Brasília Testemunhas relatam ameaças praticadas por sargento agiota

Testemunhas relatam ameaças praticadas por sargento agiota

Vítimas eram obrigadas a pagar juros altos periodicamente. Militar levava vida de luxo, com gastos incompatíveis com seu salário

  • Brasília | Sarah Teófilo e Kelly Almeida, do R7, em Brasília

Suspeito de agiotagem, sargento Ronie Peter levava vida incompatível com renda

Suspeito de agiotagem, sargento Ronie Peter levava vida incompatível com renda

Reprodução

Maldivas, Portugal, Emirados Árabes, Rússia, Espanha, Tailândia e México. Esses são alguns dos destinos explorados pelo sargento da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) Ronie Peter Fernandes da Silva. O dinheiro que financiava o luxo do militar com viagens e carros era, na maioria das vezes, obtido com agiotagem e lavagem de dinheiro, conforme suspeita a Polícia Civil do DF. Ronie e o irmão, Thiago Fernandes da Silva, foram presos na última semana por suspeita de chefiarem um esquema de agiotagem que envolvia ainda o pai da dupla, Djair Baia da Silva, e outras três pessoas.

Em três meses de investigação, a Divisão de Repressão a Roubos e Furtos da Polícia Civil do DF (DRF/Corpatri) ouviu relatos que revelaram a violência com a qual Ronie agia com as vítimas para obter os valores emprestados e, principalmente, os juros. Observou-se que a principal fonte de renda buscada pelo grupo eram os juros abusivos, em percentuais de, no mínimo, 10% ao mês. Vítimas ouvidas pelo R7 relatam que Ronie cobrava os valores mensalmente, e, em caso de atraso, cobrava quantias a mais. “Se atrasasse um dia, ele colocava mais 20% de juros sobre os juros. No dia que ele tava bom, eram 10%”, disse uma das vítimas ao R7.

Ela pegou um valor elevado com Ronie, superior a R$ 100 mil, e tinha que pagar uma quantia mensal referente aos juros cobrados pelo militar. Se atrasasse, o sargento cobrava em cima da dívida. No fim, segundo a vítima, ela teve que desembolsar muito mais do que havia pego. "Por exemplo, se eu tinha que pagar R$ 15 mil e atrasasse dois dias, virava R$ 17 mil", relata. A vítima disse que era constantemente ameaçada. "Ele ameaçava mesmo, não tinha dó. Falava: 'Se não pagar, eu vou acabar com a sua vida'. E ele usava da posição, por ser da lei. Dizia que era policial e que não dava nada [nenhum problema] para ele", explicou a vítima, que não será identificada por questões de segurança.

Outra vítima ouvida pela reportagem disse que pegou R$ 40 mil com o sargento, pagou R$ 20 mil e ficou devendo outros R$ 20 mil. Como garantia, seu único carro ficou com o militar. O principal problema, conforme o relato, confirma o que foi investigado pela polícia: os juros. "O juros são altos. Você vai pagando e chega a um momento que não consegue mais ficar pagando, só paga juros, que não são abatidos do montante. E são juros em cima de juros. Então, fica difícil pegar o bem de volta", contou.

Ronie costumava pegar imóveis e veículos das vítimas, e ameaçava vendê-los em caso de atraso no pagamento dos juros. Para ficar com o imóvel, ele obrigava as pessoas a fazer uma procuração registrada em cartório no nome do militar, o que dava a ele plenos poderes para comercializar os bens. Na sua casa, no dia da operação, a polícia encontrou diversas procurações do tipo.

"Eu não tinha margem para fazer empréstimo no banco, e precisava do valor para resolver um problema de saúde. Falei com ele, ele perguntou se eu tinha alguma coisa para deixar de garantia, eu disse que tinha um carro. Ele disse que eu passasse o veículo no cartório para ele, uma procuração, ele transferia o dinheiro”, relatou outra vítima, que também não será identificada por questão de segurança.

Mensalmente, ela tinha que pagar 10% de juros sobre o valor da dívida que restava. Todos os meses, então, desde o fim do ano passado, pagava R$ 2 mil de juros ao sargento da PMDF. O valor pago até a prisão de Ronie já superou os R$ 20 mil que ela tem de dívida com o suspeito de agiotagem. "Mesmo com toda a dificuldade, eu sempre pagava. Tirava da boca para pagar esses juros, desde novembro [de 2020]", explicou.

A vítima afirmou que não tinha conhecimento de que se tratava de um grupo criminoso que fazia o mesmo com diversas outras pessoas e movimentava milhões de reais, nem de que o militar levava uma vida de luxo, apesar do salário de cerca de R$ 8 mil. "Levei um susto ao saber a quantidade exorbitante de dinheiro, e ele cobrando juros. Para ele, foi lucro em cima de lucro, e, para mim, prejuízo", afirmou. Ela ressaltou que o militar se beneficia da posição para prejudicar outras pessoas.

Um dos áudios enviados por Ronie a uma das vítimas mostra que as ameaças de vender os bens das pessoas eram constantes. "Segunda-feira tu me transfere R$ 1 mil daqueles juros atrasados. Você teve o mês todinho, passou, seus negócios são para sexta, então na segunda é R$ 1 mil. Senão eu vou passar esse carro para a frente. Eu guardo carro velho, não tem problema, tem cara que deixa carro de R$ 1 milhão comigo e paga certinho. O seu era R$ 800, [agora] vai pagar R$ 1 mil para aprender”, disse Ronie a uma das vítimas, segundo áudio obtido pelo R7.

O relato de outra vítima também confirma o modus operandi de Ronie. Ela conta que, no seu caso, não chegou a ser ameaçada, mas que tinha que pagar juros no prazo estipulado pelo policial militar. Na última vez que pegou um valor com ele, o combinado era pagar os juros a cada dez dias, e que, por mês, chegava a 40% de juros. Caso atrasasse o pagamento, teria que pagar R$ 100 por dia. 

Movimentação financeira

Para tornar lícito o dinheiro obtido ao longo dos anos, o PM criou uma rede de empresas (existentes e de fachadas) e pessoas para lavar os recursos. As movimentações financeiras eram expressivas, na ordem de milhões de reais, apesar do salário de aproximadamente R$ 8 mil do militar. A situação chamou a atenção do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Relatório feito pelo órgão chegou a apontar indicativo de agiotagem na atividade de Ronie. O órgão de fiscalização indicou movimentação financeira do militar incompatível com a renda declarada.

Conforme o Coaf, entre maio de 2017 e dezembro do ano passado, Ronie movimentou quantia superior a R$ 6 milhões em uma única conta-corrente. Um mercado em nome de Thiago e Djair, o irmão e o pai do militar, movimentou R$ 8,5 milhões, entre fevereiro e agosto deste ano. O valor é considerado incompatível com o porte da empresa, cujo faturamento é de R$ 30 mil mensais. Além disso, o Coaf indicou movimentação atípica de uma empresa de locação que, conforme investigação, não existe fisicamente, o que faz a polícia acreditar que se trata de uma empresa de fachada.

Há, ainda, transações atípicas identificadas pelo órgão de controle que envolvem Raiane Gonçalves, que está entre os alvos da operação da Polícia Civil. Ela é dona de uma empresa de estética e consta como proprietária de um veículo da marca Porsche usado por Thiago e Ronie. A empresa dela tem faturamento de R$ 110 mil e movimentou, entre janeiro e agosto de 2021, R$ 8,8 milhões. O Coaf suspeita do uso de valores de terceiros para fins de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro. As empresas e pessoas envolvidas recebiam e repassavam recursos entre si.

A empresa de Raiane, por exemplo, recebeu valores do mercado da família de Ronie.
O Coaf também detalha a movimentação de uma loja de uma rede de fast-food em Vicente Pires. Ela está em nome de Alexandre Rodrigues de Souza, um dos alvos da operação. A loja tem movimentação financeira atípica, segundo o Coaf, e costuma receber valores de pessoas físicas diversas e empresas do ramo de compra e venda de veículos.

Lavagem de dinheiro

Ronie Peter foi preso por suspeita de agiotagem, ameaça e lavagem de dinheiro. Segundo as investigações, ele e seu irmão, Thiago, são considerados os líderes do grupo criminoso. Djair, o pai, ajuda na lavagem do dinheiro. Os outros envolvidos são investigados pela sequência de transações e saques em contas de empresas de fachada. O objetivo do grupo seria dar aparência lícita aos valores adquiridos por meio de agiotagem. Eles também auxiliavam na ocultação dos valores, cedendo o nome para registro de veículos de luxo usados pelos irmãos Ronie e Thiago.

O que dizem os investigados

Em nota, a defesa do sargento Ronie Peter informou que o cliente não teve "direito ao contraditório em razão de se tratar de uma investigação policial, que boa parte do procedimento investigatório tramita em sigilo", e que "tudo será esclarecido no curso do procedimento". Detalhou ainda que "podemos afirmar que foram intimadas pessoas apontadas nas investigações como vítimas, contudo, após esclarecerem as transações comerciais para a Autoridade Policial, estas não tiveram seus depoimentos formalizados e foram dispensadas sem qualquer registro".

O advogado de Thiago Fernandes, irmão de Ronie, informou que "jamais houve qualquer imputação de constrangimento, por quem quer que seja, mediante violência ou grave ameaça, com o fim de recebimento de vantagem econômica indevida ao investigado, elementos imprescindíveis à configuração do citado crime". A defesa disse ainda que "o investigado vem colaborando com as investigações, inclusive, no que tange à entrega de senhas de aparelhos eletrônicos".

A defesa de Raiane Gonçalves informou que, além de nutricionista, ela é "empresária do ramo imobiliário, onde realiza compra e venda de imóveis e veículos de luxo", e que "no mês de junho de 2021 vendeu para Thiago Fernandes o veículo Porsche Carrera 911, de cor vermelha, pelo valor de R$ 740.000,00. À época da venda do veículo Thiago pagou parte do valor à vista e financiou o restante e que só descobriu a não transferência do referido veículo junto ao órgão de trânsito competente com os últimos acontecimentos". A defesa diz ainda que ela vendeu outros três carros para Thiago e que "os valores foram pagos através de transferência bancária de titularidade da empresa TR alimentos [um mercado em nome de Thiago e do pai]".

Os advogados da nutricionista confirmaram dois saques feitos por ela, sendo um de R$ 800 mil e o outro de R$ 530 mil. "Utilizando tais valores para realização de pagamentos diversos, os quais possuem comprovantes e que estão à disposição da Justiça", complementa a nota.

Em nota, a Polícia Militar do DF garantiu que "já instaurou um procedimento apuratório sobre o caso de imediato" e que "não compactua com qualquer desvio de conduta de seus integrantes". "Comprovado os indícios de irregularidades ou crime, todas as medidas cabíveis ao caso serão tomadas", acrescentou. 

Os outros investigados não foram localizados pela reportagem. O espaço segue aberto.

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