São Paulo Governo de SP se omite sobre possível guerra entre facções

Governo de SP se omite sobre possível guerra entre facções

Mensagens em redes sociais causam medo na população. Suposto recado diz que 'guerra entre facções existe, mas não atingirá terceiros'

Governo de SP se omite sobre possível guerra entre facções na capital

Imagem com suposta ameaça à facção criminosa PCC circula nas redes sociais

Imagem com suposta ameaça à facção criminosa PCC circula nas redes sociais

Reprodução

Com o aumento do número de mensagens que circulam nas redes sociais com um alerta sobre possíveis confrontos entre facções criminosas no Estado de São Paulo, o R7 questionou a SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo) sobre a veracidade dos avisos.

A pasta, que tem à frente o secretário Mágino Alves Barbosa Filho, no entanto, não respondeu se “a população paulista deve ficar atenta a possíveis conflitos de facções no Estado ou se não existe confrontos entre facções criminosas em São Paulo”.

Durante as 48 horas em que mais circularam mensagens, entre a manhã de 8 de janeiro e o início da noite do dia 9 — quando o R7 questionou a SSP-SP sobre os conteúdos —, a reportagem teve acesso a mais de 100 áudios, vídeos e fotos apontando uma possível união entre as facções criminosas CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade), CV (Comando Vermelho) e FDN (Família do Norte) para disputar pontos de tráfico de drogas dominados pelo PCC (Primeiro Comando da Capital).

Algumas mensagens buscavam espalhar o pânico, dizendo sobre ataques a mulheres e familiares de pessoas que estão presas no sistema carcerário paulista. Outras mensagens chegavam a citar que “os caras [rivais do PCC] estão invadindo tudo, matando os irmãos, moradores e até crianças”. Alguns bairros da capital chegaram a ter um suposto toque de recolher por conta das mensagens.

A maioria dos recados, no entanto, falava sobre criminosos sendo mortos em diversos pontos da cidade de São Paulo durante uma suposta disputa de traficantes. Entre as mensagens espalhadas, até fotos de crimes antigos (como a chacina de Osasco, em 2015), faziam parte do conteúdo.

Por outro lado, imagens inéditas começaram a circular — como o vídeo publicado pelo R7, no sábado (6), que mostrava supostos integrantes da facção CRBC sendo torturados. A queima de um ônibus na Cidade Ademar, zona sul de São Paulo, na noite de segunda-feira (8), é outro caso verdadeiro que chegou entre as mensagens.

Ainda em 9 de janeiro, a reportagem teve acesso à primeira mensagem que dizia que eram mentira os supostos confrontos. A mensagem, que teria sido assinada pela cúpula do PCC, diz que "a guerra entre facções existe mas não atingirá terceiros, somente integrantes". A mensagem ainda dizia que a facção criminosa não aceitaria "mortes de inocentes que não são integrantes de facções".

Ações policiais 

Embora não se pronuncie oficialmente sobre o envolvimento de facções criminosas, em menos de duas semanas a polícia chegou a pelo menos três "tribunais do crime" e libertou pessoas que estavam sendo mantidas reféns.

No primeiro caso, ocorrido na segunda-feira (8), três homens estavam em posse de um homem armado na Comunidade do Belenzinho, região do Belém (zona leste de São Paulo). Seis dias depois, outros quatro homens eram mantidos reféns de cinco suspeitos na Mooca, ainda na zona leste paulistana.

O mais recente aconteceu na tarde desta sexta-feira (19), quando a Polícia Militar chegou a um "tribunal do crime" em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo. Na ocorrência, três homens foram libertados e duas pessoas foram presas.

O R7 enviou para a SSP-SP, às 18h de 9 de janeiro, um compilado do conteúdo propagado nas redes sociais. Dentre o que foi enviado à pasta, estavam a foto de uma caçamba de lixo escrita “FDN — Todo PCC vai morrer”, vídeos de supostos integrantes das facções rivais do PCC sendo mantidos de reféns e áudios que seriam “salves” (mensagens de liderança do PCC), alertando para os possíveis confrontos.

A reportagem também questionou sobre o possível envolvimento de um delegado aposentado da Polícia Civil paulista que, em um dos vídeos, é citado como responsável por guardar armamentos de uma facção criminosa rival do PCC.

Além das mídias, o R7 perguntou se existem investigações das inteligências das polícias Militar e Civil acerca de possíveis conflitos entre facções criminosas em São Paulo, se há registro de vítimas de confrontos entre facções criminosas neste ano e se as polícias Militar e Civil têm informações de disputa de pontos de tráfico de drogas no Estado.

A secretaria enviou a mesma nota (íntegra abaixo), nos dias 10 e 18 de janeiro, dizendo que “o trabalho contra o crime organizado é realizado diuturnamente, com emprego de inteligência, tecnologia e cooperação entre as polícias Civil e Militar”.

Explicando este trabalho, a pasta citou como exemplo a Operação Ethos, que prendeu 53 advogados supostamente ligados à facção criminosa PCC no final de 2016. A pasta, no entanto, não respondeu sobre possíveis confrontos entre facções este ano.

Em outro ponto da nota, a SSP-SP cita o programa de monitoramento Detecta, que é um sistema de monitoramento que envia informações a policiais militares e civis. Entretanto, não disse se as mensagens que atualmente circulam nas redes sociais falando sobre supostos assassinatos motivados por brigas entre facções são verdadeiras.

Por fim, a nota da secretaria destaca as “taxas de homicídios apresentadas desde o início da série histórica, em 2001”, ainda sem citar os possíveis assassinatos nos 10 primeiros dias de 2018, que teriam sido motivadas por confrontos entre facções criminosas.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo também não mencionou, na nota, a pergunta sobre o delegado aposentado da Polícia Civil que o R7 questionou com base em informações contidas em um dos vídeos.

Leia a íntegra da nota da SSP:

A Secretaria da Segurança Pública informa que o trabalho contra o crime organizado é realizado diuturnamente, com emprego de inteligência, tecnologia e cooperação entre as polícias Civil e Militar. Graças a esse trabalho que diversas operações foram deflagradas, vale lembrar da Ethos, realizada no final de 2016, que resultou na prisão de 53 advogados ligados a facções criminosas. Além disso, o trabalho policial possibilitou que de janeiro a novembro de 2017 fossem apreendidas mais de 190 toneladas de drogas, 17% a mais que no mesmo período de 2016, e que fossem retiradas das ruas mais de 14 mil armas de fogo.

SP é o Estado que mais investe em segurança. O Detecta, ferramenta de Big Data que emite alerta e integra bancos de dados policiais e de outros órgãos, é um exemplo disso. Atualmente há 5.274 câmeras em pelo menos 2.128 pontos do Estado. O sistema, desde 2014, ajudou na prisão de 5.985 pessoas em flagrante, na interceptação de 4.290 veículos e na apreensão de 394 armas de fogo.

As ações realizadas pelo Governo do Estado ao longo dos anos possibilitaram que as polícias combatessem a criminalidade de forma eficiente. Isso pode ser constatado nas taxas de homicídios apresentadas desde o início da série histórica, em 2001, que foi de 33,3 homicídios a cada 100 mil habitantes. Hoje a taxa está em 7,56/100 mil. É importante dizer que o Estado tem os melhores indicadores de criminalidade do Brasil, de acordo com o 11º Anuário do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado no final de outubro de 2017. O estudo aponta que a taxa de pessoas mortas em São Paulo é 3,2 vezes menor que a média nacional.

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