Logo R7.com
RecordPlus

PMs batem ponto eletrônico para fazer segurança de empresário

Testemunha de defesa de policial relata esquema profissional de "bico"

São Paulo|Peu Araújo, do R7*

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Depoimento do empresário no Fórum de Carapicuíba
Depoimento do empresário no Fórum de Carapicuíba

Um empresário do setor imobiliário afirmou em depoimento à Justiça no Fórum de Carapicuíba, Grande São Paulo, que emprega 17 policiais militares em seu quadro de funcionários mensalmente, inclusive com pontos eletrônicos para registrar a entrada e saída da equipe (veja vídeo do depoimento abaixo).

De acordo com a Lei Complementar 893/2001, que institui o Regulamento Disciplinar da PM, “ao militar do Estado em serviço ativo é vedado exercer atividade de segurança particular, comércio ou tomar parte da administração ou gerência de sociedade comercial ou dela ser sócio ou participar, exceto como acionista, cotista ou comanditário”. A determinação consta do parágrafo 1º do item 35 do artigo 8º da lei.


O item 26 do artigo 13º da mesma lei classifica como falta disciplinar grave a desobediência ao veto à atividade de segurança particular.

No depoimento, de cerca de 10 minutos prestado em junho de 2016, o empresário conta que os PMs trabalham armados — nos dias em que estão de folga da corporação — das 7h às 19h e a escala funciona sete dias por semana. A testemunha afirmou não saber se a arma usada pelos policiais é ou não da corporação.


“Tem uma base lá, tem o ponto eletrônico. Eles 'dão' [levanta o dedo indicador fazendo o movimento de bater o cartão] o ponto biométrico. No final do mês tem o líder deles que puxa aquilo lá, faz as aferições e paga”. O empresário afirma que o pagamento é feito por depósito bancário.

Todos os funcionários da equipe de segurança do empresário são cadastrados para entrar no condomínio em que a família mora. Eles são registrados com fotografias, apresentam documentos e têm as placas dos veículos cadastradas.


Os policiais são utilizados para a segurança particular do empresário e de toda a sua família. “Qualquer membro da minha família, onde estiver, vai ter dois policiais militares”, afirmou. Ele conta que adotou a medida, no dia 1º de junho de 2006, depois de um familiar ser sequestrado e permanecer 47 dias na mão dos criminosos.

Nos 10 anos de escolta armada, o empresário afirma ter trabalhado com mais de 120 policiais.


Custo de vida

A prática de trabalhos fora do expediente entre os policiais é conhecida como “bico”. Presidente da Anaspra (Associação Nacional de Praças das Polícias Militares Estaduais) e membro do Conselho de Administração do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), o cabo Elisandro Lotin afirma que “o policial se vê obrigado a fazer esse trabalho paralelo porque não consegue sustentar a família”.

“Em Estados grandes, como São Paulo ou Rio de Janeiro, onde o custo de vida é muito alto, isso é quase uma obrigação”, afirma Lotin.

O policial militar acrescenta que “o Estado faz vistas grossas para isso, ele não cobra essa norma interna das instituições, porque não paga um salário condizente com a necessidade, ou com a realidade. Aí fecha o olho para essas situações.”

Mortes no 'bico'

O bico também está relacionado com a morte de policiais.

Publicada pelo Instituto Sou da Paz, a pesquisa Linha de Frente - Vitimização e letalidade policial na cidade de São Paulo, que se debruçou sobre as circunstâncias nas quais policiais foram mortos nos anos de 2013 e 2014, segundo os BOs (boletins de ocorrência), aponta que “aproximadamente 9% das ocorrências [de mortes de policiais] analisadas trouxeram informações ou indícios de que o policial estaria exercendo atividade de segurança particular quando foi morto”. A taxa supera a de mortos em serviços (7,5%).

“Algumas vezes a família não informa a questão do bico, e essa informação acaba não chegando ao BO; e é possível que as investigações policiais cheguem a um número maior”, afirma Stephanie Morin, coordenadora de gestão do conhecimento do instituto Sou da Paz. O levantamento indica ainda que outros 11,9% foram assassinados “tentando impedir crimes contra terceiros”.

Para a pesquisadora, porém, os números sugerem que o impacto do “bico” nas mortes de policiais não é tão alto quanto se imagina. “Nossa pesquisa revelou que é um mito a crença de que a maioria de policiais morrem durante o bico”, diz Stephanie.

O estudo do Sou da Paz indicou que a circunstância mais comum de morte de policiais é o latrocínio (29,8% dos casos) seguida por assassinatos com indício de premeditação (20,9%).

Réu de chacina

O depoimento do empresário foi dado na primeira fase do julgamento contra o soldado Victor Cristilder dos Santos, um dos quatro acusados pela série de ataques em Osasco, Carapicuíba e Barueri em 2015.

O julgamento do PM foi desmembrado dos outros três réus, que foram a plenário de 18 a 22 de setembro deste ano. Fabrício Eleutério foi condenado a 255 anos, 7 meses e 10 dias; Thiago Henklain, a 247 anos, 7 meses e 10 dias; e Sérgio Manhanhã a 100 anos e 10 meses.

Cristilder deve ir a júri em janeiro. A data, porém, ainda não foi definida. O empresário citado nesta reportagem será uma das testemunhas de sua defesa.

Defesa e PM não se manifestam

O R7 procurou a defesa do soldado por telefone, mas tanto no escritório quanto no celular não conseguiu o contato. Questionada sobre se alguma medida foi adotada após o depoimento do empresário e sobre recomendações a policiais sobre "bicos", a Polícia Militar não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Leia mais notícias de São Paulo

*Colaborou Gustavo Basso, do R7

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.