Escola troca pintores célebres por artista local em Sorocaba (SP)
Projeto durou cinco meses e terminou em exposição de releituras de obras de artista negro em evento da Consciência Negra em escola municipal
São Paulo|Kaique Dalapola, do R7

Saem Van Gogh, Picasso, Monet, Salvador Dali, ou qualquer outro artista célebre. Entram as pinturas do sorocabano Carlos José Casé, 51 anos, e o estudo da vida do pintor nas aulas da escola municipal Professora Ana Cecília Falcato Prado Fontes.
Foi assim que um projeto de cinco meses da escola de Sorocaba, cidade a 105 km de São Paulo, terminou em uma exposição no mês da Consciência Negra. A homenagem ao artista negro, organizada pela professora Alessandra Oliveira e desenvolvida por 45 crianças, caiu nas redes sociais e passou pela linha do tempo de dezenas de milhares de pessoas no Facebook e Twitter.
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“A ideia chegou por meio de um contato da Secretaria Municipal de Educação com a diretoria da minha escola. A diretora, então, passou a ideia para mim. Ela falou: ‘tem um artista na cidade e como a gente sabe que você gosta dessas coisas, você se interessaria em desenvolver um projeto?’”, lembra a professora.

Entusiasta em fazer tarefas multidisciplinares e inovar nas salas de aula, Alessandra diz que “logo de cara” aceitou iniciar o projeto. Com isso, em maio deste ano as obras de Casé começaram a ser relidas por 45 alunos da segunda série do ensino fundamental da escola municipal que fica em um bairro pobre de Sorocaba.
Até o final de outubro, centenas de folhas sulfites foram preenchidas com cores de guache ou lápis, em artes das crianças inspiradas no artista sorocabano. No dia 12 deste mês, as releituras foram expostas na escola e Casé teve o primeiro contato com o trabalho dos alunos, com as crianças e com a professora. Ele afirma que foi um momento histórico que o deixou emocionado.
“Eu tinha um avô que me dizia que o homem quando vem para terra tem que deixar, no mínimo, uma árvore plantada. Quando eu pisei naquela escola e vi que através do amor, da união e da professora, eu plantei uma árvore, me senti realizado. Cada coraçãozinho que brilhava vendo que quem fez aquelas obras realmente existia me mostrou que eu plantei a minha árvore”, diz Casé.
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O artista se recorda que percebeu o dom ainda na infância. Ele diz que desde criança, quando morava na cidade vizinha de São Roque, usava os carvões do fogão de lenha para pintar. “Eu fazia desenhos da minha mãe, de árvores, e minha família admirava muito”, diz. Na escola, ele ainda diz que começou a receber pelas suas obras: “Vinham oferecendo bolacha para eu desenhar alguma coisa, e eu fazia”, lembra aos risos.
Décadas depois, Casé se emociona em dizer que tem suas obras em paredes de casas das pessoas mais ricas até em barracos de favelas, além de ter chegado em diversos países. Hoje, o pintor usa como espaço de trabalho o subsolo do prédio onde está morando enquanto sua casa é reformada. "Eu procuro ficar aqui durante as madrugadas, que é o melhor horário para ter inspiração para pintar", diz.
O pintor afirma que, embora seus quadros sejam vendidos por valores que "somente a elite tem acesso", ele já fez vários doações de suas obras e tem certeza que muitas casas de bairros pobres tem quadros com suas pinturas penduradas na parede. Um dos temas mais abordados por Casé é a cultura afro, principalmente com pinturas de mulheres negras. Agora, a professora Alessandra também conta com um quadro que ganhou no dia da exposição.

Quando Casé chegou na escola, na segunda-feira de exposição, o artista diz que viu sua infância nas crianças na sala de aula. E a professora afirma que as crianças também se viram nele e nas pinturas dele. “Tem um menino que disse que agora quer ser pintor. Outra menina pediu para a mãe colocar lenço na cabeça dela, porque se viu representada pela pintura da mulher negra com um lenço”, conta Alessandra.
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Lembrando do tempo em que pintava com o carvão, que não era o melhor dos materiais, Casé conta que quis presentear os alunos com tinta acrílico e pincéis — que é o ideal para as crianças pintarem. O artista, então, falou de sua vontade para uma amiga e ela decidiu contribuir, doando as tintas.
A responsável pela doação é a empresária Cristina Ghiselini, 55 anos. Ela atua no ramo têxtil, e quando ouviu a história de Casé decidiu comprar as tintas e os pincéis para fazer a doação.

"Me emocionei em saber do trabalho da professora e quis, de certa forma, fazer um pequeno carinho. Eu tenho uma ONG que trabalha com crianças, então quero ajudar em tudo que se refere aos pequenos", diz a empresária.
Para Casé, o trabalho desenvolvido com as crianças de bairros periféricos da cidade de Sorocaba ajuda na luta de combate ao racismo. Isso porque, segundo ele, os alunos começam a ter outras referências que podem seguir como exemplo, seja o artista ou a pintura que está representada.
O que eles não imaginavam é que o projeto renderia tantos elogios e reconhecimentos, extrapolando os limites da cidade, inclusive. “Minha filha publicou a história e daí não parou mais”, diz Casé. “Até o secretário de educação mandou os parabéns e fizeram uma matéria no site da secretaria”, afirma a professora.
A Secretaria Municipal de Educação escreveu no site oficial sobre a exposição na escola, além de ter compartilhado 80 fotos dos trabalhos, do artista e de professoras que participaram do evento, que classificou como “momento de muita emoção”.













