Fundamentalmente ouvindo os jovens. É necessário ter um diagnóstico do que ocorre nas escolas, mas não só nas notas, mas sobre o clima escolar, as relações sociais, o que está acontecendo no cotidiano deles. Precisamos escutar e saber o que eles pensam. A escola é 'adultocêntrica', baseada no que os adultos pensam”.

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Assim como o colega Fernando, Jéssica*, 15, acredita que “uma coisa que mudou muito pra gente é a união. Desde que aconteceu, todos ficaram juntos e a gente se ajuda quando precisa”. Ela disse que, “assim, fica mais fácil enfrentar a dor”.

*em respeito às suas identidades, os nomes dos alunos foram alterados

Rua vazia e saídas rápidas: escola de Suzano tem nova rotina após ataque

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