Entregadores de SP pedem direitos a apps após amputação por acidentes

Depois de se acidentarem nos últimos meses, Joel, Alexandro, Felipe e Robson ainda não foram indenizados. Dois deles sequer tiveram respostas

Motoboys sofreram acidentes e ainda não foram indenizados

Motoboys sofreram acidentes e ainda não foram indenizados

Montagem/R7/Arquivo pessoal

As histórias de Joel, Alexandro, Felipe e Robson ganharam, nos últimos meses, tristes capítulos em comum. Todos trabalhavam na Grande São Paulo como entregadores de aplicativos, até que se acidentaram e perderam membros do corpo, o que os impediu de trabalhar. Os quatro dividem, também, um outro problema: das empresas para as quais trabalhavam, ainda não receberam indenizações desde os acidentes.

Apesar da especificidade dos casos, a situação vivida por eles caminha, em paralelo, na mesma direção que as reivindicações da categoria, que estará em paralisação nacional nesta quarta-feira (1º) por melhores condições de trabalho, como aumentos nas taxas por quilômetro percorrido e por corrida, pelo fim de bloqueios indevidos e por medidas de proteção contra a covid-19.

Com a pandemia, os profissionais relatam trabalharem mais para ganhar menos, chegando a cargas diárias de 12 horas por dia e atuação em 26 dias por mês. Veem, ainda dificuldades na comunicação com as empresas, também encontradas e confirmadas por três dos quatro motoboys que se acidentaram.

Na avaliação do MPT-SP (Ministério Público do Trabalho de São Paulo), a atuação da classe categoriza vínculo empregatício com os aplicativos e, consequentemente, a responsabilidade sobre possíveis acidentes. Professor de direito do trabalho na USP (Universidade de São Paulo), Flavio Batista concorda com a avaliação do MPT. “Os entregadores devem ser considerados empregados dos aplicativos. Mas as empresas de aplicativos consideram que estão apenas prestando serviço de intermediação”, comenta.

Em consonância, o SindimotoSP (Sindicato dos Mensageiros Motociclistas, Ciclistas e Mototaxistas Intermunicipais do Estado de São Paulo) solicita que as empresas tenham que indenizar os quatro profissionais e arcar com seus custos.

Até o momento, porém, foram os colegas ‘motocas’ e o próprio sindicato que os ajudaram com cestas básicas e doações em dinheiro. Dois deles tiveram sinalizações de que receberão auxílios dos aplicativos para os quais atuavam, e somente um demonstrou satisfação no tratamento dado pelo aplicativo para o qual trabalhava.

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Entre as quatro histórias, há um jovem que está começando a vida profissional e um senhor que quer seguir trabalhando pelos próximos quatro anos, que antecedem a aguardada aposentadoria. Em comum, além das perdas, a firmeza no objetivo de seguir em frente. Ao R7, eles compartilharam suas histórias e comentaram sobre a atuação – ou falta dela – dos aplicativos em relação aos doloridos episódios que viveram.

Joel Brosselin, 61 anos

'Eles não se importam, não têm uma linha de comunicação conosco'

'Eles não se importam, não têm uma linha de comunicação conosco'

Reprodução/Facebook

Joel Brosselin, 61, está a quatro anos da tão esperada aposentadoria. Trabalhava como motoboy há 15 – destes, o último ano e meio para o iFood. Em 14 de novembro passado, se chocou com um carro quando voltava de uma jornada de trabalho. O motorista fugiu sem prestar socorros.

Foram 50 dias de internação e três cirurgias, ao todo. As infecções e a diabetes complicaram seu quadro e obrigaram os médicos a amputarem parte da perna direita – do joelho para baixo.

Joel passou sete meses sentindo-se abandonado pela empresa. Ouviu que não seria indenizado pois estava na volta do trabalho, e não num período entre entregas.

Por conta da pandemia, teve de parar as sessões de fisioterapia, já que seu hospital passou atender apenas pacientes com covid-19. Sem dinheiro, começou uma vaquinha virtual para conseguir uma prótese e voltar a trabalhar até conseguir sua aposentadoria.

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Só este mês, por conta da repercussão de um vídeo que publicou nas redes sociais, recebeu contato do iFood, que agora disse-o que arcará com os custos e que será indenizado pelo seguro. Hoje, Joel comemora o auxílio, mas com ressalvas. Comenta que o aplicativo obriga os profissionais a trabalhar numa rotina insegura.

“Colocam um horário para retirada muito rápido, e somos obrigados a acelerar. Quando chove, não aumentam esses minutos de limite, então é pior. Temos que acelerar mais, e aí vêm os acidentes, os bloqueios do aplicativo [quando não chegamos a tempo], vêm as multas. Eles não se importam, não têm uma linha de comunicação conosco. [O meu vídeo] só chegou a eles porque o vídeo tomou essa proporção”, relata.

E esta não foi a primeira vez que se acidentou e ficou sem ajuda da empresa: em março do ano passado, havia se machucado em outro acidente e quebrou a clavícula. Um mês depois, voltou a trabalhar mesmo lesionado e, em todo o período, também não tinha conseguido contato com o iFood.

“Agora, me sinto um fracassado. Essa situação faz a gente ficar depressivo”, lamenta.

Para ajudar na vaquinha online para Joel, basta acessar este link.

Alexandro Santos, o “surfista”, 44 anos

'Me sinto desamparado. Eles não estão nem aí, como todos os aplicativos'

'Me sinto desamparado. Eles não estão nem aí, como todos os aplicativos'

Arquivo pessoal

Nascido em Santos (SP), no litoral paulista, Alexandro Santos, conhecido entre os colegas como “surfista”, passou a vida na praia. Vive há sete anos em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo. Aos 44, não poderá voltar a praticar a atividade que tanto gosta e lhe rendeu o apelido.

Em 21 de abril passado, à noite, enquanto prestava serviços ao aplicativo Zé Delivery, foi atingido em cheio por uma outra motocicleta, relata, que passou no sinal amarelo a mais de 100 km/h e apresentava sinais de embriaguez.

“Quando eu estava no hospital, os policiais até vieram me pedir desculpas por não conseguirem prender o piloto por embriaguez, porque ele não quis fazer o exame [do bafômetro]”, conta ele, que passou por quatro cirurgias, teve o pé amputado e ficou 15 dias em internação.

Até agora sem receber qualquer contato ou tentativa de auxílio por parte da empresa, pretende entrar em processo judicial por seus direitos. “Me sinto desamparado. Eles não estão nem aí, como todos os aplicativos. Não ligam para os motocas, não dão o suporte e a segurança necessários. Na pandemia, mais pessoas estão trabalhando para esses aplicativos, ajudando a lucrar, e com isso estão baixando as taxas. Os motoboys pegam de três a cinco pedidos pelo valor de corridas que antes era de uma ou duas”, diz ele.

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O acidente e a perda do pé não o fazem baixar a cabeça, entretanto. Além da ajuda de colegas, Alexandro conta com a família para lidar com o que aconteceu. Seu maior medo era que o filho tivesse medo ou estranhasse a amputação – o que, celebra ele, não aconteceu.

“Tenho uma família maravilhosa que fecha comigo e sempre fui positivo, isso não me abala. Meu filho e esposa me alimentam para viver cada vez mais, meu filho abraça o ‘cotô’. Era a pessoa que mais me preocupou depois do acidente, achei que ele ia me estranhar sem pé, mas não. Até brinca”, comenta.

A experiência de mais de 30 anos como ‘caiçara’, relata, faz com que ele não se desanime: “Sou da praia, tenho outras visões da vida. Nada vem à toa, mano. Tudo que acontece é para valorizar ainda mais a vida”.

Para ajudar na vaquinha online para Alexandro, basta acessar este link.

Felipe Bockor, 21 anos

'Larguei mão de ir atrás [da empresa]. Vi que não vai dar'

'Larguei mão de ir atrás [da empresa]. Vi que não vai dar'

Arquivo pessoal

Felipe Pereira Bockor tem somente 21 anos e encara com duro pragmatismo os problemas que viveu no exercício da profissão. Ele relata que, quando se acidentou em fevereiro passado, estava trabalhando para a Uber Eats há seis meses, por mais de dez horas ao dia. Na avenida Nações Unidas, foi atingido de frente por um carro. Passou por duas cirurgias e teve o pé amputado.

Ele conta que tentou contato por diversas vezes com a Uber Eats para procurar por direitos, mas sem sucesso: “Nem me atenderam”. Agora, já não acredita mais no ressarcimento. Recolhido em sua fala, Felipe não quer ir atrás da empresa, tampouco pede ajuda ao sindicato.

“Eu mesmo larguei mão de ir atrás [da empresa]. Vi que não vai dar, não tive ajuda”, conta o jovem, que conseguiu uma prótese graças a uma vaquinha, na qual colegas motoboys e amigos o ajudaram.

Realista, comenta que alguns sonhos tiveram de ficar para trás, e agora foca nos que restam. Guarda para si mesmo, nem mesmo os divide, pois “quando contei, não deram certo”. Assim, sem auxílio e sem euforia, quer retomar a vida e alcançar seus objetivos.

Para ajudar na vaquinha para Felipe, basta doar qualquer quantia à seguinte conta: Bradesco - Agência 1823 / conta-corrente: 0018710-0 / CPF: 473.298.818-05.

Robson José do Prado, 34

'Estou muito feliz por estar vivo'

'Estou muito feliz por estar vivo'

Arquivo pessoal

Robson José do Prado, 34, trabalhou por dez anos como motoboy contratado para empresas. Recentemente, sem trabalho com carteira assinada, migrou para os aplicativos. No mês passado, trabalhando também mais de dez horas por dia para garantir seu sustento, se acidentou.

Passou por uma cirurgia de emergência, teve três paradas cardíacas e, na sequência, uma segunda cirurgia. Depois dos sustos, teve parte da perna esquerda amputada.

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Entre os quatro, Robson é quem tem a situação mais próxima de ser resolvida em relação ao aplicativo. Em contato com a Uber Eats, lhe disseram que pagarão cinco dos 21 dias internado, as medicações e que também terá o seguro de invalidez permanente. “Estou esperando me enviarem a planilha com os documentos necessários para eu dar entrada no seguro”, conta.

Embora as tratativas com o aplicativo progridam, sua situação tampouco é das mais simples. Ele relata que está sem dinheiro e, sem arrecadação e sem emprego, ainda não sabe como fará para enfrentar o próximo mês.

Uma vaquinha online criada por seu irmão para conseguir uma perna mecânica arrecadou, até então, pouco mais de R$ 3.900 dos R$ 30 mil colocados como meta. Ele espera que o valor seja alcançado em breve.

Confiante, Robson se mostra grato por ter sobrevivido e não se desanimou apesar do que lhe aconteceu. “Me sinto bem, estou muito feliz por estar vivo”, afirma.

Para ajudar na vaquinha online para Robson, basta acessar este link.

Parceria

Se modo geral os quatro entregadores e os colegas de profissão não se sentem amparados pelos aplicativos, por outro lado encontram na própria classe a parceria e a ajuda que esperariam das empresas.

Todos receberam, de alguma forma, auxílios de outros amigos 'motocas'. Robson, por exemplo, ganhou três cestas básicas, mas decidiu doá-las a quem precisava mais. Já Alexandro comemora a vaquinha que colegas de função, amigos e familiares fizeram para colaborar com om momento difícil.

Sem ter resposta da Uber Eats, Felipe relata que, na vaquinha virtual, “muitos amigos, inclusive os motoboys, me ajudaram”.

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Joel destaca o companheirismo entre a categoria e se emociona com a parceria entre seus colegas. “Olha, filho, sou motoboy há 15 anos, e posso dizer que é uma classe de trabalhadores valentes. Cada um tem uma história, cada um está atrás de seu dinheiro, seu trabalho. Aprendi muito com os motoboys, por isso estarei sempre ao lado deles. Esse pessoal é muito corajoso. Dão a vida e se arriscam trabalhando para as pessoas”, afirma.

Outro lado

A reportagem tentou contato com os aplicativos iFood, Uber Eats e Zé Delivery, citados na reportagem.

Em nota, a Uber Eats informou que “oferece gratuitamente ao entregador parceiro um seguro com cobertura de até R$ 100.000,00 em caso de acidentes pessoais que ocorram durante as suas entregas e reembolso de até R$ 15.000,00 em despesas médicas”.

A respeito do caso de Felipe, a Uber escreveu que lamenta o acidente, mas que o suporte do aplicativo não recebeu relatos sobre o ocorrido, e afirmou que o rapaz fez entregas pela empresa apenas em fevereiro.

As outras duas empresas não responderam até o fechamento deste texto.