‘Café com mate’: eixo Rio-SP domina condução econômica do Brasil há décadas
Nos últimos 15 governos, o Ministério da Fazenda foi comandado predominantemente por paulistas e fluminenses
Brasília|Deborah Hana Cardoso, da RECORD
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O período eleitoral traz novas discussões sobre como resolver velhos problemas: desenvolvimento social, educação, saúde, segurança pública etc. Todas essas questões passam pelo Ministério da Fazenda, a pasta responsável, hoje, por executar a política econômica que impacta a vida de 213,4 milhões de brasileiros.
Após o resultado das eleições presidenciais, setores como o mercado financeiro já ficam de olho nos nomes cotados para ocupar a cadeira. Ao longo das décadas, muitas foram as discordâncias sobre a condução econômica do país, mas os governos parecem convergir em um ponto: a origem dos ministros escolhidos, que são, em sua grande maioria, fluminenses ou paulistas.
A gestão Lula 3 é um exemplo disso. Em 2022, o presidente anunciou Fernando Haddad (SP) para o posto. Neste ano, o paulistano deixou a cadeira para voltar à terra natal e concorrer ao Palácio do Bandeirantes. Agora, a Fazenda é gerida pelo ex-chefe executivo e conterrâneo de Haddad, Dario Durigan.
Antes de Durigan, o secretário-executivo da pasta era Gabriel Galípolo, também de São Paulo. Ele não chegou a comandar o ministério, mas foi alçado à presidência da maior autoridade monetária do país: o Banco Central.
A gestão de Jair Bolsonaro não foi tão diferente. Em vez de um paulista, o então presidente da República escolheu o fluminense da Faria Lima Paulo Guedes para comandar o Ministério da Economia. Guedes ficou na cadeira até o final do mandato presidencial.
De acordo com um levantamento feito pela RECORD desde os governos militares até os dias atuais, 17 paulistas e fluminenses sentaram na cadeira (nove de São Paulo, oito do Rio de Janeiro). Seguindo o ranking, aparecem dois ministros de Minas Gerais.
Ceará, Espírito Santo, Goiás, Paraíba, Pernambuco e Paraná tiveram o controle da pasta uma vez cada. Até a Itália esteve presente na lista com Guido Mantega, ítalo-brasileiro nascido em Gênova.
Nenhum representante da região Norte ocupou o posto.
O que explica a hegemonia RJ-SP?
Alguns fatores podem ajudar a explicar a predominância do eixo Rio-SP na pasta. O PIB (Produto Interno Bruto) da região Sudeste ainda é o maior do país. Aproximadamente R$ 5,8 trilhões - cerca de 53% de toda a economia nacional.
No caso paulista, o estado abriga o coração financeiro do país, a Av. Faria Lima. Além disso, A B3 - bolsa de valores - do país também fica em São Paulo.
O Rio de Janeiro, além de ser o berço do antigo império do Brasil, também sedia a Petrobras e abriga as únicas usinas nucleares do país: Angra 1, 2 e 3. As receitas do petróleo e dos parques industriais são importantes ativos políticos, assim como o turismo proveniente do maior cartão-postal do país.
A economista da Comissão da Mulher do Corecon-SP Eduarda Lima Gomes explicou que os ativos financeiros não explicam toda a história da hegemonia da Fazenda do “café com mate”. “A economia brasileira sempre esteve muito concentrada no Sudeste, mas essa região também reúne, historicamente, universidades de excelência, centros de pesquisa, grandes empresas e instituições financeiras que influenciam diretamente a formulação da política econômica.”
A região abriga as principais universidades do país, como a USP (Universidade de São Paulo) e a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O Sudeste também possui o maior colégio eleitoral do país. De acordo com o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), a região detém 41,78% do eleitorado - considerando Minas Gerais e Espírito Santo.
“Esse cenário faz com que os profissionais que almejam ocupar cargos de alta relevância na gestão econômica acabem migrando para esses centros em busca de formação e oportunidades. Isso fica evidente ao observarmos a trajetória de diversos ministros da Fazenda: Fernando Haddad, Henrique Meirelles, Guido Mantega, Antonio Palocci e Zélia Cardoso de Mello são formados pela USP, enquanto Pedro Malan, Joaquim Levy e Nelson Barbosa tiveram sua formação na UFRJ”, destacou.
O cientista político Bernardo Livramento reiterou o processo natural da influência do eixo. “Esse é um processo ‘natural’ [...] já que os atores econômicos ficam majoritariamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Os mais hegemônicos na cultura estão localizados nesses estados; quando você pega os mais hegemônicos em termos acadêmicos, eles normalmente vêm desses estados”, afirmou.
Falta diversidade na Esplanada?
Enquanto o Brasil debate diversidade e cotas para ingresso no ensino superior, a Esplanada dos Ministérios mostra que ainda existe uma barreira entre grupos minoritários e posições de tomada de decisão.
Em universidades e institutos federais, 50% das vagas são reservadas por lei para estudantes de escolas públicas, dividindo-se em critérios de renda, raça (pretos, pardos e indígenas), quilombolas e pessoas com deficiência.
Já no Ministério da Fazenda, apenas uma mulher ocupou a liderança da pasta: Zélia Cardoso de Mello, natural de São Paulo. Ela foi indicada por Fernando Collor de Mello em 1990 e deixou o cargo em 1991. A então ministra foi responsável pelos “Planos Collor 1 e 2”.
Para Eduarda Lima Gomes, esse dado chama a atenção porque “evidencia que ainda existe uma distância entre a qualificação das mulheres e sua presença nos espaços de maior poder de decisão”.
Segundo o IBGE e o Censo da Educação Superior do Inep, as mulheres representam a maioria das pessoas com ensino superior completo no Brasil e predominam em cursos como direito, administração e ciências contábeis. “Ainda assim, essa qualificação não se reflete na mesma proporção nos cargos de liderança econômica e política”, observou a economista.
Para ela, há um desafio claro na ocupação feminina nesses postos de poder. “O desafio agora é fazer com que essa evolução se reflita nos mais altos espaços de decisão, para que a presença de mulheres em cargos estratégicos seja consequência natural da competência, da preparação e da igualdade de oportunidades”, disse.
Além da discrepância entre homens e mulheres à frente da pasta, pessoas pretas, pardas, amarelas e indígenas nunca ocuparam o posto.
Na análise de Bernardo Livramento, a dificuldade para que minorias ocupem o Bloco P da Esplanada dos Ministérios é a mesma para que uma mulher negra seja indicada ao STF (Supremo Tribunal Federal). “Esses grupos, historicamente, foram afastados dos locais de poder”, afirmou.
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