Major é interrogado após silêncio de 18 réus durante júri de massacre do Carandiru
Segundo julgamento do Carandiru acontece no Fórum Criminal da Barra Funda
São Paulo|Julia Carolina, do R7

Começou, por volta das 18h35, o interrogatório do major Marcelo González Marques. Antes dele, 18 réus acusados de participação na morte de 73 presos no episódio conhecido como massacre do Carandiru preferiram ficar em silêncio. O júri entra em seu terceiro dia nesta quarta-feira (31), no Fórum Criminal da Barra Funda, zona oeste de São Paulo.
Os réus que se recusaram a responder as perguntas da acusação foram: Carlos do Carmo Brígido Silva, Luís Antônio Alves Tavares, Carlos Alberto Siqueira , Ítalo Del Nero Prado, José Carlos do Padro, Marcos Gaspar Lopes, Ariovaldo dos Santos Cruz, Roberto Alves de Paiva (que apenas mostrou o local onde foi ferido no braço), Valquimar Souza Gomes, Pedro Laio Moraes Ribeiro, Mauro Gomes de Oliveira, Roberto Lino Soares Penna, Valter Tadeu Andrade Assis, Antônio Aparecido Roberto Gonçalves, Marcos Heber Frederico Júnior, Raphael Rodrigues Pontes, Alex Morello Fernandes, Benjamin Yoshida de Souza.
Todos afirmaram que são inocentes e que receberam orientações da advogada, Ieda Ribeiro de Souza, para ficarem calados. Apesar disso, a acusação fez perguntas.
O primeiro réu a ser ouvido foi o coronel da Polícia Militar Valter Alves de Mendonça. Seu interrogatório durou aproximadamente três horas. A testemunha destacou em várias ocasiões “não se lembrar” de detalhes. Ele, inclusive, renegou declarações dadas por ele durante uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) sobre o massacre em outubro de 1992, na Casa de Detenção.
Coronel da PM relembra preso sem cabeça e fala em “medo de tomar tiro”
Em pergunta feita pelo juiz Rodrigo Tellini de Aguirre Camargo, ele afirmou que, pela Rota, ele não tinha experiência em invasões a presídios, apenas em “cadeias distritais”. Mais adiante, confrontado pela promotoria, porém, o coronel destacou já ter debelado uma rebelião no Carandiru, “em 1981 ou 1982”, em uma situação que envolvia reféns e teve mortes.
Em seu interrogatório, Mendonça afirmou que as primeiras equipes da Rota (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar) a entrarem no pavilhão nove encontraram alguns presos, que foram reunidos no meio do pátio, e “quatro corpos, um deles sem cabeça”, de acordo com Mendonça.
Após um preso indicar a entrada e as escadas, os policiais encontraram barricadas, fumaça e “mais dois corpos”. A tropa então subiu, “em meio a muito óleo avermelhado”, segundo palavras do coronel, quando teriam ocorrido os confrontos.
Primeiro dia
O primeiro dia foi marcado pela dispensa de sete das oito testemunhas da acusação. Apenas o perito criminal Osvaldo Negrini foi interrogado. Ele disse ter visto um “mar de cadáveres” e presenciado um “rio de sangue” ao chegar à Casa de Detenção no dia 2 de outubro de 1992. O depoimento de Negrini começou por volta das 14h10 e terminou pouco depois das 16h30.
Segundo dia
No segundo dia do júri, os jurados ouviram no plenário o ex-secretário de Segurança Pedro Franco de Campos e o ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho. Além deles, mais duas testemunhas protegidas prestaram depoimento.
A defesa ainda exibiu dois vídeos com depoimentos dos desembargadores Luiz San Juan França e Ivo de Almeida. França era juiz da Vara das Execuções Criminais da Capital em 1992, ano em que 111 detentos da então Casa de Detenção de São Paulo foram mortos após a entrada da Tropa de Choque da Polícia Militar para conter uma rebelião na unidade prisional. Já Almeida era corregedor dos Presídios da Capital na época dos fatos.
Relembre o caso
O massacre do Carandiru começou após uma discussão entre dois presos dar início a uma rebelião no Pavilhão 9. Com a confusão, a Tropa de Choque da Polícia Militar, comandada pelo coronel Ubiratan Guimarães, foi chamada para conter a revolta. A ação deixou 111 mortos. Ao todo, 286 policiais militares entraram no Complexo Penitenciário do Carandiru para conter a rebelião em 1992, desses 84 foram acusados de homicídio.
Em abril de 2013, 26 policiais militares foram levados ao banco dos réus pela morte de 15 detentos no segundo pavimento do pavilhão nove no massacre do Carandiru. Após sete dias de julgamento, a maioria foi condenada por homicídio qualificado — com uso de recurso que dificultou a defesa da vítima. Naquela ocasião, seis homens e uma mulher formaram o Conselho de Sentença.
Dos 26 policiais, 23 foram condenados a 156 anos de prisão, inicialmente, em regime fechado. Os réus receberam a pena mínima de 12 anos por cada uma das mortes dos 13 detentos. Os condenados poderão recorrer em liberdade. Outros três PMs foram absolvidos pelo júri, que acatou o pedido feito pela acusação.
Antes deles, Ubiratan Guimarães chegou a ser condenado a 632 anos de prisão, porém, um recurso absolveu o réu e ele não chegou a passar um dia na cadeia.
Em setembro de 2006, Guimarães foi encontrado morto com um tiro na barriga em seu apartamento nos Jardins. A ex-namorada dele, a advogada Carla Cepollina, foi a julgamento em novembro do ano passado pelo crime e absolvida.
Dezessete testemunhas foram convocadas. Onze de acusação e seis de defesa. Do total, 12 eram aguardadas no tribunal, enquanto as outras cinco teriam vídeos dos seus depoimentos apresentados no plenário.









