‘Falhas técnicas recorrentes’ causaram acidente da Voepass com 62 mortos, conclui Cenipa
Cultura da empresa tolerava improvisos de mecânicos e uso de peças desgastadas para não interromper operações, indica investigação
Brasília|Luiza Marinho* e Mariana Saraiva, do R7, em Brasília
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O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) concluiu que a queda de um avião da Voepass, em Vinhedo (SP), em agosto de 2024, foi provocada por uma sucessão de falhas técnicas, operacionais, humanas e organizacionais. Segundo o relatório final, a aeronave perdeu desempenho devido ao acúmulo de gelo, a tripulação deixou de executar procedimentos previstos diante de sucessivos alertas e fragilidades na gestão da segurança da empresa contribuíram para o acidente, que matou 62 pessoas.
Segundo o relatório final da investigação preventiva, panes relacionadas ao sistema de proteção contra gelo se repetiram em voos anteriores da mesma aeronave, mas deixaram de ser registradas oficialmente, permitindo que o avião continuasse operando.
O voo 2283 partiu de Cascavel (PR) com destino a Guarulhos (SP) em 9 de agosto de 2024 e perdeu sustentação após o acúmulo severo de gelo nas asas, caindo sobre um condomínio residencial em Vinhedo (SP), matando as 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e quatro tripulantes.
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Cultura de informalidade
Ao apresentar as conclusões da investigação, o tenente-coronel Paulo Froes detalhou a sequência de análises realizadas pelo Cenipa, que abrangeram a descrição dos sistemas da aeronave, os voos anteriores ao acidente, dados do programa FDM (Flight Data Management), aspectos organizacionais da companhia, fatores contribuintes, ações corretivas e recomendações de segurança.
Segundo Froes, além das análises técnicas, o Cenipa examinou 1.206 voos operados pela empresa e concluiu que havia uma cultura organizacional marcada pela normalização de desvios e pela informalidade.
Segundo o relatório, a investigação encontrou um sistema deficiente para reporte de panes, além da realização de serviços por auxiliares de mecânicos sem a devida supervisão.
A cultura favorecia que falhas deixassem de ser oficialmente registradas para evitar que as aeronaves fossem retiradas de operação.
O levantamento também apontou que diferentes tripulações que usavam a aeronave do acidente adotavam procedimentos distintos para lidar com problemas semelhantes, indicando que improvisos haviam se tornado parte da rotina operacional.
Na área de manutenção, o Cenipa identificou ainda que mecânicos, em algumas situações, transferiam componentes entre aeronaves, inclusive peças que já apresentavam desgaste ou funcionamento inadequado.
Falhas
A investigação identificou que a mesma aeronave havia apresentado ocorrências relacionadas ao sistema de proteção contra gelo nos três voos anteriores ao acidente.
Além disso, o relatório também revelou a existência de um voo em condição de estol que não havia sido comunicado à Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) nem ao próprio Cenipa, apesar de a notificação ser obrigatória.
*Estagiária do R7, sob supervisão de Augusto Fernandes, editor-chefe.
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