Ex-PM muda de versão pela 3ª vez e é absolvido por morte de vigilante
O ex-soldado disse, durante o júri que durou cerca de 10 horas, que é inocente, nunca matou ninguém e sequer efetuou um disparo
São Paulo|Kaique Dalapola, do R7

O policial militar expulso da corporação José Rogério de Sousa, 34 anos, foi absolvido, no início da madrugada desta sexta-feira (10), pela morte do vigilante Alex de Morais, 39 anos, em outubro de 2015.
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Imagens de câmera de segurança mostram que o vigilante foi atingido por um tiro na nuca logo depois de passar uma motocicleta com dois homens seguida por uma viatura da PM.
O ex-soldado disse, durante o júri que durou cerca de 10 horas, que é inocente, nunca matou ninguém e sequer efetuou um disparo com arma de fogo na madrugada que o vigilante foi morto.
De acordo com o ex-PM, esta versão é mais próxima do que ele falou na primeira vez, ainda durante o registro de ocorrência na Polícia Civil na época do crime.
Na primeira versão, o ex-policial registrou a ocorrência como atropelamento e omitiu qualquer tipo de disparo com arma de fogo. A mudança na última versão — a aceita pelo júri como verdadeira — é que, à época, ele teria dito que o caso foi "possível atropelamento".
A versão de 2015 de que Morais havia sido atropelada foi desmentida quando o laudo do IML (Instituto Médico-Legal) apontou que a causa da morte foi um tiro de uma pistola calibre ponto 380. Os dois policiais militares envolvidos na ação — Sousa e o também ex-soldado Paulo Henrique Rezende da Silva — foram detidos.
Em julho do ano passado, o ex-PM Silva já havia sido absolvido pelo homicídio, mas foi condenado por fraude processual, por ter mentido no processo.
O ex-soldado Sousa afirmou que, enquanto estava na prisão, um advogado teria aparecido e dito que era para ele mentir sobre os fatos. “Quando se está preso, longe de casa e da família, a gente age pela emoção”, disse o ex-PM.
A nova versão (a segunda), que Sousa disse em juízo e para Corregedoria da Polícia Militar, ele assumiu que atirou, mas disse que tinha como objetivo acertar dois motociclista que estaria fugindo de uma abordagem policial.
De acordo com o ex-PM, o combinado com o advogado era dizer que ele atirou com sua arma particular (que é o mesmo calibre que matou o vigilante). Essa prática de usar outro armamento que não seja a oficial dada Polícia Militar — no caso, uma pistola ponto 40 — é proibido.
Sousa afirma que aceitou dar essa versão porque o exame de balística identificaria que não foi a arma particular do ex-policial que matou o vigilante. Ele teria aceitado dar a versão supostamente sugerida pelo advogado.
Ainda conforme Sousa, o advogado teria dito que já tinha feito acordo com o advogado e ele o ex-PM passaria a responder por homicídio culposo (quando não há intenção de matar) até que o exame comprovasse que não foi ele que atirou. Após o laudo, o PM seria absolvido do homicídio, no entanto, expulso da PM. “Fui ingênuo suficiente para acreditar no advogado”.
Durante a reconstituição do crime, apesar aceitar contar a versão supostamente sugerida pelo advogado, o ex-soldado afirma que não disse que atirou, porque “já estava insatisfeito com o advogado”.
Depois da perícia, Sousa afirma que destituiu o advogado e contratou o que defendeu durante o Tribunal do Júri, o doutor Nilton de Souza Vivian Nunes.
Testemunhas
Durante o julgamento, quatro testemunhas de acusação e três de defesa contaram o que viram no dia dos fatos. Das sete pessoas que prestaram seus depoimentos, apenas um presenciou o momento exato dos fatos.
Quando essa testemunha, que foi indicada pela acusação, prestou depoimento, o auditório foi esvaziado. Ela é a única que tem a identidade protegida pela Justiça.
Segundo o promotor de Justiça do caso, Felipe Eduardo Levit Zilberman, a testemunha disse que ouviu os PMs dizendo que fizeram besteira. A promotoria considerou a testemunha de extrema importância, já que foi o único que, de fato, presenciou a morte do vigilante.
Já o advogado que defende o ex-PM afirma que a testemunha protegida "pelo jeito dele, provavelmente era noia".
Além da testemunha protegida, dois militares do Corpo de Bombeiros que atenderam Morais prestaram depoimento. Ambos disseram que, quando chegaram no local, foram comunicados que se tratava de um atropelamento.
Dois companheiros de farda do ex-PM Sousa, capitão Leonardo e soldado Rogério Correia de Moura, também prestaram depoimento e disseram que, enquanto policial, o réu era um excelente profissional.
Tensão com PM
Enquanto familiares de Morais, integrantes de movimentos contra violência do Estado e estudantes de direitos aguardavam nos corredores do Fórum Criminal da Barra Funda prestar depoimento no plenário esvaziado, o soldado da PM Lima entrou em ação pedindo para todo mundo "calar a boca".
O policial militar ainda disse que se tivesse algum "acéfalo ou analfabeto" no local, era para se retirar, pois, segundo ele, o fórum é "um ambiente judicial e imagina-se não ter nenhum analfabeto". A fala gerou indignação entre parte dos presentes, que se manifestaram.
Procurada pela reportagem, a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) disse que "a PM não compactua com desvios de conduta de seus agentes e orienta que quaisquer denúncias sobre a atuação dos policiais sejam formalizadas por meio da Corregedoria da Polícia Militar".













