"Não importa quantos segundos a Fifa quis mostrar exoesqueleto", diz brasileiro criador do projeto
Miguel Nicolelis deu uma palestra emocionada sobre o orgulho de ser "geek profissional"
Tecnologia e Ciência|Tiago Alcantara. do R7

O cientista brasileiro Miguel Nicolelis foi a principal atração da Campus Party nesta quarta-feira (4). O mais famoso cientista do País na atualidade deu sua palestra no palco principal do evento e contou como passou trinta anos estudando para tornar seu sonho em realidade: fazer uma pessoa paralizada por quase uma década conseguir se mover usando o cérebro.
Durante mais de uma hora de palestra, Nicolelis explicou a trajetória que o levou a fazer com que um paciente com lesão medular completa pudesse "driblar" essa ruptura para mandar ordens do cérebro para uma prótese mecânica. De acordo com o neurocientista, é possível extrair sinais neurais da mente de um primata e fazer um mecanismo eletrônico se mover - a ideia do projeto Andar de Novo.
Comentando a razão para sua demonstração ter apenas 19 segundos durante a abertura da Copa do Mundo no Brasil, o cientista brasileiro disse não ter entendido até agora.
— Não importa quantos segundos a Fifa quis mostrar. O importante é que os pacientes paralizados sabem que há esperança. A ciência dá esperança para essas pessoas.

Exoesqueleto "construído do nada"
O neurocientista explica que, com ajuda de seu projeto, pela primeira vez, "um primata se libertou dos limites do seu corpo". Nicolelis afirma que o exoesqueleto Brasil Santos Dumont 1 foi totalmente "construído de nada".
— Há trinta anos já havia pessoas dispostas a fazer o que muita gente julga impossível. É isso que um cientista faz, viver a vida inteira desafiando a lógica do status quo.
Nicolelis ainda revelou que o paratleta, Juliano Pinto, 29 anos, a quase uma década paralizado, conseguiu mover sua perna e carregou o lenço que Santos Dumont usou quando voou no 14-Bit - o maior herói da ciência nacional, segundo o criador do projeto Andar de Novo.
Saiba como funciona o exoesqueleto demonstrado por Nicolelis
O cientista ainda explicou que, para evitar uma fratura, por conta da osteoporose dos pacientes, houve a necessidade de reduzir a velocidade do andar do exoesqueleto.
- Adaptamos o que há de mais moderno na tecnologia telefônica do mundo, que ainda não está nos celulares de vocês. É uma nova era. Nossos netos vão entrar em casa e controlar tudo só com o pensamento.
O futuro
Para poder ouvir e traduzir os sinais elétricos que acontecem no cérebro dos primatas - as chamadas tempestades neurais (brainstorm, em inglês ) - Nicolelis comenta que foi preciso investimento em tenologia que não existia.
O cientista comenta o uso de métodos matemáticos para decodificar a atividade do cérebro. Segundo ele, o cérebro está sempre um terço de segundo a frente do futuro. Ou seja, para mexer um dedo, o ser cria uma espécie de comando (mais como um programa) para que a medúla possa interpretar e os músculos façam essa tarefa.
Além de comentar o projeto nacional, o neurocientista afirmou que, no futuro, a internet poderá ser controlada pelo cérebro das pessoas.
Sobre o palestrante
Miguel Nicolelis cursou medicina na Universidade de São Paulo (USP) e fez doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas, também na USP. Em 1989, iniciou pós-doutorado na Universidade Hahnemann, na Filadélfia. Em 1994 foi contratado como Professor Assistente de Neurobiologia da Duke University, na Carolina do Norte.
Atualmente é Professor Titular de Neurobiologia e Co-Diretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University EUA e Coordenador do Instituto Internacional de Neurociências de Natal-Edmond e Lily Safra (IINN-ELS) - Brasil.
Chefia um grupo de 30 pesquisadores do Centro de Neuroengenharia da Duke University, que emprega as ferramentas computacionais da robética e da neuroengenharia para desenvolver neuropróteses capazes de restaurar a mobilidade dos membros superiores de pacientes paralisados por trauma ou degeneração do sistema nervoso central.
Ele lidera o projeto "Andar de Novo", consórcio internacional que propõe construir a primeira neuroprótese, também conhecida como "exoesqueleto".















