Idosa de 88 anos leva saúde e bem estar para a periferia de São Paulo
Nos 465 anos de São Paulo, o R7 apresenta moradores que doam parte do seu tempo para tornar a capital paulista um lugar melhor para se viver
São Paulo|Plínio Aguiar, do R7

Uma senhora de estatura baixa, olhos puxados, cabelos curtos grisalhos e as mãos entrelaçadas aguarda, silenciosamente, os 50 alunos entrarem no salão do terceiro andar do Centro de Referência do Idoso de São Miguel Paulista, bairro periférico do extremo leste de São Paulo. Calcula-se que na capital 1,6 milhão de pessoas estão acima de 60 anos. Segundo o estudo da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo), quase a metade dos idosos (49,4%) considera ter a saúde acima da média, enquanto 44,1% avaliam a própria condição como regular, e 6,5%, ruim.
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O relógio marca 10 horas de uma quarta-feira escaldante. Os aprendizes começam a entrar e a se acomodar. Passados menos de cinco minutos a professora Emilia Miura, de 88 anos, inicia a aula de Tai Chi Pai Lin, prática milenar taoísta de união e equilíbrio do homem com a natureza, para outros também velhinhos.
Emilia fica posicionada sob um caixote de madeira em frente a parede do salão, de costas para os seus alunos, que repetem cada movimento que a senhora faz. A voz baixa da professora quase se perde em meio ao som que se propaga no ambiente de cerca de 200 metros quadrados: uma caixa de som é posicionada no canto do salão e ecoa canções instrumentais japonesas. Na sala ao lado, um grupo, de também idosos, tocam e cantam “O bêbado e a equilibrista”, de Elis Regina, de 1979.
Os movimentos, repetidos diversas vezes, são feitos pelos alunos sem reclamações – apenas um exclamou “ai” enquanto se alongava. “A prática faz bem para idosos, para crianças, para qualquer um. E leva tempo para aprendê-la”, diz Emilia.
“São Paulo é o meu lugar. Aqui é a minha casa”
Natural de Marília, município a 438 km da capital paulista, a senhora morou no interior até os 29 anos. Não se graduou em nenhum curso, mas nunca foi um problema para ela, que diz que aprendeu “e muito” com a vida. “Observo as pessoas, as formas de interação, de realização de sonho. Eu estudei a vida.” Em São Paulo, ajudou uma irmã a manter uma pensão para estudantes. “Os jovens nos ensinam muito”, ri, lembrando de uma história engraçada. “Uma vez tiraram o estrado da cama e deixaram apenas o colchão. O jovem foi deitar e caiu”, conta.
Depois de três anos, retornou à Marília. Mas não demorou muito e voltou para a capital paulista. “São Paulo é o meu lugar. Aqui é a minha casa”, acredita. Emilia, sempre com a voz firme, penteia os curtos cabelos com os dedos e segue contando sua história. “Aos 33 anos, pensei que era a hora de casar”, relembra. “E até hoje sou casada com o mesmo homem.” — Ambos completam 55 anos de casados em 2019.

A prática milenar taoísta entrou na vida de Emilia quando a mesma teve isquemia cerebral, causada pela falta de fornecimento sanguíneo para um tecido orgânico. Aos 68 anos, aprendeu com uma das filhas o Tai Chi Pai Lin. Ela conta que melhorava a distribuição de sangue em seu corpo, além de conectar com ela mesma. “E não parei aí. Faço os exercícios todos os dias, sem descanso”, diz. Mas a motivação de levar uma vida mais satisfatória não era simplesmente para ela. Emilia também queria uma vida melhor para os outros. E há pelo menos 15 anos é assim.
Ela acorda, todos os dias, às 5h30, toma banha e prepara o café. Em seguida, sai de casa, no Conjunto Habitacional José Bonifácio, para ir dar aula da prática taoísta (às segundas-feiras no Parque Raul Seixas; às terças-feiras no CRI São Miguel Paulista; às quartas-feiras na Praça Brasil, às quintas-feiras na Subprefeitura de Itaquera e às sextas-feiras na Casa de Cultura de Itaquera). Todos os alunos são idosos, de baixa renda e também de baixa escolaridade, mas, de acordo com Emilia, “cheios de vontade de aprender e melhorar o estilo de vida”.
“Vamos nos preocupar com nós mesmos%2C sem pensar no que os outros vão pensar "
“Precisamos olhar para a nossa cabeça. Ela é o topo do nosso corpo. Se a cabeça estiver bem, o corpo vai funcionar bem também”, avalia Emilia. “Por isso, o Tai Chi é tão importante, porque faz você se exercitar, melhorar toda a questão sanguínea, e alivia a cabeça”.
Nesta sexta-feira (25), a capital completa 465 anos. E Emilia deseja para a aniversariante mais amor e leveza. “Não vamos nos preocupar com os outros. Vamos nos preocupar com nós mesmos, sem aquela pergunta de o que os outros vão achar de tal coisa”, diz. “Esse é o meu presente, e desejo, para São Paulo”.













