"Ele não vai nos deixar em paz", diz mãe de Bianca Consoli sobre Dota
Marta Consoli está decepcionada e amedrontada após saber da recente absolvição do ex-genro das acusações de estupro dos netos dela
São Paulo|Joyce Ribeiro, do R7

Depois de Sandro Dota ter sido absolvido da acusação de estupro dos dois enteados, na época, uma menina de 6 e um menino de 11 anos, a avó das crianças, Marta Maria Ribeiro Consoli, cobra justiça. "É um absurdo. Como que a nossa lei permite que um cara que assassinou e estuprou a minha filha, que tem passado como estuprador, seja inocentado? Estou horrorizada em ver o descaso da justiça com as crianças", afirmou ao R7.
Sandro está preso na penitenciária II de Tremembé, no interior de São Paulo, pela morte e estupro da cunhada, a universitária Bianca Consoli, em setembro de 2011. A jovem teve a casa invadida e morreu por asfixia. Ele confessou o assassinato, mas alegou que houve uma discussão e luta corporal entre os dois.
Leia mais: Em carta, Sandro Dota confessa assassinato de Bianca Consoli
Pelo crime, ele cumpre 21 anos de prisão e já teve duas reduções de pena. Agora que foi inocentado das acusações de estupro de vulnerável, Sandro deixa de cumprir outros 78 anos e 9 meses de reclusão.
"Ele não vai nos deixar em paz. Quero justiça. Se ele for solto, vamos viver com medo. Ele manda cartas pra mim e pra minha filha com palavras doces e ameaças sutis. A última foi em 20 de outubro. Ele sabe tudo da vida da gente", revelou Marta, mesmo a família tendo mudado de endereço após a morte de Bianca.
A avó teme pela segurança de todos e pela saúde mental dos netos: "A mente deles fica eternamente ferida. Ninguém vai esquecer. A palavra dos meus netos não foram suficiente para provar que ele abusou das crianças. A vítima tem que ter razão. Eles falaram a verdade, deram detalhes, eu acredito em cada vírgula que eles dizem".
Veja também: "É muito difícil olhar para a cara dele", diz mãe de Bianca Consoli sobre assassino confesso da filha
Os abusos teriam ocorrido entre 2009 e 2011 quando Sandro passou a morar com Daiana Consoli, mãe das crianças. Como ela trabalhava o dia todo no salão de beleza, ele, que era motoboy, ficava em casa com os enteados.
Segundo o relato das vítimas, ele entrava no banheiro durante o banho das crianças, alegava que precisava passar sabonete e passava as mãos nos corpos. O mesmo aconteceria no quarto das vítimas.
A menina afirma que tinha 6 anos na primeira vez que foi estuprada pelo réu, em 2009. Ela relatou sofrer ameaças para que não contasse a ninguém: "Por medo, fingia que estava dormindo, mas mesmo assim ele sussurrava em seu ouvido que caso ela gritasse ou contasse os fatos para alguém, ele a mataria e mataria todos de sua família, a começar por sua avó".
Leia ainda: "Confissão de Sandro Dota só acrescentou mais dor", diz irmã de Bianca Consoli e ex-mulher do acusado
Ela dividia o quarto com o irmão, que confessou, em juízo, ter vivenciado a mesma situação. O garoto relatava a avó que odiava Sandro, mas não dava detalhes. O jovem, hoje com 19 anos, contou que o padrasto usava uma almofada ou travesseiro para sufocá-lo e abafar os gritos durante o abuso. Ele diz ter claustrofobia por causa do trauma.
"Não contava nada para mãe porque tinha medo das ameaças e porque não queria que ela se sentisse culpada", relatou o jovem.
Marta afirma que já desconfiava das atitudes de Sandro que não permitia que os netos ficassem muito tempo com a avó, mas disse não ter provas. "São muitos os sinais, mas é difícil provar. Meu neto ficava nervoso, gritava que odiava o Sandro. As crianças tinham medo dele e obedeciam por causa das ameaças", conta.
Abusos e traumas
Apesar dos abusos, as crianças não contaram nada à família até 2017, quando a garota, já adolescente, se abriu com a mãe. "Ela começou a se cortar nos braços, voltou ao psicólogo. Tinha 13 anos e falou: 'sabe aquelas coisas que homem faz com mulher, ele fazia comigo'. O menino não queria falar", lembra a avó.
Marta conta que o neto não conseguia namorar e só passou a ter um relacionamento sério após a condenação do padrasto pelos estupros. "O Sandro acabou com a minha vida, dos meus netos, da minha família. Quem sofre a violência não tem a justiça do nosso lado. No Brasil, a vítima é a culpada", desabafa.
Veja mais: Sandro Dota diz que medo de morrer e de perder a mulher o fizeram matar Bianca Consoli
Para a mãe de Bianca Consoli, o ex-genro é um psicopata: "Ele manipulava a mente da minha filha, que acreditava que ele a ajudava. Ele parece a melhor pessoa do mundo, mas planeja, te ganha e age por trás".
No julgamento do caso dos abusos, que ocorreu no Fórum da Penha, Marta conta que eles nem tinham advogado e que só souberam da data dois dias antes. Ela garante que, ainda ao deixar o local no camburão, Sandro fez ameaças e intimidações à família: "Tinha umas nove pessoas comigo. Ele mandou um beijo pra minha neta e virou pra minha filha e disse: 'sua linda, eu vou te matar'. Tenho várias testemunhas. Meu neto esmurrava o carro e xingava".
Agora que a família soube da absolvição de Sandro dos estupros, vai procurar um advogado e recorrer da decisão. "É um descaso. Muito difícil lidar com isso. É uma decisão numa canetada. A vida dos meus netos não será nunca mais a mesma. Estamos planejando o que fazer se ele for solto. A gente sabe do que ele é capaz", ressalta.
Leia ainda: Após confessar crime, motoboy revela que sentia raiva de Bianca Consoli: “Menina nojenta”
Sandro havia sido condenado a 39 anos, 4 meses e 15 dias para cada um dos estupros dos enteados. "Nos delitos de natureza sexual a palavra da ofendida, dada a clandestinidade da infração, assume preponderante importância, por ser a principal se não a única prova de que dispõe a acusação para demonstrar a responsabilidade do acusado", escreveu a magistrada na decisão.
Mas a defesa de Sandro fez uma apelação que foi atendida em favor do réu, alegando que não havia provas dos abusos nem laudos médicos que comprovassem os estupros. Destacou também que o fato teria ocorrido 6 anos antes da formalização da denúncia na delegacia.
"Você acha que ele merece que tirem a condenação de quase 80 anos de prisão?", questiona a avó das vítimas.
Em 21 de julho, Sandro foi absolvido pelo princípio in dubio pro reo (na dúvida interpreta-se em favor do acusado). Ele já até assinou o alvará de soltura por estes crimes, mas permanece em regime fechado.
















