Médica suspeita de eutanásia em UTI pode sair da cadeia hoje
Virgínia Helena está presa há 15 dias. Habeas corpus deve ser julgado nesta quinta-feira (6)
Cidades|Fernando Mellis, do R7

Suspeita de antecipar a morte de pacientes internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Universitário Evangélico, desligando aparelhos e aplicando coquetéis de remédios, a médica Virgínia Helena Soares de Souza, de 56 anos, poderá deixar a cadeia nesta quinta-feira (7), caso desembargadores do TJ-PR (Tribunal de Justiça do Paraná) concedam habeas corpus a ela. Virgínia está presa desde o dia 19 de fevereiro, em um presídio feminino na região metropolitana de Curitiba.
No pedido de habeas corpus envido à Justiça no dia 27 de fevereiro, o advogado Elias Mattar Assad afirmou que não há provas de existência de fato criminoso no pedido de prisão da médica. Ele acrescentou que a polícia estava “escudada em falsa premissa de estar investigando crime contra a vida”.
A Polícia Civil indiciou Virgínia, outros quatro médicos e uma enfermeira por homicídio qualificado — sem chance de defesa das vítimas — e formação de quadrilha. Durante as investigações, encerradas na última segunda-feira (4), a polícia gravou conversas telefônicas da médica com funcionários e ouviu familiares das supostas vítimas e pessoas que trabalham no hospital.
Nas escutas telefônicas, obtidas com autorização da Justiça, a médica foi ouvida conversando sobre desligar aparelhos e comentando sobre a lotação da UTI.
Para a defesa, isso não é o suficiente. O advogado Elias Mattar Assad garante que não há qualquer relação entre as pessoas que morreram na UTI do Hospital Evangélico de Curitiba com alguma ação humana praticada pela médica.
Assad argumenta que as conversas são perfeitamente normais e foram mal interpretadas pela polícia. O advogado também criticou e pediu a anulação das transcrições das gravações feitas pela Polícia Civil, em que a palavra “raciocinar” foi escrita como “assassinar”.
Entenda o caso
A chefe da UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba (PR), um dos mais importantes do Paraná, foi presa no dia 19 de fevereiro por policiais do Núcleo de Repressão aos Crimes Contra a Saúde. Virgínia Helena Soares de Souza, de 56 anos, é suspeita de ter praticado eutanásia — antecipar a morte de pacientes internados na unidade.
As investigações começaram há um ano, após denúncias de funcionários do próprio hospital à ouvidoria do governo do Paraná. Ela foi indiciada por homicídio qualificado, por não haver chance de defesa das vítimas.
Gravações de telefonemas feitas com autorização da Justiça mostraram conversas da médica com outros médicos e demais funcionários. A polícia entendeu, após ouvi-las, que Virgínia ordenava o desligamento de aparelhos de alguns doentes.
Virgínia trabalhava na unidade há 24 anos. Ela era casada com o chefe da UTI, Nelson Mozachi, e assumiu o cargo quando ele morreu, em 2006.
Em nota divulgada no dia da prisão, o Hospital Universitário Evangélico disse que abriu sindicância interna para apurar os fatos, que reconhece a competência profissional de Virgínia e que “desconhece qualquer ato técnico dela que tenha ferido a ética médica”. Toda a equipe do setor foi trocada.
O CRM-PR (Conselho Regional de Medicina do Paraná) manifestou preocupação com a “condenação pública” dos envolvidos sem que “sejam realmente avaliados e julgados por quem de direito”.
Por meio de carta, a médica se disse vítima de ex-funcionários. O filho dela, Leonardo Marcelino, e o advogado, Elias Mattar Assad, disseram que tudo “é um grande erro da polícia” e que as denúncias “são baseadas em depoimentos e não em provas”.
Apesar de estar na UTI do hospital desde 1998 e chefiar o setor há sete anos, Virgínia não era especialista na área. Segundo a polícia, quem assinava por ela como chefe da unidade era outro médico.
No dia 23 de fevereiro, a Justiça expediu quatro mandados de prisão para três médicos e uma enfermeira. Os anestesistas Edson Anselmo da Silva Júnior, Maria Israela Boccato e Anderson de Freitas foram levados à delegacia no mesmo dia. A enfermeira Laís Grossi se apresentou no dia 25 do mesmo mês. Já a médica Krissia Wallbach, apresentou-se à polícia no dia 5 de março, foi indiciada, mas permanece em liberdade.
Os médicos presos negam qualquer conduta antiética e foram orientados pelo advogado de Virgínia a ficarem calados. Foi iniciada uma investigação dentro do hospital, inclusive com membros do Ministério da Saúde, para constatar eventuais irregularidades praticadas pela médica ou por outros profissionais.
Nove dias após ser presa, Virgínia Helena foi transferida do Centro de Triagem para o presídio feminino de Piraquara, cidade na região metropolitana de Curitiba. Junto com ela, foi a médica Maria Israela Boccato, também suspeita de envolvimento nas mortes.










