Planejamento de décadas faz com que falta d’água passe longe de Jundiaí
Cidades vizinhas chegaram a enfrentar racionamento durante o ano passado
São Paulo|Fernando Mellis, do R7

A falta de chuvas que evidenciou a crise hídrica no Estado de São Paulo e prejudicou o abastecimento em diversas cidades paulistas, inclusive na região metropolitana, parece ter passado longe de Jundiaí, a 60 km da capital. A represa que abastece o município, de 398 mil habitantes, está com 100% da capacidade de armazenamento. Segundo Jamil Yatim, diretor-presidente da DAE S.A., empresa responsável pelo serviço de água e esgoto na cidade, essa reserva é suficiente para o abastecimento durante dois meses em um cenário de seca absoluta.
— A situação é confortável. Há, sim, uma preocupação se a estiagem continuar. Mas a situação é melhor do que Campinas, por exemplo. [...] A represa é a nossa poupança. Se não tivesse, já estaríamos no cheque especial.
Jundiaí está em quinto lugar no ranking de saneamento básico do Instituto Trata Brasil, que inclui cem municípios. O trabalho não é de hoje. O principal rio que abastece a cidade, desde a década de 1940, é o Jundiaí-Mirim. Em 1953, a primeira represa foi construída. Mas só isso não seria suficiente para garantir água a todos os moradores ao longo dos próximos anos. Em 1975, o então prefeito Ibis da Cruz conseguiu com o Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica) uma autorização para captar água do rio Atibaia nas épocas de seca.
A cidade se salvou da crise graças a essa outorga e à represa que possui. Segundo Yatim, durante todo o ano passado, o DAE precisou bombear água do rio Atibaia, porque a vazão do Jundiaí-Mirim não era suficiente para o abastecimento. Já faz mais de 20 dias que isso não é mais necessário, devido às chuvas.
O professor de engenharia de biossistemas da USP (Universidade de São Paulo) Fernando Campos Mendonça diz que todos os prefeitos de Jundiaí tiveram “bom senso” na administração dos recursos hídricos.
— Sempre teve planejamento e continuidade, coisa que a gente não costuma ver muito no Brasil. Isso garantiu à cidade uma segurança que outros vizinhos não têm, porque não planejaram.
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Cidades próximas (Vinhedo, Valinhos, Rio das Pedras e Cordeirópolis) chegaram a ter rodízio durante boa parte do ano passado. Itu enfrentou uma das situações mais críticas. Caixas d’água gigantes foram instaladas em locais públicos para aliviar o drama dos moradores. A empresária Sônia Duarte, dona de dois restaurantes em Jundiaí, conhece bem a dificuldade de ficar sem água.
— Meus pais moram em Itu e chegaram a passar uns tempos aqui na minha casa porque lá estava impossível fazer qualquer tarefa do dia a dia. [...] Eu agradeço sempre por não termos passado por isso em Jundiaí, não sei como lidaria com a falta de água, principalmente nos restaurantes.

Para que nenhum morador sofra com as mudanças do clima no futuro, a única solução continua sendo o planejamento. A capacidade da represa que abastece a cidade, que hoje é de 8 bilhões de litros, vai ser aumentada para 9,3 bilhões. Daqui a dois anos, começam mais obras. O objetivo é armazenar 12,5 bilhões de litros. E não é só isso, segundo Yatim.
— Nós vamos construir seis reservatórios de 5 milhões de litros em cinco pontos diferentes da cidade. Os recursos do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento] vão ser de R$ 41 milhões. Quando estiverem prontos, não haverá mais necessidade de fechar o fornecimento em vários bairros para efetuar reparos na rede. Também estamos trocando 60 km de encanamento antigo, já trocamos 30 km. Canos de 80 anos. Com canalização antiga, a pressurização de dia é uma e à noite é outra, acaba estourando.
Cuidados e conscientização
O professor Fernando Mendonça ainda destaca outra ação que coloca Jundiaí à frente de outros municípios no quesito água.
— Eles estão fazendo todo um trabalho de recuperação da mata ciliar do rio Jundiaí-Mirim. De nada adianta ter o rio se ele não for limpo.
Não é porque o risco de falta d’água é pequeno que os moradores não estejam atentos. A vendedora Lúcia Camargo conta que a economia de água é um hábito diário.
— Meu filho de oito anos já aprende na escola que não pode escovar os dentes com a torneira aberta e nem demorar no banho. A gente já sabe disso em casa, mas tem pessoas que não. Por isso é importante que a preocupação com a água faça parte do aprendizado deles.
Apenas com campanhas de conscientização, o consumo de água em Jundiaí caiu 15% no ano passado, segundo dados do DAE. Yatim diz que aposta na população, mas que isso não diminui o papel das autoridades no planejamento hídrico.
— Nunca vimos algo parecido com a seca que estamos vivendo aqui no Sudeste. Nem imaginávamos isso. Temos que pensar em como vamos ter água para as pessoas no futuro. Fazer as obras hoje é a melhor forma de evitarmos o que infelizmente está acontecendo em outras cidades.
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