Funcionários da Santa Casa denunciam falta de água e papel higiênico
Assembleia dos auxiliares de enfermagem acontece nesta quinta-feira (26) pela manhã
São Paulo|Mariana Queen Nwabasili, do R7

Em meio a atual crise financeira pela qual passa a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, funcionários técnicos relatam condições precárias de trabalho, como a falta de bebedouros e de papel higiénico nas áreas de enfermaria.
Para falar sobre essa situação e o receio do não pagamento de salários, o SinSaude-SP (Sindicato dos Auxiliares e Técnicos de Enfermagem e Empregados em Estabelecimentos de Serviços de Saúde em São Paulo) marcou uma assembleia dos técnicos de enfermagem para a manhã desta quinta-feira (26).
Entretanto, o encontro foi cancelado na noite desta quarta-feira (25) em decorrência da falta de espaço para sua realização, segundo o sindicato. Uma nova assembleia deve acontecer no dia 2 de março.
Procurada, a administração da Santa Casa diz, por meio de assessoria de imprensa, que “não há uma falta crônica de material”.
"Há três meses, a Santa Cada internalizou o serviço de logística de suprimentos, que antes era terceirizado. Estamos em um período de transição e adaptação disso. Eventuais faltas [de materiais] podem acontecer, mas estão sendo corrigidas rapidamente nos setores que as registram", afirma a nota.
Greve
Até antes desta quarta-feira, quando a mesa administrativa aprovou as sugestões do Ministério Público Estadual para a intevenção do governo na gestão do hospital, havia a possibilidde de um indicativo de greve ser votado pelos funcionários técnicos.
Uma auxiliar de enfermagem que trabalha há 21 anos no hospital, afirma que a situação dos técnicos é precária e deliciada.
— Pensamos em fazer greve, porque achamos que vamos passar a não receber mais os nossos salários [...] Estamos trabalhando em péssimas condições. Não somos obrigados a trabalhar sem luvas. Trabalhamos seis ou 12 horas sem água para beber e sem papel higiênico nos banheiros. Temos que trazer essas coisas de casa.
Segundo a funcionária, os técnicos têm sofrido pressão dos supervisores e também do sindicato. “A chefia está aliciando funcionários técnicos e auxiliares por meio de diversas punições. É a maneira que eles estão tendo para forçar a dispensa de funcionários. Estamos trabalhando coagidos e sobre pressão”, diz a funcionária.
— O pessoal do Sindicato fala que, se formos fazer greve, poderemos ser demitidos por justa causa, porque greve é abusiva. Mas não é verdade. [...] Além disso, não cotamos com os médicos, porque lá tudo é médico. Os peões que se ferrem.
Em nota, a nova direção da Santa Casa de São Paulo afirmou que "faz uma gestão aberta, inclusive recebendo comissão de médicos e demais funcionários quando solicitado". O órgão diz não ter conhecimento "de nenhuma denúncia de que seus funcionários estejam sendo pressionados ou coagidos por superiores".
"Tal comportamento não faz parte dos princípios e valores que norteiam a instituição e deixa claro que, identificando tal comportamento por qualquer integrante da Irmandade, tomará providências imediatamente", prossegue a nota.
Para um médico membro do movimento Santa Casa Viva, que não quis se identificar, alguns funcionários técnicos têm tido posturas radicais.
— Tem gente que acha que teríamos que entrar em greve desde que completou um mês de atraso de salários. Não tem muito o que fazer. A briga por salário cabe ao sindicato. Nós temos que tentar fazer com que a Santa Casa continue funcionando.
Financeira e política
A crise financeira pela qual a Santa Casa passa teve seu estopim em julho de 2014, quando a entidade fechou o seu pronto-socorro por 28 horas por falta de infraestrutura.
Em dezembro do último ano, um rombo no orçamento da instituição fez com que 11 mil funcionários não recebessem o 13º — cerca de 669 trabalhadores continuam sem o pagamento.
O valor real do déficit do complexo hospitalar chega a R$ 800 milhões, conforme a investigação de técnicos da BDO RCS Auditores Independente.
A situação expôs a gestão do atual provedor (equivalente ao presidente do hospital), o advogado Kalil Abdalla. Ele assumiu a gestão da Santa Casa pelo terceiro mandato consecutivo em abril de 2014.
Frente à crise, em dezembro, Abdalla pediu uma licença de 90 dias. Atualmente, o advogado enfrenta pressão do movimento Santa Casa Viva, liderado por médicos, para renunciar ao cargo. Ruy Altenfelder, vice-provedor, atua hoje como provedor do hospital.
Santa Casa suspende plano de demissões cogitado para conter crise financeira
Articulação na Santa Casa abre caminho para pedido de renúncia do atual provedor













