Polícia indicia suspeito de estuprar universitária em festa da Atlética Medicina da USP
Caso foi apresentado durante audiência na Alesp, realizada na semana passada
São Paulo|com R7

A delegada Celi Carlota, da 1ª DDM (Delegacia da Mulher), indiciou, na terça-feira (18), um homem suspeito de estuprar uma estudante da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), em 2011. O caso foi denunciado publicamente na Assembleia Legislativa, na semana passada, e motivou novas denúncias e a proibição temporária de festas no campus.
O homem continua em liberdade. De acordo com a Secretaria da Segurança, faltam dois depoimentos para encerrar o inquérito e remetê-lo à Justiça.
Na época do crime, o suspeito era funcionário terceirizado da USP e participava da festa Carecas no Bosque, organizada pela Associação Atlética Acadêmica Oswaldo Cruz da FMUSP. A vítima dormia na barraca do judô, em um local chamado "cafofo". Segundo testemunhas, o funcionário ofereceu dinheiro para os seguranças da festa para que pudesse entrar na barraca.
Assista ao vídeo que mostra universitário sendo agredido por ser contra castigo físico:
Durante a audiência pública realizada no dia 11 deste mês, pela Comissão de Direitos Humanos da Alesp, a estudante relatou que ficou desacordada após tomar uma mistura de destilados.
— Na barraca, eu bebi algumas doses de uma suposta tequila. Na verdade, eles vendem como tequila, mas é uma mistura de destilados [...] Bebi algumas que me foram oferecidas por um menino da minha turma. Depois, não tenho mais memória do que aconteceu. Fui acordar no hospital, em um atendimento do pronto-socorro.
Por meio de uma testemunha, um atleta do judô, ela ficou sabendo que um homem estava sobre ela, com a calça abaixada.
— Falei que tinha vontade de denunciar. Nesse momento, ele [o atleta] falou para mim que eu não deveria fazer isso, porque não teria como provar.
Segundo a jovem., ela também teria sido desencorajada por estudantes a levar à diante a denúncia. A universitária, que procurou sua ginecologista particular para fazer exame de corpo de delito, acionou a polícia, registrou ocorrência.
— Nesse meio tempo, eu ia conversar com meus colegas de turma. Alguns que estavam na barraca e, de certa forma, presenciaram o que tinha acontecido. Eles me falavam que eu tinha que esquecer aquilo, que eu tinha culpa pelo que havia acontecido, porque tinha bebido muito e que eu tinha que tocar minha vida.
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Desestimulada, ela acabou, em um primeiro momento, deixando o inquérito policial de lado.
— Retomei neste ano. Foi quando descobri diversas coisas que eu não sabia na época. A testemunha principal só foi chamada para depor neste ano. No relato dele, ele disse que eu estava totalmente desacordada e que teve dificuldade em me acordar. Na época, muitos colocaram a dúvida. Será que foi consentido? Você não sabe. Estava bêbada [...] Descobri que o funcionário conseguiu entrar na barraca porque deu dinheiro para os seguranças e, no depoimento dele, ele falou que deu dinheiro para dois alunos que estavam na barraca. Fiquei quase três anos sem saber o que havia acontecido.
Além dela, outra aluna relatou na audiência da Alesp ter sido estuprada, em 2013, durante festa da FMUSP, a Cervejada do Sexto Ano. A universidade afirma que uma sindicância apura o caso.
Outros universitários ainda contaram episódios de racismo, homofobia e machismo nas confraternizações da FMUSP, principalmente em trotes. A advogada de defesa do rapaz, Nereide de Oliveira, não foi encontrada pela reportagem até as 23h de quarta-feira (19).
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Álcool
Nesta quarta-feira (19), o presidente da comissão da FMUSP que investiga casos de violência na instituição, Milton de Arruda Martins, foi ouvido pelo Ministério Público. O órgão recebeu, pelo menos, denúncias de oito casos de abuso sexual na faculdade. De acordo com Martins, foram apresentadas à promotora Paula Figueiredo, dos Direitos Humanos, medidas estudadas pela FMUSP para coibir atos de violência. Entre elas, está maior controle sobre as festas e sobre a venda de bebida alcoólica nos eventos promovidos na instituição.
— Nossa proposta inicial não é a proibição (do álcool), mas uma política de redução de danos. Por exemplo: negociar que em festas só seja possível o consumo de bebidas de baixo teor alcoólico, que seja proibido o 'open bar', que as bebidas sejam vendidas, que haja líquidos não alcoólicos à vontade e alimentos.
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Ele defendeu "a proibição total significa fazer com que festas sejam realizadas fora do campus. Essa pode ser uma solução que resolve o problema do diretor, mas não resolve o problema da sociedade". As medidas serão avaliadas pela diretoria.
Dez casos
Ele afirmou que, somando casos de abuso sexual, racismo, homofobia e outros tipos de violência, são, pelo menos, dez casos de violações de direitos humanos que chegaram ao conhecimento da comissão. Questionado sobre uma possível omissão da FMUSP, Martins admitiu que houve falha.
— Acho que nossa instituição deve se sentir responsável, sim, porque se aconteceram abusos na nossa instituição não devíamos ter permitido isso. Podíamos não saber, mas isso não é desculpa, temos de assumir nossa responsabilidade.
A Promotoria informou, em nota, que terá reunião na segunda-feira (24), com a Procuradoria da USP e com a diretoria da FMUSP para análise das propostas formuladas pela faculdade. Professor da FMUSP, Martins assumiu a presidência da comissão após a saída do também docente Paulo Saldiva, que deixou a função após denúncias apresentadas na Alesp. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.













