Brasília 'Espirrou, toma', diz médica da Prevent sobre cloroquina

'Espirrou, toma', diz médica da Prevent sobre cloroquina

Mensagens foram mostradas em sessão na CPI. Elas foram encaminhadas à ANS por médica da operadora denunciando o caso

  • Brasília | Sarah Teófilo, do R7, em Brasília

Denúncia de médica encaminhada à ANS mostra diálogos de diretores da Prevent Senior pressionando médicos a receitar cloroquina a pacientes com Covid-19

Denúncia de médica encaminhada à ANS mostra diálogos de diretores da Prevent Senior pressionando médicos a receitar cloroquina a pacientes com Covid-19

Divulgação

Mais mensagens obtidas pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid-19 reforçam as denúncias contra a operadora de Saúde Prevent Senior de que havia determinação expressa para receitar medicamentos do chamado "kit Covid", ineficazes contra a Covid-19. As mensagens foram enviadas no começo do mês por uma ex-médica da Prevent, desligada no ano passado, à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

"Não entendi, porque no fluxograma não está mais a cloroquina. É para continuar passando ou não?", questiona a médica em uma conversa de WhatsApp. Uma mulher, apontada pela denunciante como diretora da Prevent, responde: "Sim. Espirrou, toma. Os resultados estão ótimos. Bora prescrever". As mensagens foram mostradas pelo vice-presidente da CPI, Randolfe Rodrigues (Rede-AP), durante sessão desta quarta-feira (6) que ouviu o diretor-presidente da ANS, Roberto Rebello Filho.

A médica em questão, segundo Randolfe, fez denúncias contra a Prevent à ANS em março e maio do ano passado, e depois novamente em abril deste ano. Ela foi desligada da operadora em meados de 2020. A agência só entrou em contato para pedir mais detalhes em outubro, após o caso da Prevent ser amplamente divulgado na CPI. Após pedido de mais informações da ANS, a médica enviou as mensagens de WhatsApp e afirmou que "havia uma imposição por parte da operadora Prevent Senior para que os profissionais de saúde prescrevessem determinados medicamentos ('kit Covid') aos pacientes com Covid-19, restringindo a autonomia médica".

Em outra conversa anexada por ela, uma médica identificada como diretora envia um texto, em 19 de março do ano passado, dizendo que será iniciado um protocolo para pacientes internados com Covid-19, e que os profissionais deveriam prescrever hidroxicloroquina associado a azitromicina. "Quem tiver paciente internado, favor prescrever para todos os casos."

Em outra mensagem, do dia 25 de março de 2020, um diretor diz que vão começar o protocolo de hidroxicloroquina e azitromicina para pacientes ambulatoriais que preencherem critério. "Por favor, não informar o paciente ou familiar sobre a medicação e nem sobre o programa", informa ele no fim da mensagem.

A data coincide com um estudo de cloroquina feito pela operadora em pacientes, entre os dias 26 de março e 4 de abril. Denúncias apuradas pela CPI apontam suspeita de que a Prevent teria ocultado mortes pela doença no estudo. À CPI, Pedro Benedito Batista Júnior, diretor-executivo da Prevent, disse que foi apenas um "estudo observacional" e acusou funcionários de manipular dados.

Segundo o relato da médica à ANS, após o período em que não se podia informar os pacientes, a operadora passou a fornecer um termo de consentimento para prescrever o "kit Covid". Os médicos, entretanto, teriam sido orientados a entregar o termo pelo atendente da farmácia "para que os beneficiários não fossem devidamente informados sobre os riscos do uso dos medicamentos ou teriam que fazer pelo celular".

"Mas vários pacientes não conseguiam fazer, especialmente os idosos sem acompanhantes. A todos os pacientes que atendi, orientei não haver evidência científica, orientei sobre as contraindicações e os efeitos colaterais", afirmou a médica na denúncia.

Em depoimento à CPI, a advogada Bruna Morato, que representa um grupo de médicos que enviou à comissão uma série de denúncias que fomentou apurações em relação à operadora, também afirmou que os pacientes não sabiam do termo de consentimento. "Isso não era posto como um termo de autorização. Quando ele chegava à farmácia, no momento em que ia fazer a retirada do medicamento, era passada a seguinte informação: 'Para retirar essa medicação, o senhor precisa assinar aqui'. Ele não tinha ciência de que o 'assina aqui' era o termo de consentimento", afirmou a advogada aos senadores.

Sobre outras conversas enviadas à CPI por um grupo de médicos e ex-médicos da Prevent Senior, o diretor Pedro Batista e a própria operadora alegaram que as mensagens haviam sido retiradas de contexto. O diretor ainda negou que a empresa enviasse o chamado "kit Covid" a beneficiários da operadora. “Eram enviadas as medicações prescritas pelos médicos. Nunca houve kit. Variavam as prescrições. O que foi enviado foram medicações conforme a prescrição médica”, afirmou.

Orientação por cloroquina

Outra mensagem encaminhada por um diretor, em 9 de maio do ano passado, diz: "Estão [sic] caindo o número de tratamentos feitos nos Ps [postos de saúde] nos últimos 2 dias. Peço que mantenham o foco. O tratamento precoce que faz ganharmos o jogo e principalmente diminui o risco dos pacientes". Na mensagem, orienta-se que o tratamento com os medicamentos ineficazes contra a Covid devem ser propostos a qualquer paciente com sintomas respiratórios.

Outro texto encaminhado por WhatsApp por um diretor, em novembro de 2020, diz que é preciso voltar a fortalecer a indicação de tratamento precoce em casos suspeitos de Covid. "Qualquer caso suspeito merece ser considerado o tratamento", pontuou. Ainda no rol de mensagens enviadas pela médica à ANS, há um texto encaminhado por WhatsApp por, segundo a denúncia, uma plantonista dizendo que não queria prescrever o "kit Covid", em março deste ano. A plantonista diz ter recebido a orientação de que a prescrição do kit era obrigatória. "Porém, não me sinto confortável com esta prescrição", escreveu. 

Envio do kit
Apesar da negativa de Pedro Batista à CPI sobre envio do "kit Covid", uma denúncia obtida pelo R7 e revelada no dia 21 de setembro mostrou que um segurado da Prevent afirmou que a operadora encaminhou diversos medicamentos do kit sem que ele detalhasse seu estado de saúde. Na ocasião, a assessoria da empresa não negou a remessa do kit, informou que a Prevent enviava os medicamentos a pessoas que não tinham necessidade de internação, durante o período de isolamento social. De acordo com a assessoria, os pacientes eram monitorados diariamente, e o kit era enviado mediante assinatura de termo de consentimento.

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