Em forma de poesia, frequentadora conta como é sobreviver na Cracolândia
Sem a presença de Taís, colegas aplaudiram um dos trabalhos dela, lido durante festa na rua
São Paulo|Daia Oliver e Sylvia Albuquerque, do R7

Debaixo de uma tenda na rua Helvétia, região central de São Paulo, dezenas de pessoas comemoram o Dia da Consciência Negra na Cracolândia, em festa organizada por uma ONG. Entre os tantos que se espalhavam pelo chão ouvindo a banda improvisada composta por guitarra, pandeiro e bumbo, um rapaz dorme com óculos sem lentes, um cordão no pescoço pendurando uma lancheira com uma caneta dentro. Ele está pronto para o dia de festa.
A reportagem esteve no local na última terça-feira (25) e acompanhou parte da programação. As pessoas se revezavam no microfone. Todos tiveram a oportunidade de apresentar seu talento, recitaram poesias, cantaram e dançaram embalados ao som de O Rappa, Legião Urbana e Cazuza, além de rap. "Às vezes eu falo com a vida. Às vezes é ela quem diz. Qual a paz que eu não quero conservar pra tentar ser feliz?." Numa tentativa de traduzir o que se sente, todos cantavam em coro a canção.
Taís, uma frequentadora da região, usuária de crack, escreveu uma poesia e pediu para que lessem por ela. A jovem não quis participar da festa, mas foi aplaudida sem saber pelo poema Estratégias de Sobrevivência na Rua, transcrito abaixo:
— Existem duas palavras que definem o melhor caminho para se fazer viável a sobrevivência num lugar desumano como a cracolândia. São elas: Proceder e Humildade.
Embora vista pela TV ou até mesmo do outro lado da rua, a cracolândia parece uma imensa bagunça acompanhada de desordem. Mas apenas parece.
Muitos imaginam uma exorbitante violência e impunidade. Mentira.
A palavra proceder define as regras impostas pelo submundo, mas que, no entanto, elas tem como base o certo, o justo, e o correto. Parece até brincadeira.
Um exemplo prático é: não é novidade nenhuma a presença de contravenções além do tráfico, porém as pessoas que são responsáveis pela disciplina não aceitam o roubo de pedestres no local. Também não é aceito o furto entre nós, conhecido como rateação; as pessoas que praticam são Ratos, e isso é a pior ofensa entre nós, o que também causa o afastamento de todos ao seu redor, além de que qualquer lugar em que tais entrem também é avisado sobre o seu procedimento, causando vergonha e agressão a todo instante.
O proceder não permite o cagueta, que de certo é chamado de coisa e tem como sentença a morte. O talarico é muito mal visto, além de também estar sujeito a cobrança.
A humildade em contrapartida te permite ser aceito em qualquer lugar e não passar por muitas dificuldades. Porque é através dela que podemos dizer que quem lembra é lembrado ou fortaleço quem me fortalece.
A igualdade é muito importante como parâmetro de cobrança: Pau que dá em Chico também dá em Francisco.
Logo seguindo algumas regras é possível a sobrevivência com aparente tranquilidade (sic).
A reportagem tentou encontrar Taís, mas ela estava no chamado fluxo: a aglomeração de usuários na calçada da rua Helvétia.
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Para o coordenador do Projeto Oficinas do Cedeca Interlagos, em convênio com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, Myro Rolim, é importante ressaltar esse lado criativo de quem frequenta a região para tirar o mito de que usuários são "zumbis".
— Eles sentem o preconceito, pois ao contrário do que se fala na mídia, eles não são zumbis que ficam andando de um lado para outro totalmente alienados do mundo. São pessoas que têm sentimentos como qualquer outra pessoa, eles sentem dores, medos, fome, saudades, alegrias, paixões... e preconceitos. E isso eles sentem na pele no dia a dia.















