SP tem 43 apreensões de menores de idade por dia
Número cresceu 2,58% no primeiro trimestre deste ano em relação ao mesmo período de 2014
São Paulo|Do R7
Por dia, são emitidos no Estado de São Paulo 43 autos de apreensão de menores de 18 anos — quase dois por hora. E o número cresceu 2,58% na comparação entre o primeiro trimestre deste ano e o mesmo período do ano passado, passando de 3.794 registros para 3.892, conforme mostram os dados de criminalidade divulgados nesta sexta-feira (24) pela Secretaria da Segurança.
Os números levam em consideração os casos envolvendo o artigo 173 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente). É quando, em caso de flagrante de ato infracional cometido mediante violência ou grave ameaça a pessoa, a autoridade policial lavra auto de apreensão, ouve as testemunhas e o adolescente, apreende produtos e requisita os exames ou perícias.
A Secretaria da Segurança não divulgou os números com especificação dos crimes. Mas o Estado mostrou, no dia 30, com base nas informações mais recentes da Fundação Casa, que o homicídio corresponde a 1,61% das ocorrências que levam menores de 18 anos a serem detidos no Estado.
Segundo os dados, 161 dos 9.951 jovens atendidos pela instituição até este mês cometeram o crime. Em primeiro lugar está o roubo qualificado, com 4.377 casos (43,98%), seguido por tráfico, com 3.806 ocorrências (38,24%). Considerando roubo simples (3,78%), essas motivações respondem por 86% das detenções.
Atualmente, adolescentes com mais de 16 anos e menos de 18 que se envolvem nessas ocorrências são encaminhados para a Fundação Casa, onde cumprem pena por até três anos. "Mas normalmente ficam um ano", observa Ari Friedenbach, cuja filha, Liana, foi assassinada pelo menor Champinha em 2003. A situação desses jovens voltou a ser debatida com a análise pela Câmara da PEC 171/1993, que determina a redução da maioridade para 16 anos.
Quando a juventude é interrompida pela criminalidade, as consequências podem ser fatais. Mas E., de 16 anos, V., de 18 anos (tinha 17 quando foi apreendido), W., de 18 anos (tinha 17 quando foi apreendido) e E., de 17 anos, estão tendo uma segunda chan...
Quando a juventude é interrompida pela criminalidade, as consequências podem ser fatais. Mas E., de 16 anos, V., de 18 anos (tinha 17 quando foi apreendido), W., de 18 anos (tinha 17 quando foi apreendido) e E., de 17 anos, estão tendo uma segunda chance. Ao pagar pelos seus erros, eles contam como foi fácil entrar para o mundo do roubo e do tráfico. A justificativa é sempre a mesma, aquela mais boba possível, a de que “queria ter”. O que? Roupas e pratas. O desejo não vai muito além disso. Esses meninos não sonham com “intercâmbios”, “fazer uma faculdade” ou “comprar um carro”. As referências de desejos deles são simples e diferentes de outros tantos jovens da sua idade. Acostumados com a rua, eles perderam a liberdade e foram parar dentro da unidade da Fundação Casa de Atibaia, onde no máximo podem ficar três anos. Sentindo na pele a sensação do “cárcere”, eles temem a prisão e falam que esta foi a “primeira e última vez” que passam por essa situação
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![E., de 16 anos, diz que
entrou para a “vida do corre” — como ele costuma se referir à rotina do crime —
há quatro anos.
— Comecei a usar drogas com 11 anos, baforava lança e usava
maconha. Daí eu comecei a traficar com 12.
E. diz que trabalhava das 19h às 2h para o tráfico. Ganhava de R$
1.000 a R$ 1.500 por noite, em Joanópolis, no interior de São Paulo. Mas acabou
sendo preso por roubo qualificado.
Foi apreendido quando assaltava uma
residência na mesma região.
A apreensão aconteceu em flagrante. A própria dona da casa denunciou
que três pessoas estavam tentando roubá-la.
— Combinei com os amigos e entrei na casa. Só eu segurei. A mulher
[dona da casa] falou que tinha três e eu nunca abri a boca.
Quando questionado se essa tinha sido a primeira residência que
ele assaltou, a resposta assusta e até impressiona.
E. balança a cabeça em um
sinal de negação e responde que foram nove residências. Apesar de não ter
carteira de motorista, ele tinha uma moto e estava prestes a comprar um carro
quando foi apreendido.
O menino de pele clara e com cara de criança confirma que até já
apontou uma arma contra uma pessoa e garante que nunca machucou ninguém.
— Dava medo só](https://newr7-r7-prod.web.arc-cdn.net/resizer/v2/OYGR4BBX2NK7BBOUM6TAIKWG4Y.jpg?auth=1196520796e9d918c1b03ae2863621f6895e311ca2684fb1d1913b2e525551a5&width=780&height=520)


![Sobre o que o motivou
a entrar para o crime, ele diz que o estímulo veio do desejo de “independência”
e acabou escolhendo meios errados para conseguir.
— Eu não queria depender da minha mãe.
Queria chegar e comprar. Além da experiência de vida que parece
muito maior do que a idade que ele tem, E. é um adolescente que possui agora
responsabilidades de um adulto. Isso porque o seu filho acabou de nascer. A
namorada, de 26 anos, não é do mundo do crime.
O garoto soube da notícia quando já estava
dentro da Fundação Casa e diz que ficou feliz.
— Nós não tínhamos planejado isso. Fico
feliz e me ajudou bastante nesta caminhada.
Além da namorada, o garoto recebe a
visita da mãe. O bebê, por enquanto, ele só consegue ver por meio de foto.
— Ela [mãe de E.] falou que é
‘igualzinho a eu’.
Quando questionado sobre o que ele faria se o
filho repetisse os erros do pai, E. disse que não aguenta nem pensar.
— Vira a boca para lá!
“Eu me arrependo de
tudo”
Com o nascimento do filho, o menino imagina
o seu futuro bem diferente do seu atual presente e já faz planos.
— Eu me arrependo de tudo. Penso em
sair daqui, terminar os estudos e fazer a faculdade, ser advogado. Tem que ler
bastante](https://newr7-r7-prod.web.arc-cdn.net/resizer/v2/DZ3RTYEX7FMNLNRQQG66LCNCXI.jpg?auth=b8026c1f7dbc520e8a123f8c92743789411141588e078a8a3a31c5a39827fb34&width=780&height=520)



![W. é o típico garoto
que foi seduzido pelas conquistas materiais que o tráfico possibilitou. O
menino, que ganhava roupa usada da avó e da tia e comia arroz e feijão
diariamente, diz que queria dinheiro para comprar camisas novas e poder comer
numa lanchonete fast-food. Sim, foi por esses privilégios que ele entrou para o
mundo do crime.
Os amigos diziam que o negócio “tava
estralando”. De acordo com W, isso significa que está movimentando muito
dinheiro.
— Os moleques [diziam] ‘vamos vê se
você consegue ganhar dinheiro’.
O garoto diz que vendia
cocaína, maconha e pedras de crack. De R$ 500 por dia que lucrava, ficava com R$ 250.
— Quando estava devendo, ia trabalhar com meu pai de pedreiro para pagar](https://newr7-r7-prod.web.arc-cdn.net/resizer/v2/ZR7OAI7VBNOVZJCM5UKOZ4I7AQ.jpg?auth=0ec049c0b2eef54b84bc3c6e6bb8f4cbfba45c922244780c1b00e8ab386a5b2c&width=780&height=520)

![O adolescente foi
apreendido três meses antes de completar 18 anos. W. poderia estar dividindo uma
cela agora. Quando pensa na possibilidade de ir a um presídio, tem medo da violência.
— Eu não iria aguentar. Lá eles agridem.
Foi Deus mesmo que me fez cair aqui para não cair em um lugar pior.
Recaída
O garoto diz que saiu da vida do crime uma vez a pedido da mãe.
— Minha mãe descobriu. Eu chegava em casa com o olho vermelho.
Passou três meses fora e tinha acabado de voltar quando foi apreendido.
Agora diz que irá se distanciar de vez.
— Se os moleques voltarem a me influenciar, não vou querer mais. Construir
minha vida com a pessoa que eu amo. [Quero] ter a minha própria casa, carro
*Foto mostra internos da Fundação Casa de Atibaia](https://newr7-r7-prod.web.arc-cdn.net/resizer/v2/ODDVUG2COVOZHA6YZANXDWNBII.jpg?auth=fcc3d89486e509278914c9d1a01253b0401fe9f3da952e312d3f8331113d116f&width=780&height=520)















