Entre Washington e Pequim, Brasil terá de equilibrar interesses sob Flávio ou Lula
Próximo governo deve priorizar uma política externa orientada por resultados econômicos, apontam especialistas
Brasília|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

A relação comercial do Brasil com a China e os Estados Unidos deve ser um dos principais desafios no campo diplomático para o próximo presidente da República.
Seja para Flávio Bolsonaro (PL) ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputam o Palácio do Planalto, o foco para 2027 deve ser a priorização de uma política externa orientada por resultados econômicos, sem condicionar relações comerciais à afinidade ideológica. É o que defende o especialista em comércio exterior Jackson Campos.
“A diplomacia comercial precisa caminhar junto com a redução dos custos internos. Negociar tarifas menores perde parte do efeito quando a carga enfrenta acessos precários aos portos, burocracia e atrasos no desembaraço. Nossos negociadores são resilientes, mas precisam de orientação clara e respaldo político”, diz Campos.
Leia Mais
Lula
No caso do atual presidente, o coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC-PR, João Alfredo Lopes Nyegray, explica que as políticas do petista apontam para a continuidade do que já vem sendo feito.
Neste mandato, o governo Lula foi responsável pelo avanço no acordo entre Mercosul e União Europeia, além da parceria do bloco com a EFTA (bloco formado pela Suíça, Noruega, Islândia e Liechtenstein). Nos últimos anos, Lula tem focado em uma maior relação com países asiáticos e europeus, com uma gestão marcada pelo aumento da tensão com os EUA.
O estresse entre o Planalto e a Casa Branca se estende desde o ano passado. Marcada por diferenças ideológicas, a crise tem envolvido disputas comerciais, tarifas de importação e divergências políticas.
Entenda como Lula e Trump superaram mal-estar e iniciaram aproximação
Para Nyegray, a mudança mais visível em um possível quarto mandato não estaria nas alianças, e sim no tratamento dos recursos estratégicos.
“Os minerais críticos passaram a ser tratados como tema de segurança nacional, e há setores do governo que defendem até uma nova estatal, a Terrabras. Seria a política externa entrando de vez na política industrial, com um viés mais estatizante do que o mercado gostaria”, comenta.
José Paulo Ferreira, cientista político e doutorando em Relações Internacionais pela UnB (Universidade de Brasília), acredita que o petista deve apostar na retomada do plano de autonomia do Brasil, preservando a capacidade de decisão diante das pressões externas.
Apesar de Lula buscar manter uma boa relação e acordos com todos os parceiros, Ferreira diz sentir falta da retomada de um sentido programático para o projeto de integração do Mercosul.
“Esse aspecto ficou estagnado no último governo, e também não há uma projeção clara de sua retomada. Isso seria particularmente importante porque o Mercosul é peça central tanto na estratégia regional do Brasil quanto em sua estratégia de inserção econômica internacional”, completa o especialista.
Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro já expôs diversas vezes sua preferência pelos Estados Unidos. Em algumas falas públicas, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro fez críticas à relação de Lula com a China, mas prometeu manter um vínculo pragmático com o país asiático.
Desde 2009, o país asiático é o maior parceiro comercial do Brasil, tendo alcançado o recorde no intercâmbio comercial em 2025, com US$ 100 bilhões. Além da China, o governo brasileiro negocia acordos de livre comércio com a Coreia do Sul e Japão.
O plano de Flávio é descrito como economicamente pragmático, mas com um discurso mais duro. A estratégia principal deve ser usar a afinidade com os presidentes dos EUA, Donald Trump, e da Argentina, Javier Milei, como alavanca comercial: tarifas, investimento em minerais críticos, OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e integração a cadeias produtivas ocidentais.
Nyegray alerta para o risco de radicalização na escolha de representantes do Brasil no exterior. Recentemente, o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, publicou vídeos nas redes sociais sinalizando que ocuparia o posto de chanceler.
“Se o Itamaraty voltar a funcionar como em 2019 e 2020, o Brasil repetiria o maior erro daquele período: diplomacia de militância, atritos gratuitos com parceiros decisivos e perda de credibilidade em fóruns multilaterais”, comenta o especialista.
Entretanto, Nyegray entende que podem ter acertos, como a volta de um bom relacionamento com Washington, normalização do diálogo com Buenos Aires e Assunção (Paraguai), além do avanço de uma agenda de abertura comercial que o país adia há décadas.
“Vale lembrar que o próprio Jair Bolsonaro corrigiu o rumo no meio do mandato. Na cúpula de 2019 em Brasília, ele defendeu com ênfase a relevância dos Brics. Se Flávio começar onde o pai terminou, e não onde o pai começou, o saldo tende a ser positivo”, destacou Nyegray.
Papel do Brics
O Brics — bloco formado por 11 países, entre eles a Rússia, Índia e China — é uma das parcerias mais importantes para o Brasil. Além de fortalecer a influência do país em decisões internacionais, abre oportunidades em áreas como energia, infraestrutura e tecnologia.
Flávio nunca mencionou oficialmente a intenção de retirar o Brasil dos Brics, mas sugeriu restrições em relação ao bloco.
O cientista político José Paulo Ferreira explica que, entre os arranjos multilaterais integrados pelo Brasil, uma possível saída dos Brics não seria tão complicada.
“O mais provável, nesse sentido, seria uma desarticulação: não participar das cúpulas ou enviar apenas o chanceler, sem o engajamento do presidente da República. Um passo maior seria abandonar o Novo Banco de Desenvolvimento e o Arranjo Contingente de Reservas, que, aí sim, são instituições formalizadas no âmbito do Brics”, finaliza.
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp



















